A CANDIDATURA BOULOS E O LUGAR DE FALA DO PSOL

Milito no PSOL desde a sua fundação e acompanhei todos os processos eleitorais a partir de 2006 que disputamos.Construção difícil, na oposição de esquerda a governos socialmente identificados como de esquerda.Em geral disputamos sem alianças ou com alianças partidárias restritas.Desde 2006 que dizíamos que nossa aliança não era para somar tempos de TV ,mas com os movimentos sociais e suas pautas.Sempre defendi que pautas de movimentos não são programa ,mas que programas devem dialogar com pautas de movimentos.

Curiosamente sempre pensei que fosse consenso no PSOL a idéia de buscar alianças com movimentos sociais.É fato que em todas as ocasiões citadas os movimentos entraram dando suporte e apoio a candidaturas orgânicas do PSOL.

O PSOL corretamente sempre buscou dialogo e apoio de intelectuais e artistas sem vinculo partidário, o que também nunca foi contestado. Mas me causa espanto ver que o apoio de Caetano e Paula Lavigne a Boulos vem sendo apresentado como demérito.É fato que eles não tiveram o protagonismo que lhes foi atribuído em matérias da grande imprensa e que isso causou agastamentos, mas é inegável que tiveram e têm um papel a cumprir e que esse papel não pode ser apenas o de garantir fundo musical aos nossos comícios.

Hoje no debate partidário vejo com espanto que setores que sempre incensaram o papel dos movimentos sociais reivindicam para o PSOL o lugar de fala na sua versão excludente com declarações do tipo “ ele nem é do PSOL”, “a candidatura dele está sendo imposta de fora para dentro”, “temos bons nomes do PSOL, porque buscar alguém que nem é filiado”. Com relação a Caetano e Paula Lavigne bem como a outros artistas e intelectuais, a retórica é também de silenciamento.

Com relação ao lançamento publico da pré candidatura de Guilherme Boulos em ato organizado por movimentos sociais, a retórica da defesa do lugar de fala do PSOL atingiu o ápice. “Assembléia odara”, “atropelo a fóruns partidários”, foram vários os questionamentos dos defensores do “lugar de fala do PSOL” na sua interpretação excludente.

Não estou entre aqueles que relativizam ou menosprezam a política partidária. Toda a minha vida militei em partido político, que considero o espaço adequado para a construção de sínteses políticas e programas gerais capazes de organizarem a luta política. E, sim, esse é o meu lugar de fala, para usar uma expressão que não gosto exatamente pela sua apropriação por setores que buscam excluir os outros do debate.

A novidade de hoje é que os movimentos sociais não estão entrando como caudatários de um candidato orgânico do PSOL, mas com o protagonismo maior da indicação de Guilherme Boulos , principal liderança do MTST , como candidato presidencial. O problema é que artistas não se reduzem a compor o fundo musical e a declarar os costumeiros apoios a candidatos da esquerda mas buscam ser ouvidos e terem seu espaço.

O PSOL fará sua Conferencia Eleitoral no próximo sábado. Analisará entre opções de respeitados quadros orgânicos do partido e de um candidato que aglutina enorme apoio de movimentos sociais , com evidente maior capacidade de levar a nossa mensagem mais longe, sem vínculos orgânicos com o PSOL, cuja filiação é meramente cartorial para cumprir exigências legais. E que é a melhor opção.

Defendo que continuemos fazendo o debate programático, aberto pela Plataforma Vamos, também sem protagonismos excludentes.
Na enorme crise das representações políticas, fenômeno que ocorre á escala mundial, não compartilhar protagonismo com setores não organizados em partidos políticos é , acreditem, não ter entendido nada das “jornadas de junho” nem dos movimentos que assolaram a Europa após a crise de 2008 e fazer a opção preferencial por dialogar com o passado e não com o futuro.

50 ANOS DA OCUPAÇÃO DOS TERRITÓRIOS PALESTINOS E A SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL

O conflito que se arrasta há cerca de 70 anos, continua sem solução á vista. De um lado a maior potencia regional, seja do ponto de vista econômico seja militar, com apoio que varia do incondicional ao quase incondicional, conforme os governos de plantão, da maior potencia mundial. Do outro um povo até hoje sem estado que conta com uma solidariedade de seus vizinhos árabes, variando da retorica radical a algum apoio material conforme os interesses domésticos destes países. Conflito desigual, onde a fraqueza relativa do lado palestino é também a sua força moral.

Cerca de 7 milhões de judeus vivem em Israel, em Jerusalém Oriental e em assentamentos na Cisjordânia, enquanto cerca de 6,5 milhões de palestinos vivem em Gaza, Cisjordânia , Jerusalém Oriental e em Israel. Com exceção de alguns fanáticos da extrema direita israelense ninguém imagina ser viável ou razoável a expulsão dos palestinos de todo o território do antigo mandato britânico da Palestina; da mesma forma com a exceção de alguns poucos militantes mais radicalizados na Palestina, ninguém imagina ser razoável a deportação de 7 milhões de judeus para seus países de origem ( a esta altura de seus pais, avós…) ou a reabertura dos campos de refugiados em Chipre. O dado da realidade é que ninguém vai sair dali e portanto a superação do conflito passa por uma solução construída na racionalidade, sem flertes com soluções maximalistas. Nem o estado de Israel será destruído, nem o “transfer” dos palestinos para fora da Palestina ocorrerá.

O reconhecimento da existência de dois povos deve levar a que o princípio da autodeterminação dos povos seja o marco a partir do qual se busque uma solução. Tenho pessoalmente simpatia por um estado unificado e laico, mas eu não sou israelense nem palestino e minhas simpatias pessoais não importam neste caso. Creio que é absolutamente claro que a enorme maioria dos judeus israelenses e dos árabes palestinos querem ter seu próprio estado nacional.

Aqui me parece ser importante fazer um parêntesis para dizer que ao me referir a judeus, não me refiro a uma religião mas a um povo. Diferentemente do Cristianismo e do Islamismo, religiões proselitistas que sempre buscaram a conversão dos “gentios”, o Judaísmo é uma religião que se define ser de “um povo ”, o que tornou a religião a base cultural para uma identificação nacional. Eu conheço vários judeus ateus, que se definem judeus por compartilhar legados culturais em comum, sem professar a religião. Cristãos ateus ou muçulmanos ateus seria um oximoro.

A solução de dois Estados, única e obvia solução, pressupõe construir entre palestinos e israelenses uma forte base de apoio para que este processo avance. Fazer entender que a segurança de cada estado depende da existência do outro é uma disputa politica necessária. O papel da solidariedade internacional não pode ser de a cada ano repetir as mesmas declarações que mais fazem por aplacar as consciências de quem as emite do que exercer alguma influencia real sobre as partes, mas principalmente de dialogar com as diásporas de ambos os povos buscando influir na disputa de opiniões.Como a parte hegemônica, que mantem o controle efetivo sobre o território é Israel, é na sociedade israelense que persiste a maior acomodação ao inaceitável status quo. Esta realidade só muda a partir de uma disputa politica e conquistar opiniões na sociedade israelense e palestina passa também por disputar opinião nas suas diásporas. Nesta logica, queimar bandeiras, por definição símbolos de povos e não de governos, é um disparate. Misturar ações de governos, por piores que elas sejam, com ações de um povo ou de um estado, apenas ajudam a esses governos consolidarem em torno de si mais apoio.

A solução de dois estados deve ter como base as fronteiras de 1967, com eventuais alterações negociadas, partilha de Jerusalém , capital de ambos, e estatuto de soberania compartilhada da Cidade Velha ou alguma variante em torno disso. Não é coisa simples e aqui cabe lembrar que quem anexou Jerusalém Oriental e declarou a cidade capital indivisível de Israel foi um governo trabalhista. Como não acredito em soluções de força, Israel não será destruído nem os palestinos desaparecerão do mapa apesar de todo o poderio militar israelense , soluções negociadas pressupõem construir forte base social em ambos os lados para que prosperem. O papel das diásporas palestina e principalmente judaica é importantíssimo, porque ajudam a formar opinião nos respectivos países.

Não pretendo nem tenho conhecimentos para aprofundar muito mais o assunto e deixei de abordar muitos pontos polêmicos propositadamente. Balanços de responsabilidades, procedimentos táticos, optei por não tratar de nada disso neste texto que tem por objetivo afirmar que qualquer tática politica deve estar subordinada ao objetivo de ajudar a que ocorram negociações que levem á solução de dois estados.

Descartadas as falsas soluções de força, o centro é a disputa de opiniões.

A REVISTA ÉPOCA E O “JORNALISMO”

Dias atrás fui entrevistado pela revista Época sobre economia na condição de dirigente do PSOL, partido pelo qual Guilherme Boulos deverá disputar a Presidência da República. Foram ao todo 12 perguntas que tinham como mote buscar saídas para a “devastadora crise fiscal” que o Brasil atravessa. Vários assuntos abordados, dívida pública, déficit fiscal, reforma da previdência, privatização das universidades públicas, etc. Todas as perguntas na lógica de que a crise fiscal exige medidas imediatas e radicais para a conter, face ao risco de insolvência da dívida pública.

Essa não é a minha posição. Países que têm sua dívida pública em moeda nacional têm enorme resiliência a déficits fiscais, exatamente porque emitem a moeda na qual é denominada a dívida e, portanto, a percepção de risco de insolvência por parte dos agentes econômicos é totalmente diferente de países cuja dívida pública é denominada em moeda que não emitem. Em 2008, a Espanha, com uma relação dívida/PIB inferior a da Inglaterra, entrou em crise e a Inglaterra não, exatamente pelo fato da dívida inglesa ser denominada em libras, que a Inglaterra emite, e a dívida espanhola em Euros, que a Espanha não emite.

O Brasil não vive, portanto, uma emergência fiscal, ao contrário do que alardeiam os economistas pró-ajuste. O objetivo desse discurso é criar no senso comum a ideia de um país quebrado e, com isso, reduzir a resistência a reformas, cujo objetivo real não é ajustar contas públicas, mas reduzir o custo do trabalho e privatizar partes do Estado.

A recessão induzida de 2015 para cá, teve como resultado o agravamento do déficit fiscal, como era óbvio que aconteceria, mas teve sucesso nos seus objetivos ocultos, que eram aumentar o desemprego, quebrar a resistência sindical e, dessa forma, reduzir o custo unitário do trabalho e desconstruir o Estado, abrindo novas áreas para a acumulação privada, privatizando empresas públicas, desmontando a previdência publica, empurrando os setores médios para a previdência privada , privatizando as universidades públicas, dentre outras.

Todas as perguntas feitas pela revista Época legitimavam essa agenda, buscando respostas dentro dessa lógica. Como desde o início me contrapus à logica em si de que há uma emergência fiscal, minhas respostas não se enquadravam no script da entrevista. O pequeno resumo publicado da entrevista tem o sentido claro de tentar me desqualificar, como se pode ver abaixo.

“Na contramão do pensamento de Lisboa está José Luis Fevereiro, economista do PSOL, que deve ter como candidato o líder do movimento dos sem-teto, Guilherme Boulos. “Não há nenhuma emergência fiscal, ao contrário do que diz o governo”, afirmou Fevereiro, a sério. “Nós emitimos nossa própria moeda, portanto, não há risco de insolvência.” Por seu raciocínio, basta o governo emitir mais moeda para pagar o que deve. Fevereiro é contra o país ter uma meta rígida de inflação: o Banco Central deveria observar não só a inflação, mas ter objetivos ligados ao crescimento do país na hora de decidir pela taxa de juros. Fevereiro defende que a pesquisa básica na universidade pública fará o Brasil avançar na inovação tecnológica. Apesar disso, classifica-se como um cidadão “pré-tecnológico”. Despede-se com a promessa de telefonar porque não tem WhatsApp.”

Após a minha afirmação de que não há emergência fiscal, a repórter coloca um “a sério” cujo objetivo real é dizer que eu não sou sério. Na sequência, quando eu digo “Nós emitimos nossa própria moeda, portanto, não há risco de insolvência.” , ela acrescenta da sua lavra “Por seu raciocínio, basta o governo emitir mais moeda para pagar o que deve”, como se eu em algum momento tivesse dito que a gráfica da Casa da Moeda era a solução dos nossos problemas.

A parte da entrevista em que eu rebato a necessidade de privatizar as universidades públicas usando, entre outros argumentos, o fato de que é no setor público, particularmente nas universidades, que se realiza o grosso da pesquisa básica no Brasil, realçando que as empresas em geral se limitam a fazer pesquisa aplicada, foi resumido à frase “Fevereiro defende que a pesquisa básica na universidade pública fará o Brasil avançar na inovação tecnológica”, seguida do comentário “Apesar disso, classifica-se como um cidadão “pré-tecnológico”. Despede-se com a promessa de telefonar porque não tem WhatsApp.”

Eu posso não ser o economista dos sonhos da revista Época, mas certamente esse tipo de jornalismo não pode ser o sonho de ninguém.

Aqui a referida “reportagem”: https://epoca.globo.com/economia/noticia/2018/02/quem-sao-os-conselheiros-economicos-dos-pre-candidatos-presidencia.html

Análise política e econômica