BOLSONARO, UM CABO E DOIS SOLDADOS

Jair Bolsonaro declarou ontem no Chile que já fez a parte dele com relação á reforma da previdência ao apresentar o projeto ao Congresso a quem cabe votar. Associado as suas declarações contra Rodrigo Maia, fica claro que Bolsonaro não quer para si o ônus de defender um projeto impopular e menos ainda se envolver nas tradicionais negociações com o Congresso com base em fatiamento de cargos no executivo.

Se levada adiante essa disposição, a possibilidade da reforma não ser aprovada aumenta muito. Nessa hipótese e como este governo não tem qualquer projeto consistente de retomada do crescimento da economia, o mercado que apoiou Bolsonaro em 2018 reagirá com movimentos especulativos . A continuidade da crise com previsível alta do dólar impactando preços internos acentuará o desgaste. Para o governo não restará alternativa a não ser aumentar a octanagem do conflito politico acusando o Congresso da velha politica pela crise e açulando suas milícias digitais para o confronto de narrativas.

O continuado conflito da Lavajato e de Moro com o STF será outro ingrediente para manter acesa a mobilização da base bolsonarista. Na sua visita aos EUA o presidente declarou que sua missão é “destruir muita coisa errada” que fizeram no Brasil nos últimos 30 anos. Talvez seja o caso de se levar essas palavras a serio. Talvez seja o caso de se levar a serio a possibilidade de que Bolsonaro esteja se lixando para a aprovação da reforma da previdência e que o centro da sua ação seja radicalizar o conflito com o que suas falanges chamam de velha politica. Aqui é importante pontuar que o conceito de velha politica esgrimido pelo Bolsonaristão nada tem a ver com as lúdicas criticas dos que ao centro e á esquerda usaram e abusaram dessa despolitizada palavra de ordem nos últimos anos. Para a extrema direita , a “velha politica “ inclui o toma lá da cá dos centrões mas inclui principalmente todas as conquistas democráticas dos últimos 30 anos.

A radicalização da crise econômica e politica pode ser um projeto e não uma consequência das ações tidas como disparatadas de Bolsonaro, sua prole e dos seguidores do Astrólogo da Virginia. Nessa hipótese , o que passa pela cabeça do comando bolsonarista é o golpe clássico nas instituições. Se terá força para o fazer é outra história, mas nada indica que a presidência e o contato com os problemas do mundo real tenham domesticado um Bolsonaro que passou os últimos 30 anos defendendo ditadura, tortura , censura e uma agenda medieval.

O projeto de reforma da previdência dos militares que na verdade aumenta salários de todo o alto oficialato é um movimento claro de cooptação das falanges armadas. De um ano para cá voltamos a ver militares da ativa dando declarações politicas em tom de ameaça aos poderes da republica. Esse também não é um fato a ser desconsiderado.

A luta contra a reforma da previdência a ser feita nas ruas disputando os trabalhadores e a opinião publica precisa ser acoplada á defesa acirrada das instituições . Por mais que este STF e este Congresso sejam um desastre , é o desastre que temos. E podem ser a barreira necessária a nos separar de uma ditadura.