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O BRASIL AINDA VAI SE TORNAR UMA GRANDE VENEZUELA

Durante as manifestações de 2016 a favor do impeachment de Dilma, era comum encontrarmos manifestantes da classe media conservadora que do alto da sua arrogância, misturada com a sua ignorância, manifestavam o temor que o Brasil se transformasse numa Venezuela. Atiravam no que achavam que viam mas acertaram no que jamais imaginaram que estivesse acontecendo.

Desde os anos 30 do século passado que a Venezuela tem sua economia fortemente ancorada na produção de petróleo. Mais de 95% das exportações venezuelanas são de petróleo, mais de 80% das receitas fiscais do estado vêm do petróleo, e toda a disputa politica em curso na Venezuela entre o Chavismo e a oposição diz respeito á utilização destes recursos. Pela primeira vez a partir de 1998 a Venezuela teve um governo que resolveu utilizar as receitas do petróleo para alavancar programas sociais, distribuir renda e portanto democratizar as benesses deste recurso. No entanto nem o Chavismo, nem os governos conservadores que o antecederam tiveram sucesso na diversificação da economia, livrando-se da petrodependência.

Como resultado disto , com a queda do preço do petróleo de cerca de 100 dollares o barril para US43 , cotação de agora, depois de ter chegado a US30, a Venezuela quebrou. A crise venezuelana não é única, basta ver Angola, Camarões, e outros países do terceiro mundo exportadores de petróleo. A própria Arábia Saudita viu seu déficit fiscal de 2015 chegar a 15% do PIB, situação apenas admnistrável graças ás enormes reservas monetárias acumuladas durante décadas. Países do terceiro mundo, com enormes déficits sociais não tiveram a mesma chance.

O Brasil, a partir da Revolução de 30, com a perda de poder econômico e politico das suas elites agrarias em função da crise de 1929, passou por um acelerado processo de industrialização que levou a ser no inicio dos anos 80 a 7ª economia industrial do mundo. A produção industrial chegou a perto de 30% do PIB na década de 80.Epoca em que as noticias econômicas eram repercutidas com presidentes da FIESP como Luis Eulalio de Bueno Vidigal, capitães de Industria como Ermirio de Morais e Wolfgang Sauer e com sindicalistas do movimento operário como Lula e Jair Menegheli. Hoje o são com os economistas chefes do banco Itaú, Bradesco e economistas genéricos do “mercado” financeiro .

Da década de 90 para cá, principalmente a partir de 1994 com o plano real, o Brasil entra numa perigosa rota de desindustrialização. Se até os anos 80 o Brasil era superavitário no seu comercio exterior de produtos industrializados, hoje o Brasil tem enorme déficit que só não é maior ainda quando se levam em conta os produtos semi-industrializados. Em 2015 a produção industrial brasileira correspondeu a 11,9% do PIB. Politicas desastrosas de usar o cambio como ancora para a inflação, juros elevados retirando competitividade á produção nacional, e agora o abandono da politica de privilegio a fornecedores nacionais nas compras governamentais aprofundam o problema. Somos governados por uma coalizão do agronegócio com o setor financeiro. A crise que no Brasil começa em 2014 já é consequência deste processo. O aumento da dependência de produtos primários, soja, café, minério de ferro, carne, na nossa pauta de exportações nos torna mais vulneráveis ás crises internacionais e á queda do preço destes produtos.

Para além disto estima-se que a indústria gera empregos com salários cerca de duas vezes maiores que o setor de serviços e que o setor agrário, com maior índice de formalização e consequentemente gerando um mercado consumidor interno mais consistente.

O retrocesso do Brasil a um modelo primário exportador nos leva para perto da situação da Venezuela, com o agravante que temos uma população 7 vezes maior. Até a logica imposta á produção de petróleo prioriza o modelo exportador de curto prazo, abandonando a perspectiva de usarmos o pre-sal como indutor de um processo virtuoso de reindustrialização.

A vulnerabilidade do Brasil a crises internacionais que deprimam preços de produtos primários , a exemplo do que ocorria na republica velha, volta com toda a força. O desastre que se abateu sobre os países do terceiro mundo exportadores de petróleo , será a nossa realidade no futuro. Não é sequer preciso olhar para a Venezuela, basta olhar para o estado do Rio de Janeiro, que nos últimos 15 anos alicerçou sua receita fiscal no petróleo e quebrou com a queda das cotações deste produto. Salários atrasados há 4 meses do funcionalismo publico são um exemplo do preço que se paga por escolhas erradas.

Detesto reconhecer isto, mas os coxinhas que denunciavam a venezuelização do Brasil tinham razão, mesmo sem saberem porquê.

A PESADA HERANÇA DO PENSAMENTO RELIGIOSO NA ESQUERDA

Algo que sempre incomodou desde o inicio da minha militância, na virada dos anos 70 para os 80, foi a recorrente tendência de setores da esquerda de apresentarem explicações morais para todas as derrotas ou insuficiências. O MEC ( antigo Ministério da Educação e Cultura) aumentou os preços dos bandejões das universidades? culpa da direção da UNE que traiu a luta dos estudantes . Collor venceu a eleição de 1989? culpa da Articulação ( tendência majoritária do PT á época da qual fazia parte Lula) que ficou com medo de vencer e orientou Lula a perder o debate final ( sim meninos, eu ouvi isso).

Fracassou a greve geral de 30 de junho? Culpa das direções das grandes centrais que desmobilizaram as classes trabalhadoras ( que “obviamente” queriam fazer a greve).Temer tem apenas 5% de aprovação e mesmo assim não há manifestações de massa pela sua derrubada? culpa de setores da esquerda que na verdade não querem derrubar o Temer porque …… .

O que me impressiona é o total protagonismo que se atribui nestes “raciocínios” ás direções e aos aparatos ( partidos, sindicatos, centrais), e a absoluta falta de protagonismo e iniciativa que se atribui ao povo.

Obviamente que direções partidárias e sindicais incidem sobre a conjuntura e cumprem um papel relevante, que linhas politicas distintas fazem diferença em determinadas conjunturas, mas a busca permanente por responsáveis morais, traidores presumidos e linhas politicas equivocadas como responsáveis por todas as derrotas , busca apresentar como contraste a linha justa, a verdade revelada, o programa redentor, da qual a corrente A, B ou C é portadora.

O maior problema desse comportamento típico da Ordem dos Templários, ou da Irmandade de Cavaleiros de Jedi , é que a analise das condições objetivas da realidade passa sempre para segundo plano. Na Greve Geral de 28 de abril o clima nas ruas, nas redes sociais, nas assembleias, deixava claro que algo grande iria acontecer. Havia a expectativa de que a mobilização poderia travar as reformas trabalhista e previdenciária, e isso foi essencial para o sucesso da greve. Em junho, e isso era evidente nas ruas e nas redes , a sensação dominante era que a reforma trabalhista já estava virtualmente aprovada e a previdenciária não avançaria por conta da fragilização do governo Temer. Teve sim o recuo da Força Sindical e da UGT, mas mesmo que não tivesse esse recuo ,30 de junho seria uma pálida sombra de 28 de abril.

É preciso entender que mobilizações de massa ocorrem com pautas simples, claras, com a percepção da sua viabilidade, e com a expectativa que a vitória significará ganhos efetivos e imediatos. Vale para a direita e para a esquerda. As classes medias conservadoras que foram á rua pelo impeachment tinham uma ideia clara que derrubada Dilma os seus problemas estariam resolvidos; acabaria a corrupção, acabaria a crise econômica, acabaria a sua percepção de perda de status social. Evidentemente nada disso aconteceu e os movimentos, MBL, Vem Pra Rua , ficam pateticamente chamando atos que sabidamente não mobilizarão ninguém. Este último está desde junho chamando um ato para 27 de agosto destinado ao fracasso( provavelmente será adiado sob um pretexto qualquer).

A dificuldade do movimento Fora Temer em promover mobilizações massivas está ligada á percepção que a sua derrubada não mudará grandes coisas. Não passará a emenda por eleições diretas, o substituto será Rodrigo Maia, Henrique Meirelles já avisou que fica, a crise econômica e o desemprego ficam também.

Mas obviamente para os Savonarolas de plantão é mais conveniente responsabilizar direções sindicais e partidárias acusando-as do delito moral da traição.

O 6º CONGRESSO DO PSOL ENTRE A REALIDADE E A FANTASIA

Esta semana começaram a circular as primeiras teses para o Congresso do PSOL e as primeiras polêmicas surgem. Tudo aponta para que a principal polarização seja centrada sobre a plataforma eleitoral para as eleições de 2018.

De um lado aqueles que se recusam a encarar os desafios reais que estão colocados e agem como se estivessem elaborando as teses para a tomada do Palácio do Jaburu, na ausência de um palácio de inverno para dar contornos épicos mais simbólicos. Dar respostas aos problemas objetivos parece desvalorizado demais para a sua retorica revolucionaria.

Afinal dizer o que fazer com o banco central, com a taxa de juros, como controlar a inflação, como mudar a estrutura tributaria, como viabilizar a retomada dos gastos e investimentos da União, que passa pela revogação da Emenda Constitucional 95 do teto dos gastos (vai precisar de 60% do Congresso para mudar), como mudar a matriz energética sem mergulhar a curto prazo o Brasil no apagão, como mudar o perfil agrário brasileiro sem desestruturar de imediato cadeias produtivas que geram mais de 6 milhões de empregos, como reverter o processo de desindustrialização em curso, como lidar com o grande capital privado, como reverter um desemprego de 14 milhões, dá mais trabalho e parece pouco charmoso para quem é portador de nobres e redentores propósitos revolucionários.

No entanto, qualquer governo de esquerda que por ventura venha a assumir em 2019 terá como principal e imediata tarefa tirar o Brasil da recessão/estagnação em que estamos mergulhados. Sem dar conta disto não terá base social para alterar a correlação de forças e empreender tarefas de maior vulto como mudar o sistema tributário, desindexar as rendas do capital e do patrimônio( alugueis, tarifas de serviços concessionados) , eliminar as transferências regressivas de renda via taxa de juros sobre a divida publica, reverter a reforma trabalhista, recuperar a renda e o emprego, consolidar apoio e engajamento das classes trabalhadoras para continuar avançando.

Curiosamente este conjunto de medidas de difícil viabilização no seu todo, mas de forma alguma impossíveis, são taxadas de “melhorísmo” pelos que na pratica defendem um estelionato eleitoral prometendo programas maximalistas com nenhuma possibilidade de serem sequer tentados fora de uma conjuntura revolucionária. Esta é a grande polarização do Congresso do PSOL.

Provavelmente teremos também aqueles que neste debate subirão no muro, que é lugar quente e ensolarado, e lhes permitirá não precisar brigar com ninguém.

Neste Congresso o PSOL passará pelo seu teste de maioridade politica. Se será um partido vocacionado para disputar governos e poder, ou apenas uma grife parlamentar para a classe media progressista chamar de sua e os aparatos das suas correntes internas continuarem cooptando uma pequena parcela da juventude encantada com o Encouraçado Potenkim.