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“IMPEACHMENT DE CRIVELLA” ,QUEIMA DE ARQUIVO OU APENAS UMA NEGOCIATA?

Semana passada a câmara de vereadores do Rio tentou, e por 1 voto não conseguiu, mudar a lei orgânica para transformar em indireta a eleição de prefeito em caso de afastamento. Essa manobra consolidaria a derrubada do desastroso prefeito Crivella e sua substituição por um vereador , provavelmente da bancada do MDB. Ontem , desta vez com apoio da esquerda, PSOL e PT , a câmara abriu processo de impeachment com 36 votos dos 34 necessários.

Para quem não aguenta mais o desgoverno de Crivella a noticia parece ser boa. Parece, mas não é. A comissão constituída para analisar o processo tem 90 dias para levar o seu parecer ao plenário que ai votará se confirma o impeachment ou não. Alguns desavisados podem achar que serão 90 dias de analise do fato causador do pedido de impeachment. Na verdade serão 90 dias para Crivella conseguir cooptar 2 vereadores impedindo dessa forma a maioria qualificada para sua derrubada ou para o MDB conseguir o voto que lhe faltou para mudar a lei orgânica e estabelecer a eleição indireta.

Em qualquer hipótese nós perdemos no final. Derrubado Crivella, a direita terá ano e meio para se recompor e chegar as eleições de 2020 com competitividade, sem precisar arrastar o cadáver desta administração pelas calçadas. Para os de boa memoria, o governo Itamar foi essencial para a vitória de FHC em 1994. Essa é a hipótese “queima de arquivo”. De quebra Crivella sai de vitima, com o discurso pronto de que o impediram de “cuidar das pessoas”. Colará para alguns, particularmente para o eleitorado evangélico. Por favor, assistam a cobertura da TV Record.

Essa possibilidade porem medirá forças com a outra que é Crivella aceitar os pleitos de parte da câmara e partilhar mais o seu governo com os nobres edis. Façam suas apostas. Nessa hipótese Crivella fica e chega a 2020 acusando a esquerda de ter participado de uma tentativa de golpe contra a sua administração.

Mas o mais grave é a fragilização dos mandatos eletivos. Com a democracia em risco desde 2016 cresce o avanço do judiciário sobre o legislativos e executivos , e dos legislativos sobre os executivos. Recentemente o prefeito de Niterói foi preso preventivamente e afastado de suas funções por decisão monocrática de juiz de 1ª instancia. Prisões preventivas também foram alegadas para tentar impedir a posse de deputados eleitos em 2018, manobra corretamente abortada pela mesa diretoria da ALERJ . Aqui não vai nenhuma defesa dos ditos deputados que não são suspeitos de honestidade mas a defesa do voto popular que não pode ser anulado por decisões do judiciário não transitadas em julgado.

Reforçar precedentes de cassação de mandatos eleitos pelos legislativos tornará mais frágeis os governos de esquerda. Frequentemente com minoria nos respectivos legislativos passarão a viver sob crescente cerco . Cassado Crivella , o próximo prefeito do Rio principalmente se for de esquerda, será vitima de vários pedidos de impeachment protocolados por quaisqueres tecnicalidades e assoprados por vereadores que não se sintam contemplados com seu naco de poder no governo. Para além disso , se pelo menos as razões alegadas para a derrubada de Dilma eram de conhecimento publico embora absurdas e de difícil compreensão, as razões para a derrubada de Crivella são absolutamente desconhecidas pelo eleitor que desta forma será mais facilmente convencido que foi golpe. Novamente recomendo que assistam a cobertura da TV Record.

Desta forma a decisão das bancadas do PSOL e do PT de aprovar a abertura de processo de impeachment foi um erro grave.

Erros graves são aqueles que tem consequências.

BOLSONARO, UM CABO E DOIS SOLDADOS

Jair Bolsonaro declarou ontem no Chile que já fez a parte dele com relação á reforma da previdência ao apresentar o projeto ao Congresso a quem cabe votar. Associado as suas declarações contra Rodrigo Maia, fica claro que Bolsonaro não quer para si o ônus de defender um projeto impopular e menos ainda se envolver nas tradicionais negociações com o Congresso com base em fatiamento de cargos no executivo.

Se levada adiante essa disposição, a possibilidade da reforma não ser aprovada aumenta muito. Nessa hipótese e como este governo não tem qualquer projeto consistente de retomada do crescimento da economia, o mercado que apoiou Bolsonaro em 2018 reagirá com movimentos especulativos . A continuidade da crise com previsível alta do dólar impactando preços internos acentuará o desgaste. Para o governo não restará alternativa a não ser aumentar a octanagem do conflito politico acusando o Congresso da velha politica pela crise e açulando suas milícias digitais para o confronto de narrativas.

O continuado conflito da Lavajato e de Moro com o STF será outro ingrediente para manter acesa a mobilização da base bolsonarista. Na sua visita aos EUA o presidente declarou que sua missão é “destruir muita coisa errada” que fizeram no Brasil nos últimos 30 anos. Talvez seja o caso de se levar essas palavras a serio. Talvez seja o caso de se levar a serio a possibilidade de que Bolsonaro esteja se lixando para a aprovação da reforma da previdência e que o centro da sua ação seja radicalizar o conflito com o que suas falanges chamam de velha politica. Aqui é importante pontuar que o conceito de velha politica esgrimido pelo Bolsonaristão nada tem a ver com as lúdicas criticas dos que ao centro e á esquerda usaram e abusaram dessa despolitizada palavra de ordem nos últimos anos. Para a extrema direita , a “velha politica “ inclui o toma lá da cá dos centrões mas inclui principalmente todas as conquistas democráticas dos últimos 30 anos.

A radicalização da crise econômica e politica pode ser um projeto e não uma consequência das ações tidas como disparatadas de Bolsonaro, sua prole e dos seguidores do Astrólogo da Virginia. Nessa hipótese , o que passa pela cabeça do comando bolsonarista é o golpe clássico nas instituições. Se terá força para o fazer é outra história, mas nada indica que a presidência e o contato com os problemas do mundo real tenham domesticado um Bolsonaro que passou os últimos 30 anos defendendo ditadura, tortura , censura e uma agenda medieval.

O projeto de reforma da previdência dos militares que na verdade aumenta salários de todo o alto oficialato é um movimento claro de cooptação das falanges armadas. De um ano para cá voltamos a ver militares da ativa dando declarações politicas em tom de ameaça aos poderes da republica. Esse também não é um fato a ser desconsiderado.

A luta contra a reforma da previdência a ser feita nas ruas disputando os trabalhadores e a opinião publica precisa ser acoplada á defesa acirrada das instituições . Por mais que este STF e este Congresso sejam um desastre , é o desastre que temos. E podem ser a barreira necessária a nos separar de uma ditadura.

JEAN WYLLYS TEM SEU LUGAR NO LADO CERTO DA HISTÓRIA

Soubemos hoje da decisão do deputado Jean Wyllys de renunciar ao mandato e sair do país. Conheço Jean desde a sua primeira campanha quando se elegeu em 2010. Tive com ele acordos e desacordos. Acordos intensos e desacordos intensos também. Porque acordos e desacordos entre quem acredita e defende suas ideias são sempre intensos. Jean nunca fugiu da polemica nem do conflito. Nos seus 2 mandatos colocou na agenda da politica causas antes invisibilizadas, enfurecendo o conservadorismo e a hipocrisia dominantes.

Para milhões de cidadãos discriminados por sua orientação sexual, há um Brasil de antes do mandato Jean Wyllys e outro depois do mandato Jean Wyllys. Não foi pequena a afronta aos reacionários, ao tiozão do pavê, aos picaretas aproveitadores da religiosidade alheia, que milhões de cidadãos antes relegados a uma existência marginal passassem a ver seus direitos debatidos no Congresso e em praça publica.

Mas no seu mandato Jean não foi apenas um deputado das causas dos direitos individuais. Jean foi, e talvez poucos saibam disso, um importantíssimo deputado do PSOL no debate econômico e na defesa dos direitos sociais. Projetos de sua autoria sobre desindexação de alugueis, sobre reforma tributaria, sobre direitos sociais, ficam na camara tramitando como herança de 8 anos de intenso trabalho.

Jean foi também o deputado mais ameaçado e agredido física e psicologicamente nestes 8 anos. Campanhas permanentes de difamação, agressões verbais constantes em off e em on nas ruas e no Congresso Nacional, protagonizadas frequentemente por esse individuo que hoje desgraçadamente carrega a faixa presidencial.

Com a vitoria de Witzel ao governo do estado e de Bolsonaro á presidência as ameaças subiram muito de tom.Todos os trogloditas homofóbicos se sentiram empoderados para ameaçar qualquer um que lhes desagrade. Jean sempre foi o mais visado. Com a notória ligação da familia Bolsonaro com milicianos criminosos , como as recentes investigações deixam claro, as ameaças tornam-se mais agudas.Mataram Marielle e hoje se suspeita que gente do gabinete do então deputado Flavio Bolsonaro pode estar envolvida nisso.

As ameaças se estendiam á assessoria , Jean não podia sair as ruas sem forte aparato de segurança. Não é fácil viver assim. Obviamente que a renuncia do Jean é uma derrota para todos nós.É uma derrota para o Brasil.É uma derrota para a humanidade. Mas não sou daqueles que arrota valentia com o pescoço dos outros.Respeito, acato e apoio a decisão do Jean.

Durante 8 anos de mandato Jean Wyllys nos representou e orgulhou. No auto exílio pelo qual optou,com justas e boas razões, Jean continuará nos representando e orgulhando.

Siga adiante meu amigo e camarada.