SOBRE BANCOS E BANQUEIROS

O tamanho da crise econômica que vem por aí precisa ser adequadamente avaliado. Não terá paralelo com nada que a nossa geração tenha vivido. Depois da recessão de 2015/16 e do crescimento pífio dos anos seguintes , esta crise pega muitas empresas já em dificuldades, pega mais de metade da força de trabalho desempregada, subempregada ou na informalidade, pega Estados e Municípios em dificuldades financeiras , e isto tudo com o mais inepto e insensível governo da nossa história.
Neste cenário duas iniciativas têm dado o que falar. A primeira foi a injeção de liquidez no sistema financeiro que pode chegar a 1,2 Trilhões. Medida correta e de manual de crises, semelhante á que foi adotada em 2008 embora em volume muito maior. Não é dinheiro dos seus impostos, não faz parte do orçamento. São recursos provenientes da redução dos depósitos compulsórios que os bancos recolhem ao BC sobre seus depósitos á vista, são operações de compras de títulos do governo com compromisso de revenda futura e outros mecanismos de financiamento normais nas operações de regulação da liquidez da economia. Medida necessária para que não faltem recursos no sistema financeiro para financiar dividas de empresas e famílias neste momento de crise.
No entanto como na crise de 2008 , fornecer liquidez não basta. Bancos privados mesmo tendo recursos em caixa tendem a reduzir suas operações de credito em crises por receio de calote. Aumentam as exigências de garantias e por vezes a taxa de juros embutindo prêmios de risco. Em 2008 foram os bancos públicos que expandiram o credito enquanto a participação dos bancos privados na oferta de credito diminuiu. Este ano com os bancos públicos operando na logica dos bancos privados, como já se viu pelas declarações do presidente do Banco do Brasil de que não iria afrouxar os critérios de exigência de garantias , o cenário pode ser pior. Vale a velha máxima que banco gosta de emprestar para quem não precisa. E, dado o tamanho da insegurança neste panorama de pandemia, não dá nem para dizer que estão errados: neste sentido, é papel do governo federal fazer com que os bancos públicos cumpram a função de emprestar a juros baixos e com prazo extenso às empresas para que possam manter seu negócio e seus funcionários.
Neste contexto que se deve analisar a PEC-10 do governo que entre outras medidas autoriza o Banco Central a comprar carteiras de títulos privados dos bancos. Isto claramente significa comprar também títulos podres de empresas que não irão conseguir sobreviver á crise. Significa estatizar o prejuízo. Isto vem sendo tratado por parcela da esquerda a partir de pressupostos morais e isso é um mau caminho. Sim, o Banco Central vai comprar títulos privados, alguns se revelarão podres e isso é necessário. Sem essa securitização dos riscos os bancos não emprestarão e sem crédito muito mais empresas irão quebrar. A alternativa a isso é estancar a oferta de credito e eventualmente ter que lidar com uma crise bancária com consequências ainda piores. A falência do Lehman & Brothers em 2008 ampliou muito a crise. Falência de bancos não significa a fome e a miséria para os banqueiros. Significa a perda de poupanças de famílias, capital de giro de empresas e para evitar uma crise de confiança no sistema bancário , uma operação de socorro aos bancos na linha do PROER de FHC. Não derrotaremos o capitalismo quebrando empresas e bancos. Nesse rumo aumentaremos a crise e sabemos quem paga mais por ela.
Isto dito, o problema da PEC é a ausência de contrapartidas. Para além de medidas mais obvias e menos radicais, até porque tem mais valor simbólico e moral que impacto macroeconômico, está a proibição de distribuição de lucros ou de bônus aos executivos dos bancos que vierem a ser beneficiados por esta iniciativa. A segunda é proibir que o aumento de liquidez dos bancos seja usado para que recomprem na baixa suas próprias ações garantindo realização de lucros futuros no pós crise. E por fim, essa efetivamente radical , é lastrear estas operações que envolvam títulos anteriores a 20 de março com transferência de ações dos bancos para o poder publico. Isso é ter uma politica que salve o sistema financeiro sem ter compromisso com salvar os banqueiros.
Bancos, no sistema capitalista em que vivemos, são um conjunto de instituições grandes demais para poderem quebrar ( too big to fail) .O mesmo não se aplica aos banqueiros. Se a crise que vem por ai tiver a magnitude que imagino, a esquerda terá o enorme desafio de fazer politica fora do rebaixado senso comum moralista que a contamina, sem abdicar de exigir transparência nas ações do governo.