A POLÍTICA E OS CHIMPANZÉS

Como é de conhecimento geral, a política é a forma desenvolvida por primatas mais evoluídos, entre os quais se costuma localizar a espécie humana, para mediar conflitos de interesses e reduzir as soluções de força. O oposto da política é a solução de força como método de resolução de conflitos. Para sermos rigorosos, mesmo quando prevalece a política, a força também é usada de forma complementar, e onde prevalecem as soluções de força, a política também está presente. Mesmo em cenários de ditadura ou de guerra civil, o uso da força é feito por coalizões de interesses cujas diferenças foram elas próprias mediadas pela política.

Vivemos temos difíceis no Brasil e no mundo de uma forma geral. A crise econômica iniciada em 2008, associada à rápida mudança de padrões produtivos, à globalização e à perda de referencias por parte dos indivíduos, face as transformações em curso, acirram o conflito de interesses e colocam sob tensão os sistemas políticos e suas capacidades de mediar diferenças entre classes sociais e intraclasses sociais. Neste cenário, cresce a tentação da rejeição à política. Proliferam pelo planeta candidatos e projetos políticos baseados na negação da política e que, por definição, são eles próprios arautos das soluções de força. Ganham apoio de pessoas que acreditam que as soluções de força arbitrarão os conflitos a favor dos seus interesses. A história não costuma dar razão a esse otimismo.

No Brasil, agravado pelo desvendamento da cornucópia de corrupção que financiava os grandes partidos, a antipolítica cresce na defesa de soluções autoritárias. Isto vai da crença irracional de que o super empoderamento do judiciário “saneará” o país ao florescimento de candidatos que basearam sua campanha no descolamento da sua imagem da “politica”. Empresários, pastores, dirigentes esportivos, todos buscando se apresentar como outra coisa que não aquilo que de fato são: representantes de interesses políticos que, até por não se assumirem como tal , são potencialmente mais danosos para a maioria.

Debates legítimos, que em outra circunstância seriam travados pelo seu real valor de face, como o recente aumento de 26% do salário dos vereadores de São Paulo, correspondente a 4 anos onde a inflação acumulada foi de 34%, onde há bons e válidos argumentos, tanto para os que defendem o aumento, afinal 18 mil reais para um vereador que lida com as responsabilidades do 3° maior orçamento do país não é nenhum absurdo, como para os que contestam a oportunidade do mesmo, já que pelo país afora milhares de funcionários públicos estão sem receber salário e outros tantos estão sem qualquer reajuste, são travados de tacape na mão revelando o crescimento da rejeição à política.

Circulam pela internet petições visando acabar com salários de deputados, senadores e vereadores, por vezes repercutidos por pessoas que devem o seu direito à representação exatamente ao assalariamento destas funções. Afinal, quando o direito de voto era restrito às oligarquias proprietárias ou à nobreza, isso era desnecessário. Foi com o alargamento do direito de voto e a ampliação dos parlamentos à representação das classes médias e das classes trabalhadoras, que se apresentou a necessidade da remuneração das funções de representação política.

Nesta mesma diapasão, também proliferam pela internet torcidas a favor da prisão deste ou daquele “político”, normalmente restrito aos “adversários”. Confesso minha estupefação face a esse comportamento de pessoas que se perguntadas professarão juras de amor à democracia. Eu não torço pela prisão de ninguém em particular, mas torço para que a justiça se faça em relação a todos por igual, garantidos o amplo direito de defesa e a presunção da inocência.

A qualidade da representação política está diretamente ligada à qualidade do voto do cidadão. Não tenho motivos para me arrepender dos votos que dei na última década. Os que escolhi para me representar, me representam. Sugiro que todos façam esse balanço antes de se somarem à retorica da antipolítica, porque, em geral, essa retórica se baseia na negação da legitimidade da representação dos outros, nunca da sua própria.

Me parece que, do ponto de vista civilizacional, não deveríamos retroagir a patamares inferiores aos dos chimpanzés.

SOBRE O DEBATE ENTRE FREIXO E CRIVELLA NA BAND

Acho que Freixo foi bem no debate, mostrou mais consistência programática que Crivella. No entanto, tem alguns problemas.

A frase síntese de Crivella é “vou governar para as pessoas”. A frase síntese de Freixo é “vou governar com as pessoas”. Aqui, Freixo demostra correta preocupação com as aspirações de democracia inclusiva, agenda da modernidade num mundo onde a democracia representativa vive uma enorme crise. No entanto, essa demanda é restrita à “tribo” que já vota ou tende a votar em Freixo. Para a outra “tribo”, onde Crivella prospera, democracia é escolher a cada 4 anos aquele que na administração de parcela do estado vai “fazer por nós”. Um dos problemas desta eleição é que esta segunda tribo é maior que a primeira.

Embora seja correto manter a proposta de ampliar a democracia para além dos momentos eleitorais, não será em 20 dias que esse conceito se tornará hegemônico. Logo, é preciso falar a linguagem capaz de chegar à parcela que espera que o prefeito faça , realize, resolva. Como diz Crivella, que “cuide das pessoas”.

Logo na primeira pergunta sobre qual seria a primeira iniciativa ao tomar posse, Crivella foi direto: “vou resolver a fila das cirurgias na área da saúde”. Freixo disse que iria reunir com os profissionais de educação para discutir com eles como seria a nova escola, inclusiva, capaz de formar cidadãos, com autonomia pedagógica, inserida na comunidade. Ambos falaram para tribos diferentes. O problema é que a tribo do Crivella tem mais índios.

Sem falar para esta parcela do eleitorado , não dá para vencer a eleição.

FREIXO, JANDIRA E O SEGUNDO TURNO

Reta final de primeiro turno, pesquisas apontando que a vaga para enfrentar Crivella provavelmente está entre Pedro Paulo e Freixo e se acirra o debate sobre “unidade da esquerda”, sobre voto útil , etc. Sou dirigente do PSOL e como tal faço questão de reafirmar a legitimidade das 2 candidaturas de partidos da esquerda, Freixo e Jandira, bem como a do Molon que, embora não esteja em um partido de esquerda, ele certamente o é.

Unidade em primeiro turno só se pode fazer em torno de um balanço e de um programa comum. Programa , certamente que com algum esforço, teria sido possível fazer. Mas balanço comum, só com uma boa dose de cinismo poderia ter sido feito. Afinal, PSOL de um lado, e PT/PCdoB de outro, cumpriram e ocuparam espaços diferentes, tanto na política nacional com na politica municipal do Rio de Janeiro nos últimos anos. Varrer isso para debaixo do tapete em nome sabê-se lá do quê seria uma fraude com o eleitor.

Setores do PT e do PCdoB alegam a luta contra o golpe como fator de unidade eleitoral. Poderia ser se isso tivesse resultado em uma política nacional coerente de repúdio aos partidos envolvidos no golpe de 2016 e de frente única pela democracia. Só que em centenas de municípios, PT e PCdoB estão aliados ao PMDB e até ao PSDB e DEM. Vamos convir que isso ou seria política nacional ou não tem consistência.

Compreendo as razões, embora delas discorde, que levaram PT e PCdoB a integraram os governos do PMDB no estado do Rio e na prefeitura da capital. Mas o PSOL discorda dessas razões desde sempre e combateu essa lógica e esses governos durante 8 anos. Obviamente que essas trajetórias distintas resultam em narrativas diferentes que cabem ser disputadas no 1 turno. Vale para o Rio, onde o candidato do PSOL está na frente da candidata do PCdoB/PT, e vale para São Paulo, onde o oposto ocorre. A democracia é incompatível com jogar balanços e diferenças para debaixo do tapete.

Durante 13 anos, nós do PSOL clamamos por unidade das esquerdas em torno de políticas de esquerda. Durante 13 anos o PT/PcdoB, Lula e Dilma, privilegiaram como aliados o PMDB e o centrão em torno de políticas que oscilaram entre o reformismo fraco e a capitulação ao conservadorismo.

Deixemos que o eleitor faça suas escolhas no 1º turno. E se chegarmos ao 2º turno, saibamos conversar sobre programa e alianças. Tenho respeito por Jandira Feghali, embora tenha com ela muitas divergências , principalmente de balanço (e isso é importante para que não se cometam os mesmos erros no futuro). Tenho respeito por Haddad, embora seja muito critico à sua administração. Tenho respeito por inúmeros dirigentes e militantes destes dois partidos (infelizmente não posso dizer todos), com quem espero estar nas mesmas trincheiras no futuro.

Mas nesta conjuntura é Freixo no Rio e Erundina em São Paulo.

Publicado originalmente em 25 de setembro de 2016.

 

Análise política e econômica