DILMA, O PT E O MONOPÓLIO DA ESTUPIDEZ

Amanhã, 11 de maio, o Senado consolida o golpe e começa o governo Michel Temer. A pressa dos golpistas tem a ver com a economia. Todos os indicadores apontam que em algum momento do segundo semestre a economia brasileira começa a se recuperar lentamente da recessão bíblica em que está desde 2015.

O ajuste do cambio, o único ajuste que deu certo no governo Dilma, fez com que o Brasil saísse de déficit comercial em 2014 para uma projeção de superávit de 55 a 58 bilhões de dólares este ano. Ao contrário do que propala a mídia e parte da classe media repete, o Brasil não está quebrado. Reservas internacionais de 370 bilhões de dólares, projeção de superávit em conta corrente a partir de 2017, e dívida pública em moeda nacional de 65.5% do PIB (a divida japonesa é de 230% do PIB), não são sintomas de quebradeira. Aliás, não lembro de país algum que tenha quebrado por conta de dívida pública denominada em moeda nacional. Nos exemplos da Grécia, Portugal, Espanha e Argentina de Menem e De La Rua, tratava-se de divida denominada em moeda estrangeira já que a Argentina devia em dólar pela política de “conversibilidade” e os países europeus adotaram o Euro que não emitem.

O aumento das exportações e a substituição de importações industriais começam a neutralizar a queda do consumo interno, apontando para que na margem (mês comparado com o mês imediatamente anterior) a economia comece a reagir no 2º semestre deste ano. Michel Temer e os golpistas sabem disso e precisam urgentemente legitimar seu governo nas ruas.

Por esta razão, creio, na contramão de parte das analises feitas pela esquerda, que o programa de Michel Temer se fixará no que chamam de ajustes estruturais, sem impacto recessivo imediato. É a pior parte da sua agenda, mas a mais indolor no curto prazo. Mudar a regra de indexação do salário mínimo pela variação positiva do PIB de 2 anos antes, só terá efeito pratico em 2019, partindo-se do princípio que a economia cresce em 2017, já que em 2015 e 2016 o crescimento terá sido negativo, fazer a contra-reforma da previdência, cujos efeitos também se farão sentir a médio prazo, mudar as regras do Pré-sal, começar o desmonte dos bancos públicos, essa sucessão de desastres seguirão adiante.

Aumentar o contingenciamento do orçamento, restringir o Bolsa Família, cortar mais verba do Minha Casa Minha Vida, isso não me parece que será feito. Até o mais parvo dos economistas neo-liberais já percebeu que sem retomada do crescimento não melhora a arrecadação. E o mais idiota dos PMDBistas sabe que o déficit de credibilidade de Temer não será coberto com mais recessão. Com a inflação em trajetória de queda, sendo hoje estimada em 7% para 2016 contra quase 11% em 2015, mesmo pelos critérios pró rentistas que caracterizaram os governos FHC, Lula e Dilma, já há espaço para a redução da Selic.

A parte mais dolorosa do ajuste fiscal regressivo Dilma já o fez, divorciando-se da sua base social e construindo as condições para o impeachment. A forte contração nos gastos públicos, o tarifaço de janeiro de 2015 e a escalada absurda da taxa de juros transformaram uma recessão moderada e rápida numa depressão econômica de proporções bíblicas com queda estimada do PIB de 7,5% em 2 anos. Chamar um legitimo representante do adversário, Joaquim Levy , para o ministério da fazenda, tomar todas as medidas preconizadas pela direita na macro-economia, conduziram Dilma Roussef e o PT para o austericídio.

Até agora nada indica que Michel Temer e os golpistas se proponham a quebrar o monopólio da estupidez pacientemente construído e consolidado pelo PT e Dilma neste último ano e meio. Esperar que o adversário se comporte de forma estúpida não costuma armar ninguém adequadamente para travar o bom combate.

Publicado originalmente em 10 de maio de 2016.