A SUPERAÇÃO DO LULISMO E O ELIXIR DA LONGA VIDA

Desde 1989 com as primeiras eleições presidenciais pós-ditadura, que o sistema politico brasileiro se organiza em torno da polarização entre Lula e uma alternativa à direita. De 1994 para cá, o PSDB ocupou este lugar. Lula vence em 2002 liderando um amplo movimento na sociedade, gestado desde os anos 80, que veio a ser chamado de Lulismo. Com a derrubada de Dilma Roussef e o desgaste dos 13 anos de reformismo fraco dos governos petistas, se reacende na esquerda o debate sobre a superação do Lulismo.
Lula não é uma liderança de esquerda, ele próprio não se reivindica assim, mas o Lulismo é um fenômeno social de esquerda.  A sua superação não se dará com bravatas nem em um momento mágico, catalizador e definitivo. Não bastará a apresentação de uma candidatura presidencial estreita, com um programa demarcatório e um discurso sectário para que o Lulismo possa ser superado. Enquanto fenômeno social representativo das classes trabalhadoras, o Lulismo não é fenômeno único na história brasileira. O Getulismo/Trabalhismo ocupou este espaço por décadas, assim como o seu sucedâneo , o Brizolismo, até o início dos anos 90, embora com peso mais localizado nos estados do sul e no Rio de Janeiro.
Fenômenos desta natureza não se superam sem a conformação de alternativas com peso de massa e viabilidade na disputa de poder. A construção de uma alternativa de esquerda ao Lulismo não é tarefa simples, nem de viabilização imediata. Não há atalhos. Só com a aglutinação crescente de parcelas expressivas da intelectualidade, da academia, das classes médias progressistas, das vanguardas dos movimentos sociais, sindicais, sem terra, sem teto, mulheres, LGBT, povos indígenas e quilombolas, da esquerda católica, da consolidação de um núcleo de esquerda dentro do movimento evangélico, se terá a massa critica necessária a viabilizar uma alternativa.
Boa parte destas lideranças compartilham da mesma critica que fazemos à experiência dos 13 anos de Lulismo no poder. Seja pelas limitações programáticas, a escolha de não usar os espaços de poder para organizar o conflito de classes optando pela composição de interesses sem disputa, seja o modelo de governabilidade que primou por deixar intocadas as estruturas oligárquicas e se compor com elas, inclusive nos métodos de subordinação do Estado aos interesses privados. A critica às escolhas do Lulismo são amplas, mesmo na base social que ainda está sob sua hegemonia.
Sem deslocar parcelas significativas destes setores para outro projeto, não se supera o Lulismo como principal força referencial da esquerda. E isto só ocorrerá quando um novo projeto demonstrar capacidade de influir na disputa política real e perspectiva de se constituir em alternativa de poder. Neste sentido, mais do que a pressa em definir um candidato presidencial, é necessário construir um processo que tenha capacidade real de aglutinar força e de incidir sobre a base social e de ativistas do Lulismo.
Não existem atalhos, não há soluções maximalistas, e a possibilidade de não ter resultados expressivos a curto prazo é real. No século 19 prosperaram farmacêuticos ambulantes que vendiam o Elixir da Longa Vida. Não consta que alguém tenha vivido uma semana a mais pelo consumo dessas gororobas. Hoje existem os que apontam a possibilidade da Revolução Brasileira para daqui a pouco.
É propaganda enganosa.