SOBRE OS ZÉS E OS MANÉS

Temos visto muita polemica nas redes sociais sobre o sistema judiciário brasileiro e sobre a ações judicialescas dos parlamentos. A grosso modo as opiniões se dividem em 3 grupos: os Punitivistas, que são minoria, os Garantistas que tambem são minoria e os Garantistas com os seus e Punitivistas com os outros que são a enorme maioria.
O sistema judiciário em uma sociedade de classes cumpre o papel de fazer a contenção dos de baixo e sustentar a ordem vigente. É o mais conservador dos aparatos do estado, em parte por não passar pela mediação do voto e dessa forma não se expor ás maiorias sociais, e tambem pela sua composição a partir da meritocracia tal qual ela existe por estes trópicos. Mesmo quando alguém vindo de baixo atravessa o estreito funil e consegue lá chegar, a pressão dos seus pares o leva com frequência a ser mais punitivista que os outros. Exemplos disso já vimos até no STF.
De uma forma geral o judiciário se comporta como o cão de guarda das classes dominantes. Milhares de encarcerados provisoriamente sem culpa formada, na sua maioria pretos, pobres e periféricos onde em boa parte dos casos seu maior crime é serem periféricos, pobres e pretos, são o exemplo mais acabado disso.
Combater o punitívismo, defender direitos e sua ampliação, lutar por todas as prerrogativas legais de defesa do cidadão perante esse aparato, é um imperativo moral para a esquerda. O sistema não funciona apenas baseado na coerção. Ele tambem precisa de doses de legitimação social. E o faz em geral justiçando e subtraindo direitos aos anjos decaídos das elites que são de tempos em tempos ofertados em sacrifício. É o ex-governador preso provisório há mais de 3 anos, são os empresários “sequestrados” pelo judiciário na Lavajato até fazerem a delação conveniente, são os fósforos queimados da representação politica da burguesia caídos em desgraça e por ela relaxados ao braço judicial da mesma forma que a Inquisição na Idade Média fazia de tempos em tempos com alguém da hierarquia da igreja.
São essas ações mediatitizadas que servem á legitimação social do encarceramento em massa dos Zés Ninguens deste país, e com frequência sob o aplauso dos Manés.
Garantias e direitos, entre eles o da presunção da inocência, do devido processo legal, do Habeas Corpus, da ampla defesa, não podem ser defendidos pela metade. Apoiar e comemorar quando esses direitos são negados aos anjos decaídos da elite, seja pelo judiciário, seja quando os parlamentos vestem a toga, é bater palmas para a faxina na imagem desses aparatos. Faxina necessária para na essência seguirem cumprindo o mesmo papel.
Um dos problemas dos Manés é que sempre correrão o risco de em algum momento terem seu dia de Zés.

SOBRE O “‘TERRIVELMENTE PSOLISTA” E OS “FEIOS, SUJOS E MALVADOS”

Marcelo Freixo saiu do PSOL para disputar o governo do estado pelo PSB. As razões alegadas são as diferenças sobre politica de alianças. Embora a direção estadual do PSOL já tenha afirmado a sua disposição de abrir uma mesa de dialogo com os partidos da esquerda e centro-esquerda , Marcelo quer ir mais além e trazer para essa aliança partidos da direita liberal ( aquela que a grande mídia apelida de centro) e isso certamente não passaria no PSOL .
Freixo avalia que para vencer as eleições no Estado do Rio é necessário ampliar a aliança para esses setores. Vejo alguns problemas nessa avaliação. Sempre que se fala disso surgem os nomes de Rodrigo Maia e de Eduardo Paes como interlocutores. Visto assim, eles até parecem ser a direita limpinha e cheirosinha , mas quando se olha para o Estado, interior e baixada, e se vê qual foi a base de apoio de Eduardo Paes na disputa do governo em 2018, surgem os feios, sujos e malvados.
Falar em aliança com setores da direita liberal significará negociar com vários clãs e oligarquias da baixada e interior ou então não terá eficácia. Estamos falando de Cozzolinos, ou da família “do Posto” em Magé e Guapimirim, estamos falando de Washington Reis ou da família Zito em Caxias, estamos falando em Celso Jacob e Vinicius Farah em Três Rios, estamos falando em escolher uma das oligarquias de Campos.
Marcelo está preparado para isso? vai conversar sobre o Detran com Vinicius Farah? tenho muita confiança no Marcelo Freixo, quadro sério, corajoso e que vem literalmente travando uma batalha de vida e morte com as milícias desde 2008. E acho que esse acordo com parcelas da direita liberal não tem como prosperar salvo alguns acertos pontuais. Marcelo não fala o mesmo idioma que esse pessoal.
A segunda razão da saída de Freixo do PSOL é a necessidade de se desvencilhar da imagem de “terrivelmente Psolista” que dificultaria seu dialogo seja com os atores politicos mais conservadores, seja com a parcela do eleitorado que rejeita o PSOL pelo seu protagonismo na polarização politica no nosso estado. Aqui no Rio o anti-psolismo conservador é mais intenso que o antipetismo, porque o PSOL é o maior partido da esquerda.
Os primeiros movimentos Marcelo já os fez. Segundo se noticiou, o marqueteiro Renato Pereira, que fez as campanhas de Cabral, Pezão , Eduardo Paes e Pedro Paulo, além de ser o idealizador do Pato da Fiesp, teria sido contratado. Certamente não é o único marqueteiro qualificado nem Freixo o achou pelos classificados. Foi escolha politica e simbólica. Chamar Raul Jungman para elaborar o programa de segurança também faz parte desse reposicionamento de imagem. Sai o “Se a Cidade Fosse Nossa” de 2012 e 2016 e entram “técnicos” palatáveis ao establishment politico e confiáveis a parcelas das classes medias conservadoras. A reação estridente de parte minoritária do PSOL , ontem, por tuites e notas, criticando duramente essas iniciativas eram o objetivo da ação, concluída com sucesso.
Marcelo Freixo faz uma inflexão politica pensada , calculada, e com o objetivo absolutamente nobre de tentar derrotar o Bolsonarismo no seu berço e consequentemente enfrentar as milícias tendo o aparelho de estado do seu lado.
Não creio que tenha chance de sucesso no sentido de viabilizar uma aliança ampla, embora certamente vá conseguir agregar alguma coisa. Mas também perde. A politica tem se movido pelos polos e não apenas no Brasil. Não concordo com a sua escolha, e ela de fato não seria possível no PSOL onde teria mínimo ou quase nenhum apoio.
Teremos uma eleição presidencial simultânea onde derrotar o Bolsonarismo e a agenda liberal são imperativos para a esquerda. O Bolsonarismo é a forma truculenta de passar uma agenda de contrarreformas e de destruição de direitos de tal forma cruel que pelos mecanismos tradicionais não prosperaria.
Mas se não concordo com as movimentações táticas de Marcelo Freixo, reconheço que nenhuma politica alternativa tem qualquer chance de ser sequer levada em consideração pela base social da esquerda se tentar se construir contra a candidatura dele. Tentar fazer isso, é caminhar para o gueto e a desmoralização.
Vivemos tempos difíceis onde todas as escolhas são turvas para quem faz politica para além da reafirmação de princípios.

COMO PENSA O EMPRESARIADO

Por razões profissionais tenho contato com muitos empresários. Industriais, CE0 de grandes empresas , profissionais liberais, comerciantes, gente de diversas áreas.
Um traço comum a todos é conhecerem muito bem as suas áreas de atuação e, mesmo que intuitivamente, terem bom conhecimento de microeconomia. Sabem avaliar seus mercados, suas estruturas de custo, e suas potencialidades.
Outro traço em comum é a mais absoluta ignorância sobre macroeconomia. Reproduzem mecanicamente o discurso da mídia, veem o Estado como um entrave e não fazem a menor ideia de como funciona a economia como um todo. Como em geral convivem nos seus ambientes sociais com outros empresários, seus conceitos e preconceitos se auto reforçam.
Boa parte deles prosperou durante os governos do PT e enfrenta crises de 2016 para cá. A maioria dos que conheço é muito crítico a Bolsonaro a quem têm na conta de idiota. Mas temem a volta da esquerda e do Lula em particular. Se questionados sobre que problemas tiveram nos governos Lula não têm nenhuma resposta direta. Ficam no ” a esquerda não gosta de empresários”.
Lula declarou anos atrás em tom de desabafo que não entendia a bronca dos bancos e dos empresários em geral com os governos do PT porque teriam ” ganho dinheiro como nunca” nos seus governos.
É ideológico. É sentido de pertencimento de classe. É receio a qualquer discurso que fale em combater a desigualdade porque sabem que lugar ocupam nessa desigualdade. Por mais moderada que seja a agenda, e os governos do PT foram moderadíssimos, a enorme maioria dos empresários não reage a seus interesses concretos mas á percepção que têm deles.
E essa percepção é determinada pela ideologia.

Análise política e econômica