50 ANOS DA OCUPAÇÃO DOS TERRITÓRIOS PALESTINOS E A SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL

O conflito que se arrasta há cerca de 70 anos, continua sem solução á vista. De um lado a maior potencia regional, seja do ponto de vista econômico seja militar, com apoio que varia do incondicional ao quase incondicional, conforme os governos de plantão, da maior potencia mundial. Do outro um povo até hoje sem estado que conta com uma solidariedade de seus vizinhos árabes, variando da retorica radical a algum apoio material conforme os interesses domésticos destes países. Conflito desigual, onde a fraqueza relativa do lado palestino é também a sua força moral.

Cerca de 7 milhões de judeus vivem em Israel, em Jerusalém Oriental e em assentamentos na Cisjordânia, enquanto cerca de 6,5 milhões de palestinos vivem em Gaza, Cisjordânia , Jerusalém Oriental e em Israel. Com exceção de alguns fanáticos da extrema direita israelense ninguém imagina ser viável ou razoável a expulsão dos palestinos de todo o território do antigo mandato britânico da Palestina; da mesma forma com a exceção de alguns poucos militantes mais radicalizados na Palestina, ninguém imagina ser razoável a deportação de 7 milhões de judeus para seus países de origem ( a esta altura de seus pais, avós…) ou a reabertura dos campos de refugiados em Chipre. O dado da realidade é que ninguém vai sair dali e portanto a superação do conflito passa por uma solução construída na racionalidade, sem flertes com soluções maximalistas. Nem o estado de Israel será destruído, nem o “transfer” dos palestinos para fora da Palestina ocorrerá.

O reconhecimento da existência de dois povos deve levar a que o princípio da autodeterminação dos povos seja o marco a partir do qual se busque uma solução. Tenho pessoalmente simpatia por um estado unificado e laico, mas eu não sou israelense nem palestino e minhas simpatias pessoais não importam neste caso. Creio que é absolutamente claro que a enorme maioria dos judeus israelenses e dos árabes palestinos querem ter seu próprio estado nacional.

Aqui me parece ser importante fazer um parêntesis para dizer que ao me referir a judeus, não me refiro a uma religião mas a um povo. Diferentemente do Cristianismo e do Islamismo, religiões proselitistas que sempre buscaram a conversão dos “gentios”, o Judaísmo é uma religião que se define ser de “um povo ”, o que tornou a religião a base cultural para uma identificação nacional. Eu conheço vários judeus ateus, que se definem judeus por compartilhar legados culturais em comum, sem professar a religião. Cristãos ateus ou muçulmanos ateus seria um oximoro.

A solução de dois Estados, única e obvia solução, pressupõe construir entre palestinos e israelenses uma forte base de apoio para que este processo avance. Fazer entender que a segurança de cada estado depende da existência do outro é uma disputa politica necessária. O papel da solidariedade internacional não pode ser de a cada ano repetir as mesmas declarações que mais fazem por aplacar as consciências de quem as emite do que exercer alguma influencia real sobre as partes, mas principalmente de dialogar com as diásporas de ambos os povos buscando influir na disputa de opiniões.Como a parte hegemônica, que mantem o controle efetivo sobre o território é Israel, é na sociedade israelense que persiste a maior acomodação ao inaceitável status quo. Esta realidade só muda a partir de uma disputa politica e conquistar opiniões na sociedade israelense e palestina passa também por disputar opinião nas suas diásporas. Nesta logica, queimar bandeiras, por definição símbolos de povos e não de governos, é um disparate. Misturar ações de governos, por piores que elas sejam, com ações de um povo ou de um estado, apenas ajudam a esses governos consolidarem em torno de si mais apoio.

A solução de dois estados deve ter como base as fronteiras de 1967, com eventuais alterações negociadas, partilha de Jerusalém , capital de ambos, e estatuto de soberania compartilhada da Cidade Velha ou alguma variante em torno disso. Não é coisa simples e aqui cabe lembrar que quem anexou Jerusalém Oriental e declarou a cidade capital indivisível de Israel foi um governo trabalhista. Como não acredito em soluções de força, Israel não será destruído nem os palestinos desaparecerão do mapa apesar de todo o poderio militar israelense , soluções negociadas pressupõem construir forte base social em ambos os lados para que prosperem. O papel das diásporas palestina e principalmente judaica é importantíssimo, porque ajudam a formar opinião nos respectivos países.

Não pretendo nem tenho conhecimentos para aprofundar muito mais o assunto e deixei de abordar muitos pontos polêmicos propositadamente. Balanços de responsabilidades, procedimentos táticos, optei por não tratar de nada disso neste texto que tem por objetivo afirmar que qualquer tática politica deve estar subordinada ao objetivo de ajudar a que ocorram negociações que levem á solução de dois estados.

Descartadas as falsas soluções de força, o centro é a disputa de opiniões.