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SOBRE BICICLETAS E AVIÕES

Em 2016, uma ciclista passava pela Avenida Atlântica trajando uma camiseta vermelha quando foi parada por manifestantes de verde e amarelo que a hostilizaram, insultaram e ameaçaram, de tal forma que teve que sair dali escoltada pela polícia. Ela ousou vestir uma camiseta vermelha, logo era “petista/comunista corrupta quadrilheira, agente do Foro de S.Paulo” e, portanto, alguém que deveria ser desprovida do direito de passear tranquilamente de bicicleta trajando a roupa da cor que quisesse.

Domingo, dia 3, Miriam Leitão, jornalista da Globo, pegou um avião e foi hostilizada por outros passageiros com palavras e empurrões na sua cadeira. Segundo a versão dela e de alguns passageiros, ou apenas com palavras dirigidas à Globo (onde trabalha), segundo versão de outros passageiros. Nas redes sociais, muita gente defende essa ação porque afinal ela é “golpista, mentirosa, apoiadora de um governo ilegítimo que quer cortar direitos do povo”, portanto alguém que deveria ser desprovida do direito de pegar tranquilamente um avião.

A ação em ambos os casos é da mesma natureza. Ninguém corta direitos dos outros, sem primeiro lhes retirar a condição de cidadão igual a todos, portador, portanto, do sagrado direito de ir e vir. A classificação como comunista, golpista, petista, fascista, corrupto, ou, em outra esfera, cracudo, bêbado, vagabundo, gay, sempre antecede a ação castradora de direitos.

As lições da história são muito claras com relação a essa lógica para que sejam esquecidas.

O SISTEMA POLÍTICO FALIU, TEMEMOS O DILÚVIO

A divulgação das delações da Lava jato confirma o que já se imaginava. O sistema político brasileiro baseado em dois blocos de alianças ancorados pelo PT e pelo PSDB faliu. Sistemas políticos em geral se organizam em torno de posição e oposição. No Brasil foi assim desde 1994 onde, com raras dissenções, todo o sistema partidário se organizou à sombra destas duas grandes forças com enorme lastro na sociedade.

PT e PSDB não protagonizaram durante estas duas últimas duas décadas todas as disputas presidenciais e estaduais, com seus sistemas de alianças anexos, apenas por terem votos. Collor também os teve em 1989 e não se consolidou como um dos pilares do sistema. PT e PSDB tiveram esse papel porque representaram interesses e expectativas enraizadas na sociedade brasileira, no meio empresarial, nas classes trabalhadoras organizadas, nos movimentos sociais, na formação da opinião pública. Por essa razão estava implícita a legitimidade do outro, reconhecida pelos vitoriosos e pelos derrotados.

A crise em que estamos, desvendados os métodos de financiamento de campanha com suas operações clandestinas que sempre possibilitaram enriquecimentos dos seus agentes operadores, desmoralizou as principais lideranças dos dois partidos. Lula de um lado e Aécio, Alkmin e Serra do outro, perderam a capacidade de ancorar um sistema político onde derrotados aceitem a legitimidade do vencedor. Mesmo preservando viabilidade eleitoral, coisa que parece mais consistente em Lula segundo as pesquisas, nenhum destes personagens reúne a capacidade de superar a crise de legitimidade, mesmo que eventualmente eleito. Tanto no PT quanto no PSDB não há lideranças alternativas. Falta um nome óbvio ao PT e falta a Dória comprovação de consistência para a tarefa. E não se pode desprezar a perda de legitimidade destes partidos, atingidos tanto quanto suas lideranças de maior expressão

As alternativas à esquerda e à direita não têm lastro social, e aí incluo o meu partido, o PSOL, para reorganizarem em novas bases o sistema político. Certamente aumentarão seu protagonismo, sua influência, mas ainda longe de ocuparem posições no palco principal. Se estivéssemos na segunda metade do século XX, seria o cenário de manual para um golpe militar. No século 21, como sabemos, os golpes são de outra natureza. Está aberta a temporada dos aventureiros vindos de lugares impolutos, vestidos como querubins ou serafins que , assim como Collor, podem ter lastro eleitoral em 2018, mas só prolongarão a crise.

Luis XIV, Rei de França, se tornou celébre por duas frases: “L’Etat c’est mois” (o estado sou eu), adaptado no Brasil para “o Estado é meu”, e “Aprés mois le deluge” (depois de mim o dilúvio).

Preparem os botes.

A POLÍTICA E OS CHIMPANZÉS

Como é de conhecimento geral, a política é a forma desenvolvida por primatas mais evoluídos, entre os quais se costuma localizar a espécie humana, para mediar conflitos de interesses e reduzir as soluções de força. O oposto da política é a solução de força como método de resolução de conflitos. Para sermos rigorosos, mesmo quando prevalece a política, a força também é usada de forma complementar, e onde prevalecem as soluções de força, a política também está presente. Mesmo em cenários de ditadura ou de guerra civil, o uso da força é feito por coalizões de interesses cujas diferenças foram elas próprias mediadas pela política.

Vivemos temos difíceis no Brasil e no mundo de uma forma geral. A crise econômica iniciada em 2008, associada à rápida mudança de padrões produtivos, à globalização e à perda de referencias por parte dos indivíduos, face as transformações em curso, acirram o conflito de interesses e colocam sob tensão os sistemas políticos e suas capacidades de mediar diferenças entre classes sociais e intraclasses sociais. Neste cenário, cresce a tentação da rejeição à política. Proliferam pelo planeta candidatos e projetos políticos baseados na negação da política e que, por definição, são eles próprios arautos das soluções de força. Ganham apoio de pessoas que acreditam que as soluções de força arbitrarão os conflitos a favor dos seus interesses. A história não costuma dar razão a esse otimismo.

No Brasil, agravado pelo desvendamento da cornucópia de corrupção que financiava os grandes partidos, a antipolítica cresce na defesa de soluções autoritárias. Isto vai da crença irracional de que o super empoderamento do judiciário “saneará” o país ao florescimento de candidatos que basearam sua campanha no descolamento da sua imagem da “politica”. Empresários, pastores, dirigentes esportivos, todos buscando se apresentar como outra coisa que não aquilo que de fato são: representantes de interesses políticos que, até por não se assumirem como tal , são potencialmente mais danosos para a maioria.

Debates legítimos, que em outra circunstância seriam travados pelo seu real valor de face, como o recente aumento de 26% do salário dos vereadores de São Paulo, correspondente a 4 anos onde a inflação acumulada foi de 34%, onde há bons e válidos argumentos, tanto para os que defendem o aumento, afinal 18 mil reais para um vereador que lida com as responsabilidades do 3° maior orçamento do país não é nenhum absurdo, como para os que contestam a oportunidade do mesmo, já que pelo país afora milhares de funcionários públicos estão sem receber salário e outros tantos estão sem qualquer reajuste, são travados de tacape na mão revelando o crescimento da rejeição à política.

Circulam pela internet petições visando acabar com salários de deputados, senadores e vereadores, por vezes repercutidos por pessoas que devem o seu direito à representação exatamente ao assalariamento destas funções. Afinal, quando o direito de voto era restrito às oligarquias proprietárias ou à nobreza, isso era desnecessário. Foi com o alargamento do direito de voto e a ampliação dos parlamentos à representação das classes médias e das classes trabalhadoras, que se apresentou a necessidade da remuneração das funções de representação política.

Nesta mesma diapasão, também proliferam pela internet torcidas a favor da prisão deste ou daquele “político”, normalmente restrito aos “adversários”. Confesso minha estupefação face a esse comportamento de pessoas que se perguntadas professarão juras de amor à democracia. Eu não torço pela prisão de ninguém em particular, mas torço para que a justiça se faça em relação a todos por igual, garantidos o amplo direito de defesa e a presunção da inocência.

A qualidade da representação política está diretamente ligada à qualidade do voto do cidadão. Não tenho motivos para me arrepender dos votos que dei na última década. Os que escolhi para me representar, me representam. Sugiro que todos façam esse balanço antes de se somarem à retorica da antipolítica, porque, em geral, essa retórica se baseia na negação da legitimidade da representação dos outros, nunca da sua própria.

Me parece que, do ponto de vista civilizacional, não deveríamos retroagir a patamares inferiores aos dos chimpanzés.