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PLÍNIO JR E OS DIAGNÓSTICOS ERRADOS

O pré candidato a presidente da República pelo PSOL, Plinio Jr, publicou recentemente dois documentos com criticas às diretrizes de programa resultantes dos debates realizados no âmbito da plataforma Vamos. O primeiro com críticas gerais e o segundo focando o debate econômico. Apesar de uma introdução elogiosa à iniciativa, Plínio demonstra não ter entendido os limites e os objetivos de uma iniciativa aberta de discussão envolvendo milhares de pessoas seja em debates públicos seja em contribuições pelas redes sociais.

Um processo como este não resulta, porque não tem com resultar, em um programa de governo estruturado, com analise de cenários, avaliação da relação de forças e objetivos de curto, médio e longo prazo definidos. Uma iniciativa como esta resulta em diretrizes e objetivos gerais que devem nortear a elaboração de um programa. Da mesma forma que o movimento “Se a cidade fosse nossa” não produziu um programa para Marcelo Freixo governar a cidade do Rio em 2016, mas tão somente as diretrizes que o programa deveria seguir. Esta é a natureza e o limite possível de um processo democrático de elaboração. Cabe ao partido e ás forças envolvidas na campanha definirem o processo a ser seguido de transformação dessas diretrizes em um programa efetivo.

No segundo texto que li de Plinio, no qual ele especifica suas criticas às diretrizes de programa econômico, profundas diferenças aparecem. Plínio transplanta características da economia brasileira das décadas de 80 e 90 para 2018, desconsiderando mudanças fundamentais ocorridas, misturando problemas, errando diagnósticos e reproduzindo erros próprios do senso comum conservador.

No item a) de sua critica Plinio diz:
“Ao ater a proposta de auditoria da divida publica ao objetivo de reduzir os “juros abusivos” e discutir o histórico de sua formação, o Vamos perde a oportunidade de explicitar o papel estratégico da divida pública como centro nervoso da politica econômica. Por temor de levar a critica da divida pública às ultimas consequências, ignora a relação de causa e efeito entre reprodução da dívida pública, controle do capital internacional sobre a política econômica e penúria permanente de recursos para as políticas públicas (independentemente dos juros serem mais ou menos “abusivos”). Esquiva-se, assim, de abordar a necessidade incontornável de desvalorização da dívida pública como único meio de resgatar a capacidade de gasto do Estado – um verdadeiro tabu interditado do debate público nacional.”

Plinio opera aqui sob a hegemonia do pensamento liberal que sustenta haver concorrência entre gastos primários e as despesas financeiras da União com uma divida denominada em moeda nacional. A logica comum aos dois é de que há uma crise fiscal do Estado e que esta crise pressupõe medidas radicais de enfrentamento. Para os liberais, a redução do tamanho do Estado , a reforma previdenciária e o teto de gastos; para Plinio a desvalorização do estoque da divida publica.

O problema é que o diagnostico comum a Plinio e a Meirelles & Cia, é errado já que ambos operam na mesma logica de que há um limite fiscal rígido aos gastos primários da União determinado pelas despesas financeiras. Todo o raciocínio liberal é construído sobre a relação dívida/PIB e não sobre o custo do financiamento da dívida. A divida bruta brasileira é de cerca de 74% do PIB enquanto a norte americana de 104% do PIB e a japonesa de 230% do PIB o que demonstra que o problema não é o estoque da divida . Vale dizer também que a relação dívida/ PIB tem aumentado basicamente pelo altíssimo custo do financiamento e pelos planos de ajuste que reduzem a expansão da economia e o próprio PIB). Curiosamente tanto os setores da esquerda capturados por essa logica quanto os conservadores, apóstolos do ajuste, costumam recorrer ao exemplo de crises como a Grega e a Portuguesa , como Michel Temer que em entrevista recente a Silvio Santos, disse que se não aprovássemos a reforma da previdência ficaríamos em 2 a 3 anos na situação de Portugal (de uns anos atrás) que acabou por cortar pensões. Portugal e Grécia não têm moeda nacional, por operarem na zona do euro. Assim sua divida publica é toda externa, por ser composta em moeda que não emitem.

O Brasil tem sua dívida publica denominada em moeda nacional e não tem esse tipo de constrangimento, já que uma divida soberana em moeda nacional é solvente por definição visto que o Estado emite a moeda na qual é denominada sua dívida A rigor, o discurso da burguesia e de seus economistas de alardear uma crise fiscal incontornável, é pura e simples agitação e propaganda visando construir lastro no senso comum para politicas de ajuste. O objetivo fundamental é reduzir o custo da força de trabalho, aumentando o desemprego e dessa forma recuperar margens de lucro. Daí também a reforma trabalhista, aprovada em 2017.

Plínio não é um liberal, mas foi capturado por essa lógica. Dessa forma, advoga a patusca proposta de calote parcial em uma dívida pública denominada numa moeda que o próprio Estado brasileiro emite e que por si só não é constrangimento ao adequado financiamento dos gastos primários da União.

Por isso o apego a uma lógica de Auditoria da Dívida, com foco em caçar eventuais “ilegalidades” ocorridas em décadas passadas, como se fosse possível estabelecer correspondências entre dividas contraídas 20 ou 30 anos atrás e títulos emitidos recentemente e que trocam de mãos diariamente. Seria mais ou menos como a D.Maria ter suas aplicações em fundos de investimento lastreados em títulos da dívida publica , resultado da venda do apartamento herdado do falecido, desvalorizadas porque se descobriu que em 1983 ocorreu uma fraude na licitação das obras de Tucuruí, por exemplo. A menos que Plinio tenha algumas divisões blindadas em condições de cercar Brasília e fechar o STF, não me parece que a proposta, para além de desnecessária, seja viável.

O problema da Dívida Publica não é de estoque mas de fluxo, determinado pela taxa de juros abusiva e esse é o principal enfrentamento a ser feito. Ao ser remunerada a taxas reais que nos últimos 25 anos sempre estiveram entre as maiores do mundo, a dívida virou um instrumento concentrador de renda e patamar básico para todas as outras taxas de juros da economia brasileira. Incluem-se aí as mais perversas, as que incidem sobre o consumo das camadas populares, extorquidas na compra parcelada de bens de consumo duráveis por juros que ao final do pagamento dobram o seu preço, ou por cartões de credito que operam com taxas anuais acima dos 300% .

No item b) de seu artigo Plinio diz:
“Ao silenciar sobre o papel nefasto do passivo externo ( divida externa +investimentos diretos+ riqueza financeira) na economia brasileira, o Vamos, deixa na penumbra a extrema vulnerabilidade da economia brasileira em relação a movimentos de fuga de capital. Oculta-se, assim, um dos principais mecanismos de pressão econômica – a chantagem permanente das agencias internacionais de avaliação de risco e o risco sempre presente de crises de estrangulamento cambial como retaliação a qualquer medida que contrarie interesses do grande capital nacional e internacional. Evade-se, assim, a responsabilidade de enfrentar a delicada questão do papel internacional na economia brasileira –outro grande tabu do debate econômico”.

Neste paragrafo, Plinio desconhece a diferença entre passivo denominado em moeda estrangeira e passivo denominado em moeda nacional ou em ativos de risco nacionais. Trata, como sendo a mesma coisa, variáveis que são completamente diferentes entre si.

Já em 2008, alguns economistas equivocados prognosticavam o Armagedon, visto que a fuga de capitais decorrente do estouro da crise do Subprime nos EUA quebraria o Brasil. Faziam a mesma soma de passivos de natureza distinta que Plinio faz em sua critica. O Brasil é credor liquido internacional em moeda estrangeira, tendo reservas internacionais superiores à sua divida externa. Os investimentos diretos em ativos de risco e as aplicações de estrangeiros em títulos da dívida , são denominados em moeda nacional e portanto sujeitos a desvalorização punitiva em caso de fuga de capitais com ocorreu em 2008. Naquela altura, após dois meses de saída liquida de capitais, no terceiro mês esse movimento estancou. O cambio (flutuante) havia subido 50% e a bolsa caído 40%. Imaginem um investidor estrangeiro que aplicou na Bolsa de valores de São Paulo um milhão de dólares ao cambio de R$ 1,57 por dólar (R$1, 57 milhões no total).Com a crise, ele viu sua aplicação desvalorizar 40%, chegando a pouco mais de R$ 900 mil. Ao tentar sair, encontrou o cambio a R$2,37 por dólar. Nessa situação, ele voltaria para casa com menos de US$ 400 mil. Ou seja, uma perda financeira de US$ 600 mil!

Em 2008, no terceiro mês de crise, a entrada líquida de capitais superou a saída por essa razão. Sequer foi necessário na época centralizar o câmbio ou estabelecer algum tipo de controle de capitais, opções que obviamente devem estar sempre na mesa para enfrentar situações dessa natureza. Neste ponto Plinio também faz coro com os economistas pró ajuste, que usam como argumento que se o Brasil não “ fizer a lição de casa “ sofrerá um ataque especulativo dos credores internacionais, ignorando que a depreciação acentuada dos ativos denominados em moeda nacional dos credores externos será a primeira consequência desse ataque.

Mais adiante no seu texto, Plinio diz “Imaginar que é possível enfrentar o abismo das desigualdades sociais com um projeto econômico que se atém à recuperação do crescimento é um equivoco fatal”
O “atém” aqui fica por conta da apreciação de Plinio, pois é obvio que o programa apontado no Vamos não se “atém” a isso, mas esse é um debate central. Retomar o crescimento econômico é a primeira e mais importante tarefa de um governo de esquerda que porventura vença as eleições de outubro.

Vitória eleitoral só pode ocorrer num quadro de mudança relativa da correlação de forças, mas essa vitória não significa capacidade de mobilização imediata da base eleitoral. Isso só ocorrerá se essa vitória for seguida de medidas que façam de imediato diferença na vida de milhões de trabalhadores e os convençam de que vale a pena defender o novo governo. Sem recuperar o crescimento econômico e retomar o emprego, não se consolida uma nova correlação de forças entre trabalho e capital no conflito distributivo. Sem retomar o crescimento econômico, não se acumula força para avançar em reformas estruturais capazes de impor derrotas efetivas á economia politica do capital.
Na suas considerações criticas ás diretrizes da plataforma Vamos, Plinio aponta a falta de diagnósticos sobre a crise e sua natureza. Essa é com certeza uma insuficiência a ser sanada, mas não resolve substituir a ausência de diagnósticos pelos diagnósticos errados.

Por fim, Plinio encerra seu texto com a seguinte frase: “A possibilidade de uma economia subordinada às necessidades dos trabalhadores passa por transformações econômicas, sociais e culturais que colocam na ordem do dia a necessidade de ir além do capital. A bandeira do socialismo precisa entrar em campo.”

Essa frase cala fundo em todos nós e em todos aqueles que por essas lutas andaram antes de nós, nos últimos 100 anos. Infelizmente as classes trabalhadoras insistem em priorizar suas necessidades materiais de curto prazo e se nós não nos credenciarmos na viabilização dessas demandas concretas e sensíveis, não conseguiremos colocar absolutamente mais nada na ordem do dia, muito menos “em campo”.

#guilhermeboulos #plataformavamos #boulos2018 

OS CONTADORES E A SUSTENTABILIDADE DA PREVIDÊNCIA PÚBLICA

O debate sobre a previdência tem sido colocado com frequência no lugar errado. Economistas e ativistas da esquerda têm insistido na tese de que a previdência não tem déficit, se levarmos em conta os dispositivos constitucionais de sustentação da seguridade social sem o desvio de recursos provocado pela DRU (Desvinculação das Receitas da União). Do ponto de vista contábil, é correta a afirmação, mas o debate sobre o futuro da previdência e sua sustentabilidade no tempo, não é um debate sobre onde se localiza o déficit primário da União, mas sobre produtividade do trabalho. Se é fato que pelo menos até o aprofundamento da crise em 2015/16 a previdência não apresentava déficit , é fato também que o debate relevante é sobre as projeções para as próximas décadas.

Os economistas conservadores, apóstolos do desmonte da previdência pública, apresentam dados sobre projeções da curva demográfica que demonstram que em 1980, para cada trabalhador inativo havia 9,2 trabalhadores ativos e que em 2015 seriam 5,6 ativos para cada inativo. Mantidas as curvas demográficas, chegaríamos a 2040 com 2,56 trabalhadores ativos para cada inativo.

Esta projeção deve ser contestada porque pressupõe a manutenção das curvas demográficas correntes e desconsidera a implantação de políticas públicas de incentivo à natalidade, como ocorre em países demograficamente mais maduros. Mesmo assim, parece ser incontestável que mesmo que com números mais moderados, a tendência à redução relativa de trabalhadores na ativa face aos inativos ocorrerá. O debate central está localizado, portanto, na possibilidade de menos trabalhadores sustentarem em regime de repartição um número de inativos maior.

Esta possibilidade está diretamente ligada à produtividade do trabalho. Menos trabalhadores ativos, porém com maior renda, podem sim sustentar a previdência pública, mesmo que com uma relação menor entre ativos e inativos. Uma sociedade mais rica tem uma capacidade tributária maior. Aqui não vou entrar no debate sobre o perfil da carga fiscal que obviamente no Brasil é o pior possível, com as rendas do Capital sub tributadas e as do trabalho fortemente tributadas.

De 1981 a 1990, a chamada década perdida, a produtividade do trabalho se reduziu em cerca de 2% ao ano. De 1991 a 2000, a produtividade do trabalho cresceu na media a 1,6% ao ano. De 2001 a 2010, a 1,2% ao ano. Este cálculo é feito pela divisão do PIB pela população economicamente ativa.  Ao contrario do que os leigos possam imaginar, o principal fator determinante da produtividade do trabalho não é o desempenho/esforço do trabalhador, mas o volume de capital utilizado na produção. Economias mais industrializadas têm produtividade maior que economias centradas em produtos primários. A Alemanha tem uma produtividade do trabalho superior a Burkina Faso não porque seus cidadãos trabalhem mais que os antigos Alto Volta (provavelmente ocorre o oposto), mas porque sua economia está ligada a tecnologias de ponta, alto grau de capitalização, centros de pesquisa e indústria de alto valor agregado.

O debate central, portanto, está localizado em qual perfil de economia que o Brasil deverá ter nas próximas décadas. Na virada dos anos 70 para os 80, a produção industrial brasileira correspondia a quase 30% do PIB. Em 2015, chegou a 11,9% do PIB. Os salários industriais correspondem na média ao dobro dos salários na área de serviços e a 3 vezes os salários no comércio. O processo de desindustrialização acelerado que vivemos desde os anos 90 impacta também o perfil dos serviços da nossa economia que, ao contrario de economias mais industrializadas, por aqui também se concentra em serviços de baixo valor agregado. O impacto da indústria vai além dos seus números específicos  mas ela tem um poder de transcendência sobre o conjunto da economia, aumentando a produtividade do todo. É fácil entender isso se imaginarmos que operários de uma fabrica com salários acima da media do conjunto dos trabalhadores da sua região terão capacidade de demandar serviços mais sofisticados, produzindo um efeito de elevação da renda à sua volta. Por outro lado, a perda de base industrial deteriora a renda, mesmo daqueles que não trabalham diretamente na indústria.

Debater a sustentabilidade da previdência pública nas próximas décadas passa por retirar a discussão do terreno dos contadores e colocar no terreno da macroeconomia. Mantido o curso atual de reprimarização da economia, de desindustrialização, de perda de investimentos em pesquisa com o sucateamento das universidades públicas, fonte principal do que se faz de pesquisa primaria no Brasil, nossa previdência será insustentável com certeza. Refazer um projeto de nação, apostar numa economia com maior autonomia tecnológica, com indústria de ponta, com cadeias produtivas diversificadas, nos fará chegar a 2040 com produtividade e renda do trabalho que possibilitarão enfrentar as consequências das mudanças demográficas sem perda de direitos.

Esse é o debate que interessa à esquerda. É o debate que nos confronta com o modelo de economia periférico/dependente hegemônico há duas décadas e meia e que não chegou a ser substancialmente alterado no período Lulista, em que pesem algumas medidas contra hegemônicas adotadas no período, como foi a politica de componentes nacionais nas compras governamentais.

DÍVIDA PÚBLICA: MITOS E REALIDADE

Sobre a origem

A dívida pública brasileira é estimada em torno de R$3 trilhões (conforme a metodologia usada, pode ser mais ou menos). Isso corresponde a cerca de 65% do PIB, no caso da dívida bruta, e a cerca de 49% do PIB, na dívida líquida (descontadas as reservas). Em termos comparativos com outros países, não é uma dívida grande. O Japão deve mais de 230% do PIB, os EUA quase 100%. No entanto, desde 1994 até hoje ela cresceu cerca de R$50 bilhões para os valores atuais. No início dos anos 90, com o Plano Collor, a dívida brasileira havia sido quase toda “esterilizada”. O bloqueio dos ativos financeiros, a não incorporação da inflação de março de 90 (de quase 80%) e a posterior correção desses ativos em valores inferiores à inflação real corresponderam a um calote efetivo na dívida, que foi reduzida a valores muito baixos.

Reza a lenda, difundida pela mídia conservadora e pelos economistas liberais, que o crescimento da dívida é resultado da “gastança” dos governos, culpa da Constituição de 88, que foi muito “generosa” com os direitos sociais, culpa dos aposentados – e por aí vai. Na verdade, com exceção de alguns anos do governo FHC e dos dois últimos anos do governo Dilma, em nenhum momento os gastos primários do governo (excluindo juros) foram maiores que a arrecadação de tributos e contribuições sociais. O chamado déficit primário foi exceção nos últimos 21 anos em relação aos superávits primários.

Na verdade, a história começa com o Plano Real e a sua concepção embutida de trocar inflação por dívida. Ao ancorar informalmente o real ao dólar e abrir o país às importações, com o objetivo de impedir remarcações de preço pelos produtores nacionais, o governo precisava de entrada de dólares para sustentar o câmbio e cobrir os déficits comerciais e de serviços nas contas externas. A forma de obtê-los foi o programa de privatizações e a subida alucinada da taxa de juros sobre a dívida pública, atraindo toda a sorte de capital especulativo. Taxas de juros reais (descontada a inflação) de mais de 10% ao ano eram normais nos anos 90.

Lula assume em 2003 com uma dívida pública já inflada para R$630 bilhões, decorrente exatamente dessas taxas de juros extravagantes. A política de juros elevados é mantida por Lula, com Henrique Meirelles na presidência do Banco Central. A alegação era de que juros altos são essenciais numa economia com tendências inflacionarias crônicas. Dito assim, pode parecer que a inflação é algo no DNA do povo brasileiro ou decorrente da água que bebemos. Na verdade, duas são as razões estruturais para o Brasil ter uma taxa de inflação tão resiliente na faixa média dos 5 a 6%.

A primeira é que como economia em transição há um ajuste de preços relativos em curso que os países ricos já fizeram faz tempo. A elevação em temos reais do salário mínimo, bem como a melhoria dos padrões educacionais, encareceram o custo da mão de obra de baixa qualificação, elevando o preço dos serviços. A estabilidade da moeda e a abertura do crédito imobiliário (praticamente inexistente até então), mesmo que caro, encareceram o preço dos imóveis. Estes preços relativos os países ricos já corrigiram faz tempo. Por esta razão é impensável que possamos ter inflação Suíça, na faixa de 1 a 2% ao ano.

O segundo fator é a persistência de indexações indesejadas na economia brasileira. Diz-se entre economistas que uma das vertentes da luta de classes é o esforço em desindexar a renda do outro lado mantendo a sua perfeitamente indexada. Assim, o discurso conservador aponta a necessidade de desindexar o piso da previdência e agora até o próprio salário mínimo da inflação, possibilitando o “ajuste” em tempos de crise. Mas o Brasil é dos poucos países onde um contrato de aluguel de 30 meses vem com cláusula de reajuste anual, onde as concessões de serviços públicos têm cláusulas de reajuste anual indexadas a índices inflacionários, onde portanto a renda do patrimônio e do capital segue perfeitamente indexada sem contestações, reprogramando para a frente a inflação passada.

Neste cenário, a política de juros altos, muito pouco eficaz no controle da inflação, nada mais é que um mecanismo de transferência de renda do conjunto da sociedade para os beneficiários do rentismo.

Dívida Pública: para que serve e para o que deveria servir
Na maior parte dos países, a dívida pública é algo positivo. O estado gastar mais do que arrecada para realizar investimentos em infraestrutura, educação, universalização da rede de saúde, benefícios que atingirão gerações, diluindo estes custos no tempo, sempre foi um instrumento positivo para acelerar o desenvolvimento. O maior desenvolvimento daí decorrente aumentará no momento seguinte a própria arrecadação tributária, aumentando a capacidade de gasto do estado. Obviamente que estamos falando de países que remuneram a sua dívida com taxas próximas à inflação e em alguns casos até abaixo. Inacreditáveis taxas de 0,5% ao ano são frequentes no Japão, por exemplo. Não imagino que fosse possível taxas dessa natureza no Brasil porque nossa moeda não é considerada reserva de valor, ao contrário do Dólar, do Yen e do Euro, mas taxas próximas à media da inflação (portanto, taxa zero em termos reais) seriam perfeitamente possíveis.

Para além disso, dívida pública é fundamental como mecanismo de politica econômica para regular a liquidez da economia induzindo maior ou menor crescimento. Se, por uma intervenção celestial, a dívida fosse extinta, teria que ser recriada.

O problema, portanto, da dívida brasileira não é o seu tamanho nem a sua existência. É a quem ela serve. Enquanto for remunerada a taxas de juros despropositadas, obrigando o Estado a gerar superávits primários para a sustentar, ela serve à elite rentista. Retomar o controle público sobre a dívida, transformando-a em fator de financiamento do desenvolvimento econômico e social do Brasil, é o programa que a esquerda brasileira deve assumir como central.

Quando dos nossos impostos vai anualmente para pagar a dívida
Em 2014 e 2015, zero. A União teve déficit primário e, portanto, não sobrou da arrecadação de impostos e contribuições nem um centavo para a dívida, fazendo com que toda ela fosse rolada com a emissão de novos títulos com vencimento a futuro. Mais do que isso, parte dos gastos primários do governo, o déficit primário, também foi financiado com emissão de dívida. Essa, aliás, é a razão da grita da mídia conservadora e dos defensores do rentismo, porque esta taxa de juros só é sustentável se a União obtiver robustos superávits primários, como aconteceu de 2003 a 2013.

Circula pelas redes sociais um gráfico em forma de pizza atribuído à Auditoria Cidadã da Dívida (ACD) que mais confunde que explica. Essa “pizza” mostra a estrutura de gastos do Orçamento Geral da União e compara despropositadamente gastos com educação, saúde e investimentos, todos vinculados ao orçamento fiscal, com os gastos de amortizações e juros da dívida. Se tivesse, junto à mesma “pizza”, algo que mostrasse a origem dos recursos do Orçamento Geral da União, veríamos que de 2003 a 2013 a maior parte os recursos pagos na rubrica da dívida teriam vindo de captações de novos empréstimos com lançamento de novos títulos da dívida, restando uma parte menor paga com os superávits primários. Em 2014 e 2015, veríamos que os recursos captados com o lançamento de novos títulos da dívida superaram os valores pagos relativos à dívida vincenda. A diferença é que de 2003 a 2013, o Brasil realizou superávits primários e, em 2014 e 2015, teve déficits cobertos com nova dívida.

Para os leigos em economia o tal gráfico passa a noção absurdamente errada de que, se não tivesse dívida, teríamos mais 45% do orçamento para gastar. No cenário de hoje, com déficit fiscal primário em 2014, 2015 e certamente em 2016, a decorrência de uma moratória ou suspensão de pagamentos da dívida seria a União ter que apertar mais ainda o orçamento por não ter como financiar o déficit. Paradoxalmente, significaria mais arrocho.

Dois apontamentos para uma política econômica de esquerda
Esclarecida a inviabilidade das soluções mitológicas como “suspenda-se o pagamento da dívida e a profecia bíblica de que o mel jorrará para todos se cumprirá”, é necessário pensar um programa de esquerda capaz de enfrentar a realidade.

O primeiro ponto obviamente será mudar o enfoque do enfrentamento da inflação. Este deverá passar pela desindexação de contratos, quebrando-se a reprogramação inercial da inflação passada para o futuro, preservando-se apenas a indexação do salário mínimo e da previdência, baixando a taxa de juros a patamares próximos à inflação, o que significa taxa real próxima a zero. Neste cenário torna-se sustentável ter déficits primários continuados (os EUA têm déficits primários ininterruptos desde 1960), aumentando significativamente a capacidade de gasto do estado. Trata-se aqui de fazer da dívida uma aliada do desenvolvimento.

O segundo ponto passa por uma reforma tributária efetiva que aumente a taxação do patrimônio e da renda, reduzindo os impostos indiretos que oneram o consumo e a produção. Aumentar a progressividade das alíquotas do Imposto de Renda, voltar a tributar distribuição de lucros, isento desde os anos 90, criar um imposto federal sobre heranças (a melhor e mais eficiente forma de tributar grandes fortunas).

Não pretendo nem tenho capacidade de esgotar este assunto, mas acho fundamental que a esquerda faça um debate sério sobre economia e aponte saídas reais fora da mitologia que com frequência a cerca – e que no máximo serve para fazer propaganda de má qualidade.