“NÃO ACREDITO MAIS EM NINGUÉM, SÓ EM DEUS”

Esta foi a frase síntese do depoimento de um homem de meia idade, rosto marcado pela dureza da vida, desempregado vivendo de pequenos trabalhos eventuais, na atividade de formação politica que fizemos em Campos dos Goitacazes ontem. Com a participação de cerca de 60 pessoas na parte da manhã , onde fizemos uma exposição longa sobre classes sociais, conflito de classes, direitos sociais, direitos individuais, direitos humanos, organização politica , sindicatos, associativismo, e partido politico. Na parte da tarde, cerca de 40 participantes divididos em grupos de 8 falaram sobre os temas abordados pela manhã.

Nossa ênfase no empoderamento pessoal, na construção de sujeitos coletivos, na politica como algo inerente ao quotidiano, na necessidade da ação associada e da busca da auto representação, contra o senso comum que reduz a politica á escolha dos candidatos certos. O perfil dos participantes era de gente com escasso ou nenhum contato prévio com a esquerda, maioria de baixa renda da periferia da cidade.

Campos que conheci nos anos 80, vivia a polarização entre as varias oligarquias oriundas da cana de açúcar. Roquefeller de Lima, Zezé Barbosa, e a partir de 1988 Anthony Garotinho, na época a novidade derrotando a oligarquia. De lá para cá, a velha oligarquia e o clã dos Garotinhos se alternaram no comando da prefeitura sempre envolvidos em campanhas caríssimas , com permanentes acusações de compra de votos e o vale tudo para ter o controle do município onde se localiza a maior produção de petróleo do Brasil. Arrecadações milionárias de royalties de petróleo não alteraram as condições de vida de milhares de campistas que continuam sem saneamento, sem trabalho, sem saúde e educação publica minimamente aceitáveis. Hoje o prefeito é o neto de Zezé Barbosa. Por mais movimentado que seja o dia, o ponteiro do relógio volta sempre a marcar a mesma hora. Na politica campista também é assim. A descrença , por obvio, é geral.

Os depoimentos que ouvimos nos grupos de discussão são elucidativos: ”o nosso problema é que escolhemos os políticos errados” e “devemos prestar atenção em quem votamos para votar certo”; “em S.Fidelis anos atrás o povo se organizou e elegeu um pipoqueiro , o Blandino, mas ele chegou lá e teve os professores errados e se perdeu”. O foco é sempre o individuo, os bons e os maus, as escolhas certas e as erradas, os “bons políticos e os maus”. Mesmo quando o exemplo é de uma ação coletiva de auto representação como em S.Fidelis, o resultado é sempre a falha pessoal do individuo que “se perde” devido aos maus conselhos. E a politica são os outros, são os políticos, “o nosso papel é escolher os políticos certos”. Uma mulher gravida precisando de pré-natal , 6 horas de espera e não conseguiu atendimento no posto de saúde. “Lá num dia falta álcool gel, no outro falta gaze, no terceiro faltam os dois”.

“Lá no meu bairro tem fome. Eu mesmo já passei fome, não tenho trabalho, agora estou fazendo um bico, a gente se organiza e faz uma coleta de alimentos porque tem famílias que não têm nada”. E o discurso da direita surge “o problema é que o governo gasta dinheiro com a marginalidade, paga salários aos presos” e lá vamos nós explicar que o auxilio reclusão é para familiares de presos que sejam arrimo de família e inscritos no INSS e que menos de 2% das famílias de presos recebem.

De S.Francisco do Itabapoana, município próximo a Campos, uma mulher , presidente da associação de moradores do Travessão da Barra diz que “não vende o voto, e que cobra do prefeito tudo o que ele prometeu na campanha, e ele acaba cumprindo, porque senão ela vai juntar os moradores e vai encher o saco dele”. Exemplo de ação coletiva, sinais de esperança. 600 Guardas Municipais afastados desde 2008 de forma ilegal se organizam numa associação, dizem que estão legalmente como funcionários, mas por estarem afastados não mais recebem os salários embora constem da folha. Alguem está recebendo por nós, alegam”. Em Campos tudo é possível, até isso. Exemplo de ação coletiva, de possibilidade de luta social por direitos, mas a retorica frequentemente é a de buscar alguém que resolva.

16h30 da tarde, pegamos a estrada de volta ao Rio. Quase 4h de viagem. A sensação de que estamos no rumo certo, mas quanto mais andamos mais percebemos que o caminho é mais longo do que pensávamos. Lembro do trabalhador de meia idade que dizia que só confiava em Deus. Não deixo de lhe dar razão.

Se a vida por aqui é tão ruim, no Céu só pode estar o Paraíso.