A VOLTA DO BOLSA MIAMI E A DESINDUSTRIALIZAÇÃO

Desde o plano real que o Brasil produziu uma jabuticaba que é responsável pelo avançado processo de desindustrialização em que estamos mergulhados. A adoção do câmbio flutuante com total liberdade de movimentação de capitais produziu um cenário de perda de competitividade aguda da indústria de transformação brasileira.

A taxa de câmbio é um dos preços fundamentais de qualquer economia porque regula a paridade de custos internos com os custos externos de produção. Por esta razão, ter o controle dessa taxa de paridade é um instrumento fundamental de política econômica. Os países do sul da Europa que aderiram ao Euro, Portugal, Espanha e Grécia, perderam essa capacidade e daí derivaram as suas crises. Incapazes de ajustarem sua taxa de câmbio para baixo recorrendo à desvalorização competitiva, por não terem mais moeda própria, viram sua indústria perder competitividade em relação ao norte da Europa, particularmente a Alemanha, e sua economia definhar (sobre isto ver artigo que escrevi em julho de 2015, “As divisões Panzer do 4º Reich”).

Com a liberalização do fluxo de capitais no Brasil e uma política monetária alicerçada permanentemente em juros muito elevados, o Brasil virou terreno propício à especulação financeira. Diferenciais das taxas de juros internacionais para o Brasil da ordem e 1 para 7% em termos reais estimulam a entrada de capital especulativo que valorizam artificialmente o real prejudicando a competitividade da indústria. Da mesma forma que estes fluxos entram, também saem em efeito manada. Em 2015, assistimos a uma desvalorização do real que chegou perto de R$4,40 por dólar, cotação obviamente exagerada e com forte impacto inflacionário. Na sequencia, entramos em um processo de valorização até chegarmos hoje a uma cotação em torno dos 3,20 por dólar. Imaginemos uma indústria que fechou meses atrás um contrato de exportação com o dólar cotado a R$3,70. Exportações de produtos industriais mais elaborados ocorrem em um cenário de forte competição e em geral com margens de lucro extremamente reduzidas. Com frequência são contratos fechados com margem de lucro zero ou perto disso, apenas para garantir escala de produção e mercados no exterior. Previsibilidade no câmbio é requisito essencial para que tais contratos não resultem em prejuízo forte. Ter um câmbio flutuante, onde são os fluxos financeiros e não os fluxos reais da economia que determinam esta flutuação, é receita para o desastre.

Quem acompanha o noticiário econômico desde os anos 70 e 80 lembra que naquela época notícias sobre economia eram repercutidas na mídia pelo presidente da FIESP, Luiz Eulálio de Bueno Vidigal, pelo presidente da Volkswagen, Wolfgang Sauer, por Antonio Ermírio de Morais e outros líderes industriais. Hoje ouvimos a Febraban (Federação dos Bancos Brasileiros), economistas chefes do Bradesco, do Santander e outros prestidigitadores do mercado. Sinais claros da perda de densidade econômica e de poder político da indústria.

O economista Mauro Osório em recente artigo mostra que no estado do Rio de Janeiro o salário médio da indústria é de R$5.053, o do setor de serviços de R$2.566 e do comércio de R$1859. Isso dá um pouco a ideia do que significa a futuro um país abrir mão de ter uma base industrial sólida e diversificada. Usar o capital especulativo internacional para apreciar a taxa de câmbio e com isso controlar a inflação tem sido recorrente de 1994 para cá, com consequências nefastas para a indústria brasileira. Mas a classe media alta pode fazer seus enxovais em Miami, mandar seus filhos fazer imersão em inglês nos EUA e viajar para a Disney com preços mais convidativos.

É o Bolsa Miami pago com a perda da produção industrial brasileira.