A IMPORTÂNCIA DA PEDAGOGIA MILITANTE NA DEFESA DOS DIREITOS INDIVIDUAIS

O Psol costuma ser socialmente identificado pela defesa das bandeiras de direitos individuais. E normalmente isso é muito usado contra nós de forma distorcida. Muito usado pelo Silas Malafaia, pelo Marcos Feliciano. Nós entendemos que a vida e os direitos das pessoas têm que ser defendido em sua totalidade. Isso passa pelos direitos sociais, o direito ao transporte, à habitação, à saúde, à educação, à segurança democrática. Mas passa também pelos direitos individuais. Passa pelo direito de igualdade entre os sexos. Da igualdade de direito entre pessoas cuja opção sexual [orientação sexual] é divergente da maioria, direitos LGBTT. Passa pela luta antirrascista. Passa por uma série de enfrentamentos de direitos individuais que dizem respeito à felicidade das pessoas.

Nós somos muito indentificados com isso e isso nos dá muito orgulho. Porque essas lutas são centrais. Aí nos acusam: “o Psol quer ensinar criança a ser homossexual!”. Todos vocês já ouviram isso em algum lugar. Eu tenho 56 anos. Quando tinha 10 anos, eu tinha um colega de escola, Luiz Felipe, que começou a manifestar na forma de falar, nos trejeitos, tendência à homossexualidade. E criança é muito cruel. Imediatamente ele passou a ser o “Luiz Felipe menina”. Era assim que os colegas o chamavam. Perante o silêncio bovino dos professores, que fingiam que não estava acontecendo nada. E aquela criança sofria de manhã à noite com isso. Não é razoável que a escola não ensine tolerância. Não é razoável que a escola não cumpra seu papel de ensinar que nem todo mundo tem a orientação sexual com a qual nasceu do ponto de vista biológico. E que isto é natural e isso tem que ser respeitado.

(…) Defendemos os direitos LGBTT. Por exemplo, direito ao casamento civil igualitário. Homem com homem, mulher com mulher. Por quê? Porque o Estado é garantidor de direitos. O direito à pensão. O direito a compartilhar um plano de saúde. O direito à herança. Nós já tivemos casos de casais homossexuais viverem 20 ou 30 anos juntos, um deles morrer, e a família dele, que o tinha repudiado por ser homossexual, se apresentar para receber a herança. São situações absolutamente inaceitáveis. O Estado tem obrigação moral de garantir do ponto de vista legal esses direitos. O direito de compartilhar o mesmo nome. As pessoas que se casam tem direito de compartilhar o mesmo nome. Parece uma coisa simples, né? Mas para quem nunca teve esse direito não é uma coisa trivial.

Isso não tem nada a ver com o casamento religioso. No casamento religioso, cada religião casa de acordo com os seus preceitos. Mas o casamento civil é garantidor de direitos. E isso o Estado não pode abrir mão por conta das crenças religiosas de A, B ou C. E nós respeitamos todas elas. Nós temos pastores da Assembléia de Deus filiados ao Psol. Na Executiva Estadual do Psol. E que compartilha dessa posição que estou expressando aqui.

Eu fiz uma atividade de formação política em Tanguá (RJ). Tinha um grupo de evangélicos. E comecei a discutir o aborto. E diziam “O Psol é a favor do aborto?”. Não. O Psol não é a favor do aborto. O aborto é uma intervenção cirúrgica, um procedimento invasivo, é algo que deve ser evitado. Não é um método contraceptivo. É algo que, em último recurso, a mulher pode cogitar em fazer. Comecei a falar e o pastor Jeferson interrompe e diz: “Olha, eu sou pastor. Se na minha igreja tiver uma mulher em situação de fazer um aborto, eu vou tentar convencê-la a não fazer. Eu vou tentar dar a ela o apoio espiritual, psicológico, e mobilizar apoio material, se for esse caso, para que ela tenha a opção de não fazer o aborto. Mas se no limite ela quiser fazer, quem sou eu para proibi-la? Quem sou eu para decidir por ela? E quem sou eu para criminalizá-la? Se no limite ela decidir fazer, que ela faça em um hospital público, amparada pela lei, do que fazer em fundo de quintal em condições precárias”. E a maioria dos evangélicos presentes balançou a cabeça de forma positiva e disse: “É isso mesmo”.

(…) Não adianta, às vezes, a gente tentar fugir deste debate, porque é um debate mais difícil de ser feito na periferias, mais difícil de ser feito quando tem público evangélico. Os evangélicos hoje são cerca de 30%. Normalmente, nesse meio, há influência muito forte de um conservadorismo, não vou dizer que é um conservadorismo religioso, mas um oportunismo conservador que se manifesta. E nos combate não por aquilo que a gente defende, mas por uma visão distorcida que eles apresentam daquilo que a gente defende. Então esse debate tem que ser feito. Nós temos feito isso. E feito isso com o público evangélico. E temos muita aceitação. Porque as pessoas compreendem e vivem essa realidade.
(…) E é incrível. Quando a gente faz esse debate todo mundo conhece a filha da vizinha, a filha da minha irmã, todo mundo tem um exemplo para essa realidade, onde aquilo que a gente defende faltou.

(…) Nos precisamos que em cada cidade a gente consiga reproduzir essa mensagem. Reproduzir em grupos de pessoas que possam fazer esse debate. Nas igrejas, nos clubes, reunir dez no bairro, quinze mais adiante, e começar a fazer esse trabalho de conscientização. Nós só mudamos o Brasil se mudarmos a nossa rua. Nós não vamos mudar o Brasil por cima, vamos mudar o Brasil quando mudarmos o nível de consciência de nosso vizinho. Se nós não conseguirmos convencer os nosso vizinhos, nós não vamos conseguir convencer o Brasil. Convencer a família. O irmão, a irmã. Se nós não conseguirmos mudar quem está em torno de nós, o discurso que vamos mudar o mundo é apenas um discurso.

E nós precisamos fazer isso com o discurso adequado. Nós precisamos entender que o Brasil é um país de dimensões continentais, com códigos de linguagem, de culturas, muito diversificado. Nós somos um país de origens étnicas, culturais e religiosas muito variadas. Nós temos povo de santo. Nós temos católicos. Nós temos evangélicos. Temos muçulmanos. Temos judeus. Temos ateus. Temos gente que transita entre essas religiões com muita naturalidade. É católico, vai ser do povo de santo daqui há dois anos, e poderá ser evangélico mais adiante. E essas pessoas têm seus códigos e suas formas de pensar, sua cultura.

Nós temos que adequar o nosso discurso. Não o conteúdo. O conteúdo tem que ser o mesmo. Mas a forma de fazer o debate tem que ser adequado à essas percepções culturais que são distintas. A forma como a gente debate eventualmente a legalização do aborto para a juventude da classe média da Zona Sul do Rio é uma e a forma como a gente faz esse debate para uma parcela de evangélicos da periferia é outra. Os exemplos da vida não são os mesmos. Porque na classe média da Zona Sul o aborto clandestino é feito em alguns casos em boas condições. É feito em condições de segurança. Na periferia, não. Na periferia com muita frequência mata, ou com mais frequência ainda a mãe fica estéril ou tem complicações de saúde secundárias. Então, a forma de fazer o debate é outro.

Então, nós devemos ter pedagogia para isso. Temos que ter paciência. Temos que compreender que nós não estamos aqui para mudar o mundo em três dias. Nem o Brasil em cinco. Mas se nós não conseguirmos mudar a nossa rua, nós não vamos conseguir mudar o Brasil. O papel que cada um de nós tem aqui é de mudar a sua rua.

Trecho da fala realizada no Encontro de Formação Política em Três Rios (RJ), em 25 de março.