FREIXO, JANDIRA E O SEGUNDO TURNO

Reta final de primeiro turno, pesquisas apontando que a vaga para enfrentar Crivella provavelmente está entre Pedro Paulo e Freixo e se acirra o debate sobre “unidade da esquerda”, sobre voto útil , etc. Sou dirigente do PSOL e como tal faço questão de reafirmar a legitimidade das 2 candidaturas de partidos da esquerda, Freixo e Jandira, bem como a do Molon que, embora não esteja em um partido de esquerda, ele certamente o é.

Unidade em primeiro turno só se pode fazer em torno de um balanço e de um programa comum. Programa , certamente que com algum esforço, teria sido possível fazer. Mas balanço comum, só com uma boa dose de cinismo poderia ter sido feito. Afinal, PSOL de um lado, e PT/PCdoB de outro, cumpriram e ocuparam espaços diferentes, tanto na política nacional com na politica municipal do Rio de Janeiro nos últimos anos. Varrer isso para debaixo do tapete em nome sabê-se lá do quê seria uma fraude com o eleitor.

Setores do PT e do PCdoB alegam a luta contra o golpe como fator de unidade eleitoral. Poderia ser se isso tivesse resultado em uma política nacional coerente de repúdio aos partidos envolvidos no golpe de 2016 e de frente única pela democracia. Só que em centenas de municípios, PT e PCdoB estão aliados ao PMDB e até ao PSDB e DEM. Vamos convir que isso ou seria política nacional ou não tem consistência.

Compreendo as razões, embora delas discorde, que levaram PT e PCdoB a integraram os governos do PMDB no estado do Rio e na prefeitura da capital. Mas o PSOL discorda dessas razões desde sempre e combateu essa lógica e esses governos durante 8 anos. Obviamente que essas trajetórias distintas resultam em narrativas diferentes que cabem ser disputadas no 1 turno. Vale para o Rio, onde o candidato do PSOL está na frente da candidata do PCdoB/PT, e vale para São Paulo, onde o oposto ocorre. A democracia é incompatível com jogar balanços e diferenças para debaixo do tapete.

Durante 13 anos, nós do PSOL clamamos por unidade das esquerdas em torno de políticas de esquerda. Durante 13 anos o PT/PcdoB, Lula e Dilma, privilegiaram como aliados o PMDB e o centrão em torno de políticas que oscilaram entre o reformismo fraco e a capitulação ao conservadorismo.

Deixemos que o eleitor faça suas escolhas no 1º turno. E se chegarmos ao 2º turno, saibamos conversar sobre programa e alianças. Tenho respeito por Jandira Feghali, embora tenha com ela muitas divergências , principalmente de balanço (e isso é importante para que não se cometam os mesmos erros no futuro). Tenho respeito por Haddad, embora seja muito critico à sua administração. Tenho respeito por inúmeros dirigentes e militantes destes dois partidos (infelizmente não posso dizer todos), com quem espero estar nas mesmas trincheiras no futuro.

Mas nesta conjuntura é Freixo no Rio e Erundina em São Paulo.

Publicado originalmente em 25 de setembro de 2016.

 

BREVE RESUMO DA HISTÓRIA DO BRASIL PELA ÓTICA DO MOVIMENTO ESCOLA SEM PARTIDO

Por volta do ano de 1500, disputando uma regata no Atlântico Sul, o marinheiro português Pedro Alvares Cabral chegou às praias da Bahia. Encantado com o que viu ao voltar para a sua terra, fez uma intensa campanha de marketing sobre as terras encontradas, até que cerca de 30 anos depois , empreendedores portugueses resolveram montar seus negócios por aqui.

Um dos negócios que mais prosperou foi a plantação de cana de açúcar. A expansão da oferta de empregos incentivou muito a imigração africana para o Brasil, tornando este contingente de trabalhadores fundamental para o crescente florescimento econômico do país. Na última década do século XVII , em função de conflitos laborais, Zumbi dos Palmares liderou um grupo de trabalhadores imigrantes e , rompendo unilateralmente o seu contrato de trabalho, se estabelece na Serra da Barriga em Alagoas.

Em 1808, a família real portuguesa resolve passar uma temporada veraneando nos trópicos e se muda para o Rio de Janeiro. Com a morte da rainha D. Maria, seu filho D. João assume o trono. Porém, em 1821, com saudades da sua terra natal, D. João retorna a Portugal, deixando seu filho mais velho, D.Pedro I, no Brasil. Conflitos geracionais – D.Pedro I sempre tinha sido um menino rebelde – levam a que este resolva em 1822 assumir plenamente o governo do Brasil, criando um conflito familiar com seu pai e posteriormente com seu irmão.

Foi sucedido por seu filho D.Pedro II, homem muito ilustrado e com gosto pelas viagens. D.Pedro II, em 1889, resolve se mudar definitivamente para Paris, onde vem a morrer meses depois, deixando o governo do Brasil com seu velho amigo, o Marechal Deodoro.

Na próxima aula, contaremos a história do século XX.

DILMA, O PT E O MONOPÓLIO DA ESTUPIDEZ

Amanhã, 11 de maio, o Senado consolida o golpe e começa o governo Michel Temer. A pressa dos golpistas tem a ver com a economia. Todos os indicadores apontam que em algum momento do segundo semestre a economia brasileira começa a se recuperar lentamente da recessão bíblica em que está desde 2015.

O ajuste do cambio, o único ajuste que deu certo no governo Dilma, fez com que o Brasil saísse de déficit comercial em 2014 para uma projeção de superávit de 55 a 58 bilhões de dólares este ano. Ao contrário do que propala a mídia e parte da classe media repete, o Brasil não está quebrado. Reservas internacionais de 370 bilhões de dólares, projeção de superávit em conta corrente a partir de 2017, e dívida pública em moeda nacional de 65.5% do PIB (a divida japonesa é de 230% do PIB), não são sintomas de quebradeira. Aliás, não lembro de país algum que tenha quebrado por conta de dívida pública denominada em moeda nacional. Nos exemplos da Grécia, Portugal, Espanha e Argentina de Menem e De La Rua, tratava-se de divida denominada em moeda estrangeira já que a Argentina devia em dólar pela política de “conversibilidade” e os países europeus adotaram o Euro que não emitem.

O aumento das exportações e a substituição de importações industriais começam a neutralizar a queda do consumo interno, apontando para que na margem (mês comparado com o mês imediatamente anterior) a economia comece a reagir no 2º semestre deste ano. Michel Temer e os golpistas sabem disso e precisam urgentemente legitimar seu governo nas ruas.

Por esta razão, creio, na contramão de parte das analises feitas pela esquerda, que o programa de Michel Temer se fixará no que chamam de ajustes estruturais, sem impacto recessivo imediato. É a pior parte da sua agenda, mas a mais indolor no curto prazo. Mudar a regra de indexação do salário mínimo pela variação positiva do PIB de 2 anos antes, só terá efeito pratico em 2019, partindo-se do princípio que a economia cresce em 2017, já que em 2015 e 2016 o crescimento terá sido negativo, fazer a contra-reforma da previdência, cujos efeitos também se farão sentir a médio prazo, mudar as regras do Pré-sal, começar o desmonte dos bancos públicos, essa sucessão de desastres seguirão adiante.

Aumentar o contingenciamento do orçamento, restringir o Bolsa Família, cortar mais verba do Minha Casa Minha Vida, isso não me parece que será feito. Até o mais parvo dos economistas neo-liberais já percebeu que sem retomada do crescimento não melhora a arrecadação. E o mais idiota dos PMDBistas sabe que o déficit de credibilidade de Temer não será coberto com mais recessão. Com a inflação em trajetória de queda, sendo hoje estimada em 7% para 2016 contra quase 11% em 2015, mesmo pelos critérios pró rentistas que caracterizaram os governos FHC, Lula e Dilma, já há espaço para a redução da Selic.

A parte mais dolorosa do ajuste fiscal regressivo Dilma já o fez, divorciando-se da sua base social e construindo as condições para o impeachment. A forte contração nos gastos públicos, o tarifaço de janeiro de 2015 e a escalada absurda da taxa de juros transformaram uma recessão moderada e rápida numa depressão econômica de proporções bíblicas com queda estimada do PIB de 7,5% em 2 anos. Chamar um legitimo representante do adversário, Joaquim Levy , para o ministério da fazenda, tomar todas as medidas preconizadas pela direita na macro-economia, conduziram Dilma Roussef e o PT para o austericídio.

Até agora nada indica que Michel Temer e os golpistas se proponham a quebrar o monopólio da estupidez pacientemente construído e consolidado pelo PT e Dilma neste último ano e meio. Esperar que o adversário se comporte de forma estúpida não costuma armar ninguém adequadamente para travar o bom combate.

Publicado originalmente em 10 de maio de 2016.

Análise política e econômica