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O RACISMO, A DESIGUALDADE E OS SAPATOS

No Brasil do século 19, escravos não podiam usar sapatos. No Rio de Janeiro de 1870, 60 % da população negra ou parda era liberta e cerca de 40% era escrava. Os sapatos eram prerrogativa dos libertos e símbolo dessa liberdade. Com a abolição em 1888 há relatos de ex-escravos juntando as poucas economias que tinham e comprando sapatos. Muitos sequer os usavam porque décadas andando descalços, seus pés esparramados não cabiam nas formas usadas na confecção dos mesmos que eram carregados a tiracolo como adereço simbólico de liberdade.
O simbolismo disso seguiu na linguagem onde a expressão “pé rapado” é usada para caracterizar pejorativamente os despossuídos, os miseráveis, os que não tem bens , os análogos a escravos.
Em Moçambique onde nasci e vivi até meados da década de 70, a maioria dos negros não usavam sapatos. Tive colegas no ensino primário que iam descalços para a escola. Era mais que um símbolo de pobreza. Tropas coloniais de fim do século 19 até a 1ª guerra mundial recorriam ao recrutamento de soldados negros. A famosa coluna guerrilheira do Gen. alemão Lettow Worbeck em operações na África oriental e que foi o ultimo general alemão a se render 20 dias após o armistício na Europa tinha alguns milhares de soldados negros recrutados na Africa Oriental Alemã, atual Tanzânia. Plenamente uniformizados , com armas , barretes e polainas, porem … sem sapatos ou botas, restritos aos oficiais brancos. Não era um problema de custos mas de hierarquia.Podiam morrer pelo Kaiser alemão , mas descalços.
Curiosamente os únicos brancos que via sem sapatos em Moçambique eram sul-africanos Boeres. Tinha um amigo no meu bairro ,o Genin, que andava descalço. As 3 filhas do Consul Sul Africano, Ingrid, Techa e Linda, iam á confeitaria do bairro, a Pigalle no edifício Buccelatto, descalças. Milhares de Boeres vinham no verão para as praias de Maputo ou do BIlene. Vinham nos seus trailers , ficavam nos campings, jamais em hotéis, e andavam descalços pelas ruas. Eram olhados com um certo desdém pela elite branca de Moçambique que os achava bárbaros, incivilizados. Essa mesma elite que tomava o chá das 5h macaqueando costumes ingleses. Reproduziam sem o saber , porque a cultura era inversamente proporcional á arrogância, a frase de Winston Churchill quando este como repórter cobrindo a guerra Anglo -Boer de 1899 a 1902 disse se referindo aos Boers -: “acontece que são negros de pele branca”.
Voltei a Moçambique em 2012 e pelos menos nas cidades não vi ninguém sem sapatos. Um dia fomos á Africa do Sul para conhecer o Kruger Park .Estava com meu filho menor , á época com 10 anos e era uma oportunidade imperdível . Saímos de Maputo num onibus fretado ( éramos 14 pessoas) ás 5h da manha para cruzar a fronteira em Ressano Garcia as 6h na abertura da Imigração. São cerca de 100 Km de Maputo até a fronteira. Ao chegar , na nossa frente uma SUV sul-africana com uma família branca. Boer, afinal estavam todos descalços.
Eles são brancos, se não tem mais o poder politico que tinham , continuam tendo poder econômico e não carregam as marcas da humilhação do papel subalterno que a dominação colonial reservou aos negros. Se alguém não gosta que andem descalços , isso pouco lhes importa. Para os negros, em Moçambique e na África do Sul usar sapatos é mais que uma conveniência, é um símbolo de liberdade, de igualdade e de ascensão econômica.
Como foi no Brasil após a Abolição.

DE 1960 A 2020, UMA VIDA NO MEIO DO RACISMO

Nasci em Mocambique em 1960 e passei minha infância e parte da adolescência numa sociedade colonial. Conheci o racismo desde pequeno. Portugal sustentava uma guerra colonial brandindo o mito de um país pluricontinental, multirracial e com diversidade religiosa. Gilberto Freyre era apropriado pelo Salazarismo para dizer que a presença dos portugueses em Africa era diferente das outras nações europeias porque não havia racismo. Todos eram iguais perante a lei. De fato entre o final dos anos 50 e o inicio dos 60 a lei do indigenato que desconsiderava como cidadãos a enorme maioria da população negra tinha sido abolida e em tese qualquer pessoa podia viver, frequentar ou fazer qualquer coisa lícita independente da sua cor. Soa familiar não é?
Na escola os professores eram orientados a proclamar a igualdade racial, o paraíso da não discriminação. Lembro de minha professora de português do 2º ano ( sexta serie) que por coincidência era mãe de um amigo meu e que morava na mesma rua, perorando a turma com esse discurso. No meio da aula bate na porta o Sr Afonso, uniforme azul ,continuo na escola Gen. Machado, e a turma se levanta porque um adulto entrava na sala. Essa era a regra. Trazia uma mensagem. Minutos depois a professora toca a campainha do corredor e outro continuo vem buscar a resposta. Era o Armando, mesmo uniforme azul , mesma função e ninguém se levanta. O Sr Afonso era branco, o Sr Armando, que era só Armando, era negro. Seus 2 filhos gêmeos estudavam na mesma turma que eu e assistiam a essa rotina.
Lembro de, ali pelos 9 anos de idade , ir com um amigo a uma mostra de slides de fotografias na Sociedade de Estudos. Ao chegar uma fila na porta. Uns 50 ou 60 garotos como nós, mas negros. Entramos na fila. Logo um funcionário vem nos buscar no final da fila e leva para dentro. Só mais tarde os negros puderam entrar depois que ficou claro que teria lugares vagos. Nada disso tinha amparo legal mas e daí? era normal.
No meu bairro, área de classe media alta/ricos, tinha que eu lembre uma família negra. Era o Dr Mario Torres, natural de Cabo Verde, formado em Coimbra. O Dr Mario Torres era negro? “não, claro que não, ele é Cabo Verdiano”. Tambem soa familiar não é? Ele até era socio da Associação Académica, um dos clubes da elite.
O apartamento social/racial era de tal forma que foi com muito espanto que lá pelos meus 5 ou 6 anos eu ouvi que a maioria ( coisa de uns 97%) da população de Moçambique era negra. Para mim era mais ou menos meio a meio porque essa era a realidade visual na cidade “de pedra e cal” onde eu vivia. Claro, naquela altura eu não frequentava a periferia, não conhecia Xipamanine, nem a “cidade do caniço” a não ser de ver de passagem no caminho do aeroporto quando alguém chegava de viagem.
Com uns 11 anos comecei a andar de bicicleta por toda a cidade. Ia muito para o bairro do Triunfo a 8 Km de distancia , na estrada da Costa do Sol. Na ida ou na volta passava pela estrada de terra que saia da rua que levava ao campo de golfe atrás do Autodromo e ia margeando o manguezal até o Bairro do Triunfo passando por um bairro de caniço onde via as mulheres catando caranguejos no mangue para vender nos bairros como o meu. Andar de bicicleta no manguezal era espetacular. Areia socada pela maré, ligeiramente ondulada , a pressão da roda na areia expulsava a agua e fazia os caranguejos fugirem. Acabei arrastando vários amigos a irem comigo. Desnecessário dizer que nessa área de caniço só viviam negros e no Bairro do Triunfo se vivia lá algum negro, que não fosse empregado domestico, eu nunca vi.
Em 1973 entrei para o Liceu. Do 3º ano ao 7º ( sétima serie ao 3º ano do ensino médio) se estudava no Liceu. Tinham 2 liceus na velha Lourenço Marques ( nome colonial da cidade de Maputo). Um chamado sugestivamente de Liceu Salazar, que era maior e atendia os bairros de classe media e media alta, e o Antonio Ennes que ficava no Alto Mahé e atendia a área de classe media baixa e as periferias. Eu me matriculei no Liceu Salazar mas por excesso de demanda 10 turmas foram transferidas para o Liceu Antonio Ennes , entre elas a minha. Minha turma era o 3º 8. Isto porque tinha turmas de A a Z e os transferidos era de 1 a 10.Isso só no Terceiro Ano. Era um mundaréu de gente. Racialmente mais diversificado pelo menos nas turmas originarias do Antonio Ennes. A minha como vinha do Liceu da elite tinha muito poucos estudantes negros.
O racismo também transpirava por todos os poros. Uma única professora negra, a Dra Joanna Simeão professora de inglês, que ao chegar ao liceu era sistematicamente vaiada pelos estudantes brancos mais velhos. Nunca tive aula com ela mas obviamente a vaia era por ser negra. Marcello Caetano, Chefe do Governo Português, a cada 3 meses fazia longos pronunciamentos em cadeia de radio e TV,( para nós só radio porque em Mocambique não tinha TV) reafirmando que “Portugal era um só pais multirracial , pluricontinental…..e que todos eram iguais”.
Lembro de um episodio na minha turma onde após um desentendimento um colega , o Carlos Senna, branco, parte para cima do Helder, negro e ….“ seu preto ordinário”. Helder reagiu chamando-o de racista e eu e alguns colegas nos solidarizamos com ele. Constrangido o Carlos pediu desculpas, disse que não era racista mas que tinha perdido a cabeça. Vi muitas vezes pela vida afora gente batendo na mulher ,mas que não era machista, só tinha perdido a cabeça, ou insultando “seu veado filho da puta, mas sem homofobia tá? foi só porque perdi a cabeça”. Nunca entendi como alguém pode perder o que não tem.
Em 1975 vim para o Rio de Janeiro. Estudava em Ipanema, colégio da elite.Me lembro de ter um professor de português negro na 8ª serie. Mas não lembro de estudantes negros no Colegio. Talvez tivesse mas seriam muito poucos. Normal, afinal a enorme maioria da população brasileira era branca. Pelo menos até julho de 1976 quando, como sou filatelista e soube que nas agencias de correio da baixada tinham ainda selos de anos anteriores já esgotados no Rio, resolvi pegar o trem até Japeri. Me senti de volta aos 5 anos quando me contaram que a maioria da população de Moçambique era negra.
Parei em todas as estações na volta, buscando agencias de correio. Morro Agudo, Queimados, Eng.Pedreira, parte desses lugares não tinham asfalto. As ruas eram de terra batida e carroças a tração animal eram comuns. A pobreza era a regra. Lembrei dos bairros de caniço.
No 2º ano questionei uma professora que disse que no Brasil não tinha racismo. Perguntei quantos deputados negros ela conhecia. Ai ela sacou um nome de um ex deputado. O simples fato de lembrar de um ex deputado já me bastava. De tão inusitado ela lembrava de um. Lembrei do Dr Mario Torres , o único negro que vivia no meu bairro mas que “afinal era cabo verdiano”.
A convivência com o racismo escancarado em Moçambique me criou os anticorpos necessários a entender o racismo no Brasil. São da mesma natureza. Filhos da mesma desigualdade. Lá era mais escancarado, aqui mais mediado. Mas é o mesmo racismo.

FRENTE AMPLA CONTRA BOLSONARO, FRENTE DE ESQUERDA CONTRA O BOLSONARISMO

O governo Bolsonaro precisa acabar. É uma ameaça existencial a milhões de brasileiros. As razões dessa premência dispensam maiores explicações para os leitores eventuais deste texto. Seja pelo impeachment, seja pela derrubada da chapa pelos notórios crimes eleitorais , essa tarefa é central na conjuntura. Sem um amplo apoio social e sem um amplo arco de alianças não se consegue fazer isso. Por isso a necessidade de fazer a mais ampla frente, da esquerda á direita e até aos que recentemente romperam com Bolsonaro .Cabem todos nesta frente.
Essa frente é de pauta única. Ela não tem um programa que a unifique nem tem como ter. É frente com inimigos de classe em torno de um único objetivo: derrubar Bolsonaro. Cumprida essa tarefa , o Bolsonarismo continuará existindo como corrente relevante na politica brasileira porque tem lastro em parcela da sociedade. Alguns dos aliados necessários a derrubar Bolsonaro não têm qualquer interesse em derrotar o Bolsonarismo como corrente politica , seja porque partilham de alguns valores em comum, seja porque a existência de uma corrente fascista no Brasil ajuda a naturalizar como “aceitáveis” alternativas políticas conservadoras portadoras de projetos anti populares que se apresentarão em 2022 com candidaturas do perfil de Moro, Hulk ou Doria.
Por essa razão a tarefa de derrotar o Bolsonarismo como corrente de opinião é tarefa da esquerda. Não será um debate académico, nem apenas um debate direto de valores , mas uma disputa de base social. Retirar o lastro social do Bolsonarismo passa por construir um programa capaz de dialogar com a legião de derrotados da Globalização, e da Revolução Tecnológica. Os precarizados, uberizados, terceirizados, os trabalhadores sem direitos, os pequenos empreendedores, todos aqueles que foram de alguma forma empurrados para a sobrevivência por conta própria com os quais a esquerda e seus aparatos têm poucos vínculos orgânicos. Milhões de trabalhadores que não vêm no Estado um espaço de acolhimento ou de garantias, e que por isso são facilmente polarizados pelo discurso anti estado e anti sistema da extrema direita. Sem travar essa disputa e sem a vencer, o Bolsonarismo continuará como espantalho a ser brandido pela direita tradicional para viabilizar frentes amplas , obviamente sob sua hegemonia, polarizando parte das bases da esquerda .
Por isso é absolutamente necessário que a esquerda opere a Frente Ampla para derrubar Bolsonaro enquanto constrói a Frente de Esquerda para derrotar o Bolsonarismo. É questão de sobrevivência .Fazer a segunda sem a primeira não viabiliza derrubar o presidente. Fazer a primeira sem a segunda implica na subordinação da esquerda aos projetos da direita liberal.