OS GUARDIÕES DA DOUTRINA E DA FÉ E A INFILTRAÇÃO LIBERAL

Muito se tem falado nos últimos dias sobre a infiltração liberal nos partidos da esquerda. Esse é um problema real e não é de hoje. Vivemos numa sociedade de classes sob hegemonia do pensamento liberal que é quotidianamente reforçado pelos aparatos de construção das classes dominantes. Seria impossível neste cenário que o pensamento liberal não contaminasse a esquerda .
Os exemplos são muitos e estão no quotidiano. Mas vou selecionar alguns mais emblemáticos. Dez anos atrás a maior parte da esquerda apoiou a Lei da Ficha Limpa , na ilusão que o judiciário fosse um instrumento de combate a corrupção. A infiltração liberal fez com que a maior parte da esquerda perdesse a noção que não há neutralidade no Estado e que mesmo este sendo permeável á disputa, certamente o judiciário composto pela meritocracia como ela ocorre nestas latitudes, é o poder mais impermeável pela sua composição de classe e por não passar pelo crivo eleitoral. Na sequência, parte da esquerda incensou a Operação Lava Jato, demonstrando sua completa contaminação pelas ilusões disseminadas pelos aparatos mediáticos do liberalismo.
A corrupção é estrutural e deriva da desigualdade. Quanto maior a desigualdade econômica ,maior a desigualdade de poder e mais corrupta será a sociedade. Estruturalmente será o combate á desigualdade que reduzirá a corrupção. Ilusões de que o judiciário, que na sua composição reflete essa desigualdade sem mediações de qualquer espécie, seria o instrumento de combate á corrupção foram uma consequência danosa da infiltração do pensamento liberal na esquerda.
É ampla na esquerda a logica de demonização da dívida publica. Embora embalada por vezes numa retórica radical , no essencial opera dentro da logica liberal de orçamento finito de um estado com moeda soberana , o que como pensamento econômico tem a profundidade das reflexões macroeconômicas da tia do zap. A diuturna operação mediática comandada pelas organizações Globo em torno desse tema “naturalizam” o terraplanismo econômico em torno do Orçamento da União e contaminam parte da esquerda que se dedica a “operação caça ao tesouro” buscando “fontes de financiamento” para que a “União não quebre”.
Esse é um “case de sucesso” da infiltração liberal.
Outro exemplo que não poderia faltar é a minimização que parte da esquerda ainda pratica em relação ás bandeiras de direitos civis. A luta antiracista, o combate á misoginia e ao sexismo bem como á LGBTfobia, são tratadas como uma frequência ainda desanimadora como pautas laterais, de menor relevância , ou tratadas até com desconfiança pelo fato de parcela dos aparatos da burguesia disputarem influencia nesses causas num obvio esforço de legitimação social e de busca de credibilidade e influencia.
A infiltração liberal que ocorre na realidade, é fluida, trafega pelo campo das ideias e da disseminação de “consensos” construídos de cima para baixo e reforçados quotidianamente através da formação de um senso comum dócil ao Status Quo. Não é uma operação de James Bond com a infiltração de agentes treinados como quer fazer parecer a verdadeira caça as bruxas que se instalou no PSOL-RJ.
A infiltração não é uma mulher negra e periférica que ganhou uma bolsa para fazer um curso numa plataforma, onde tem acesso a dados , qualificação e informações mesmo que com um viés liberal, e que fez as escolhas que estavam ao seu alcance para sustentar sua família.
Parte dos Guardiões da Doutrina e da Fé que defendem lançar Thais Ferreira á fogueira transpiram liberalismo por todos os poros.

ADEUS CAMARADA

Nesta madrugada Marcelo Biar faleceu de Covid 19 no hospital de campanha do Leblon. Conheci Marcelo no final de 2016 mas é como se o conhecesse de toda a vida. Candidato a vereador pelo PSOL naquelas eleições municipais, nos procurou após a eleição querendo participar do nosso coletivo ainda em formação, o coletivo A ESQUERDA. Ele tinha sofrido um infarto naquele ano mas mesmo ainda se recuperando fez a campanha.
Marcelo tinha sido diretor da escola do complexo penitenciário de Bangu por 4 anos e essa experiencia marcou sua vida e militância. Ativista de direitos humanos com foco nos direitos dos cidadãos privados da liberdade , Marcelo desenvolveu relações com familiares de presos, com ex-presos, e dedicava boa parte da sua militancia á defesa desta parcela esquecida da sociedade. É de sua inspiração o projeto de lei do deputado Glauber Braga que garante direitos trabalhistas aos presos que trabalham no presidio, com direito a salário mínimo e desconto previdenciário, proposta escolhida pelos fascistas em 2018 para uma saraivada de Fake News contra Glauber e o PSOL.
Marcelo foi fundador e era presidente da ONG Instituto por Direitos e Igualdade , IDI, que tinha como foco estas causas. Uma ação do IDI teve acolhimento na justiça obrigando o governo do estado em 6 de abril deste ano , a garantir em ate 3 dias materiais de limpeza, , higiene e proteção para o sistema penitenciário com equipamentos de EPI para os agentes penitenciários, fornecimento de luvas e álcool em gel. No final de junho ele comemorava a nova sede do IDI conseguida numa licitação de imóveis abandonados da prefeitura do Rio , o que dinamizaria muito as atividades do Instituto.
Marcelo nos representava como membro da Comissão Executiva do Diretório Estadual do PSOL-RJ. Não consigo imaginar a minha militância nos últimos anos sem a presença do Marcelo. Quantas atividades de formação politica fizemos juntos. Campos, Teresópolis, Tanguá, Araruama, S.Gonçalo, Areal, Paraiba do Sul, Trés Rios, Barra do Pirai, Baixada. Onde quer que fosse ,se tivesse a presença de pessoas de bairros periféricos, sempre tinha algum parente de preso ou ex-preso, que após a exposição do Marcelo perdia o medo de falar da sua situação e dava seu depoimento. Sempre saia algum contato novo para organizar as famílias de presos.
Marcelo era um otimista. Se engajava em movimentações politicas com uma fé nos seus interlocutores que beirava a ingenuidade. isto não é uma critica, mas um elogio. Só os puros de alma têm esse dom. E com essa boa fé vinha uma disposição de buscar o impossível e com frequência tendo sucesso.
Nestes anos Marcelo Biar foi indispensável. Não consigo imaginar a minha militancia sem a sua presença . Em mensagem que me enviou dia 1 de julho manifestava seu desespero com a progressão da Covid nos presídios face á indiferença da sociedade e do estado. Em 10 dias ele próprio estava internado. Em mais 15 dias faleceu .
Gostaria de encerrar este texto dizendo que Marcelo estará presente em cada um de nós e que suas bandeiras não ficarão pelo chão, nós as carregaremos e daremos continuidade ao que ele fazia. Mas não consigo. Só me vem á cabeça a frase de Bertold Brecht : “ há homens que lutam um dia e são bons, há homens que lutam um ano e são melhores, mas há homens que lutam a vida toda, esses são os insubstituíveis”.
Não terá velório, não terá enterro, será cremado sem a presença de ninguém. É a morte em tempos de Covid. Não teremos o abraço uns dos outros, não teremos o ombro, não teremos o choro coletivo. A nós que ficamos nos resta o isolamento social, a mascara e o álcool em gel. E continuar acordando todos os dias com um psicopata criminoso e negacionista na presidência da Republica.

SOBRE AS BOLSONARICES, A COVID, O DESEMPREGO E A PRECARIZAÇÃO

A vitória de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 mudou muitos dos parâmetros pelos quais se fazia e se media a disputa politica. Desde o velho recurso às fake news, tão velhas quanto pelo menos a Alemanha de Hitler e Goebbels , agora a bordo de novas tecnologias, como o recurso a debates periféricos como forma de esconder questões mais relevantes a exemplo dos velhos factoides usados pelo ex-prefeito do Rio Cesar Maia.

Há dois elementos distintos nessa ação. Um são os factoides claramente plantados com o objetivo de fazer “passar a boiada” como confessou o ministro Ricardo Salles no seu sincericídio da reunião ministerial de 22 de abril, embora conjunturalmente se referisse a um problema real. Nesta linha estão os diálogos na goiabeira da ministra Damares, estão os erros de grafia propositais do ex-ministro Weintraub, estão os discursos repletos de sandices do chanceler , o golden shower do Bolsonaro no carnaval de 2019, entre inúmeras outras pérolas que pela abundância agora me escapam. Geram memes, debates, manifestações de indignação, reafirmações que circulam entre a bolha progressista, no máximo entre os setores mais letrados da sociedade, mas que não têm maior relevância para a luta política. O uso recorrente desses artifícios nos levanta sincera dúvida se de fato Bolsonaro contraiu a Covid-19 ou se é apenas mais uma manobra narrativa para distrair atenções e passar mensagens políticas de conveniência.

Sobre esses factoides, milhares de teclados pelo país afora foram usados por outros tantos milhares de cidadãos e ativistas da esquerda sem que isso tenha de fato consequências avassaladoras. Não menosprezo o ridículo como fator de desgaste de lideranças ou de projetos políticos, portanto não condeno quem o fez, mas acho que a contrapartida das nossas gargalhadas e deboches foi a secundarização de temas muito mais graves e relevantes como o desmonte do Estado, a quebra dos direitos previdenciários, o fim da politica de proteção ambiental, o libera geral dos agrotóxicos, o subfinanciamento do SUS.

O segundo elemento, esse mais profundo, são as seguidas declarações ameaçadoras contra as liberdades democráticas. Desde mandar os dirigentes da esquerda para a Ponta da Praia ou o exilio, passando pelo “cabo e dois soldados”, as manifestações pela intervenção militar, as notas tonitruantes de generais de pijama macaqueando terem algum poder de fogo real na ativa, as ameaças aos outros Poderes da República, tudo isso teve uma consequência clara que foi desviar o debate para a disputa institucional. Impeachment, caráter das frentes anti Bolsonaro, legitimidade ou anulação das eleições de 2018, debates com os quais as esquerdas tercem armas entre si,mas que têm pouca ou nenhuma incidência na luta política real.

A constatação que Bolsonaro não pode continuar como presidente , muito cara nas hostes oposicionistas, não vem acompanhada de uma receita de execução, porque na prática dialoga com os que já não votaram em Bolsonaro e com poucos mais. Essa manobra que desloca o debate para a institucionalidade não mobiliza nem dialoga com a maioria da população para quem a Covid-19 e a crise econômica são o centro e que buscam para esses problemas reais soluções objetivas – não importa de onde venham nem como.

A disputa que conta e será central nos próximos meses diz respeito à crise econômica e às consequências da Covid-19. Cerca de 70 mil mortos e caminhando rapidamente para algo que ficará entre 100 mil e 200 mil num cenário nem de longe pessimista, obrigam a fazer balanços de responsabilidades. Desemprego avassalador e precarização absoluta do que resta de trabalho por conta própria colocam esses temas como centrais na agenda. A esquerda e a sua militância têm a tendência à grandiloquência das grandes pautas, dos grandes momentos. Nostalgia de revoluções, pode-se dizer. Mas no dia a dia o que conta é o somatório das pequenas disputas.

Como agir para dialogar com o precariado crescente das grandes cidades metamorfoseado em “empreendedor”, sem entender a profundidade da derrota ideológica em que nos metemos quando constatamos que os seus sonhos não combinam com os nossos? Como dialogar com os pequenos empresários quebrados pela pandemia para que não culpem o isolamento social pela sua desgraça, mas a insuficiência total de amparo por parte do poder público? Como recolocar a desigualdade no centro da agenda e escapar da armadilha do moralismo de resultados que transformou a corrupção no problema central do Brasil e centrado no Estado, operação aliás feita com a cumplicidade de parte da esquerda? Como defender o papel do Estado na economia sem resolver a questão anterior? São as perguntas chave e sobre isso a esquerda deve gastar tempo e reflexão.

Da adequada resposta a essas perguntas está a possibilidade de mudança real da correlação de forças e a viabilização de saídas institucionais à esquerda capazes de derrotar Bolsonaro e a agenda neoliberal. Com certeza é mais fácil discutir Damarices, Weintraubices e Bolsonarices bem como espinafrar o Ciro, o Lula , o FHC , a Marina, a Globo ou quem quer que seja, pelo que fizeram ou deixaram de fazer nos verões passados.

Difícil é buscar respostas e soluções para questões que em boa parte estão longe da nossa zona de conforto e que não trazem satisfação imediata de expectativas.

Publicado originalmente na revista ComCiencia, editada em parceria com o laboratório de jornalismo da Unicamp e da SBPC.

Análise política e econômica