A VITÓRIA DE LOPEZ OBRADOR NO MÉXICO E O KEYNESIANISMO

Vi hoje nas redes sociais comentários críticos a Lopez Obrador dizendo que não era para a esquerda ter grandes esperanças porque ele iria fazer um governo keynesiano. Não sei a partir de qual momento parte da esquerda passou a achar insultante a defesa de posições keynesianas na gestão de economias capitalistas. Historicamente, quem se contrapõe às politicas keynesianas são os liberais, que têm verdadeira urticária com o papel ativo do estado, com políticas fiscais expansionistas e seus decorrentes déficits públicos, com a busca do pleno emprego. Não vi nenhuma explicação sobre o que seria em oposição um programa marxista de gestão de uma economia capitalista sem perspectiva de curto (e médio) prazo de transição ao socialismo. Michael Kalecki, economista marxista polonês, compartilha dos mesmos pressupostos de Keynes sobre a busca do pleno emprego, embora, obviamente, o faça por razões políticas distintas.

Qualquer governo de esquerda que vença eleições na América Latina tem no instrumental teórico keynesiano o caminho para uma política que altere a correlação de forças entre capital e trabalho e busque a partir daí produzir reformas substantivas. Por outro lado, entendo perfeitamente quem imagina que uma vitória eleitoral coloca em perspectiva a transição rápida ao socialismo , tornando desnecessárias essas preocupações “menores”, vá se decepcionar com Obrador e com qualquer candidato que vença pela esquerda as eleições na América Latina neste período político.

Esclarecido que não se trata nem no México, nem porventura no Brasil com a vitória em outubro da esquerda, de se iniciar uma transição ao socialismo, os problemas “menores” estarão sobre a mesa. E aí minha avaliação sobre o México é pessimista também. Com 40% do PIB ligado ao comercio exterior, com reduzida diversificação de seu parque industrial, uma politica keynesiana clássica de expansão fiscal, tem serias limitações. Parte desse “esforço “ fiscal vazaria para o exterior, reduzindo o efeito multiplicador interno, reduzindo o retorno fiscal decorrente e pressionando o balanço de pagamentos. Mesmo partindo de uma situação fiscal mais folgada que o Brasil, com uma relação divida PIB mais baixa e com superávit fiscal primário, as limitações externas são consideravelmente maiores que no Brasil. Vale acrescentar que 80% das exportações mexicanas têm como destino os Estados Unidos, o que aumenta a vulnerabilidade mexicana a retaliações e pressões politicas externas

O maior problema do governo Obrador é que mesmo uma política keynesiana na situação do México terá dificuldades de se viabilizar de forma plena, embora nos limites do possível deva ser tentada. E a minha dúvida é se e até onde ele tentará.

Como disse Porfírio Diaz , líder da Revolução Mexicana que derrubou o Imperador Maximiliano na década de 60 do século 19: “Pobre México: tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”.