AS DIVISÕES PANZER DO 4º REICH

A crise da Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda e outros países da periferia da Zona do Euro era fatalidade anunciada desde a criação da moeda única. Do tempo dos Fenícios até os dias de hoje, sempre por trás de uma moeda teve um estado. A Europa inventou a bola quadrada. Uma moeda sem um estado, sem um orçamento federal que a sustente.

Os EUA têm uma única moeda, o Dólar, que serve para a Califórnia e para o Dakota do Norte. Estados com produtividades muito distintas, mas que compartilham a mesma moeda porque impostos e taxas recolhidos na Califórnia podem ser gastos em programas federais, pensões e salários de funcionalismo no Dakota. O Brasil tem uma única moeda, o Real, para São Paulo e para o Amapá. Impostos recolhidos em São Paulo pagam gastos federais e pensões no Amapá. Alguém poderia imaginar o Amapá sem os gastos do governo federal?

Uma moeda reflete na sua cotação a produtividade média do pais que a emite. Países de economia mais rica e maior produtividade têm moedas mais valorizadas; países de menor produtividade, moedas mais desvalorizadas. Quando o Euro surgiu, a produtividade dos diversos países que compõem a Zona do Euro era muito distinta. A Alemanha numa ponta, muito industrializada, com uma sólida base de capital, e os países do sul da Europa na outra ponta, com economias menos capitalizadas e menor produtividade. O resultado do compartilhamento da mesma moeda foi que a Alemanha passou a ter uma moeda menos valorizada que a sua produtividade média justificaria e os países do sul uma moeda sobrevalorizada.

Considerando que todos já estavam numa União Aduaneira, com isenções de impostos de importação dentro da União Européia e com proteção tarifária a importações de fora do bloco, a única restrição para que as exportações Alemãs inundassem o mercado europeu era a possibilidade dos países mais frágeis praticarem a desvalorização competitiva de suas moedas como forma de proteger a sua produção. Com a moeda única isso se tornou impossível. E sem disparar um único tiro.

Portugal, Espanha e Grécia viram suas economias se desindustrializarem, sem poderem impor tarifas de importação nem desvalorizar a moeda para encarecer as importações e melhorar sua competitividade. Para além disso, viram seus países inundados com crédito barato, já que tendo desaparecido o risco cambial os spreads bancários se tornaram muito baixos, e mergulharam numa espiral de especulação imobiliária. No caso particular da Grécia, some-se uma gestão da oligarquia do Pasok e do Nova Democracia extraordinariamente corrupta e a receita da crise estava pronta.

O Império que a Alemanha buscou, sem sucesso, em duas guerras mundiais no século XX conseguiu agora sem ter que arcar sequer com os custos da ocupação. Tem um mercado cativo e indefeso para as suas exportações, representado pela Zona do Euro, controla as instituições multilaterais Europeias e as usa para salvar os créditos podres que seus bancos privados acumularam no sul da Europa. Não custa lembrar que a dívida grega, de 250 bilhões de Euros em 2011, era fundamentalmente com bancos privados alemães e secundariamente franceses. Essa divida, agora em 320 bilhões, é com as instituições multilaterais, portanto com o contribuinte europeu.

Da crise de 2009 para cá, a Alemanha cresceu 5%, enquanto a Espanha viu seu PIB decrescer 5%, Portugal 8% e a Grécia assustadores 25%. Economias destroçadas, reduzidas a viver de turismo, alguns serviços e produções agrícolas e industriais de menor importância, ocupam o espaço que normalmente era destinado pelos pactos coloniais aos povos do 3º mundo. O Euro conseguiu para a Alemanha o que as divisões panzer de Hitler não conseguiram: um Império europeu.

Publicado originalmente em 16 de julho de 2015.