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A ASCENSÃO DO BOLSONARISMO E O BALANÇO DAS ELEIÇÕES

Analisar o resultado das eleições de 2018 passa por fazer um longo balanço dos 13 anos de governos petistas, das mobilizações de junho de 2013, do golpe parlamentar de 2016, da crise economica e dos desacertos táticos da esquerda em 2018.

LULA NO GOVERNO

Lula eleito em 2002 e reeleito em 2006 com mais de 60% dos votos, conduziu um governo que abriu mão de usar seu capital politico para realizar reformas estruturais no país. O movimento social e politico que desde o inicio dos anos 80 impulsionou o PT, viabilizando uma enorme corrente de opinião e anseio por reformas estruturais não se transformou a partir de 2003 numa ação de governo que estivesse á altura dos desafios; reforma agraria para democratizar a propriedade da terra, reforma tributária para inverter os custos de sustentação do estado hoje majoritariamente a cargo dos mais pobres, enfrentamento ao rentísmo encastelado nas maiores taxas de juros do planeta com a perversa consequência de agravamento da distribuíção de renda, mudança na legislação de meios de comunicação enfrentando os monopólios privados, e reforma politica criando mecanismos de democracia direta e reduzindo peso do dinheiro nos processos eleitorais compunham uma agenda que estava na cabeça dos milhares de ativistas que foram essenciais á vitória de Lula. Todas e cada uma dessas agendas foram abandonadas pelo PT. Seria razoável supor que o seu sucesso dependeria da correlação de forças mas esta mesma correlação se altera com a disputa politica. Derrotas também fazem parte do processo de politização da base social. Lula se caracterizou no seu governo por construir consensos sem disputa. A cada “consenso” maior a desmobilização da sua base.

Surfando um período de forte crescimento econômico Lula distribuiu renda na base da pirâmide social sem precisar enfrentar privilégios das elites. Programas importantes foram desenvolvidos como por exemplo o Bolsa Família, o Luz para Todos, o programa de cisternas no semiárido, o apoio á pequena agricultura , o aumento real do salario mínimo, a expansão da rede publica de universidades .O período de forte crescimento econômico permitiu ganhos reais de renda para setores expressivos das classes trabalhadoras que aumentaram seu padrão de consumo. Se isso fidelizou a Lula e ao PT contingentes expressivos do eleitorado particularmente no nordeste, a ausência de disputa politica não reforçou a consciência de classe nem educou essa base social para a necessidade da mobilização.

Só por ingenuidade se poderia achar que uma força progressista vencendo as eleições presidenciais em minoria no Congresso, a esquerda teria no máximo cerca de 170 deputados em 2003 numa câmara de 513, poderia governar sem acordos pontuais com setores da burguesia. Explorar as contradições no interior das classes dominantes e nas suas representações politicas faz parte do jogo. Mas seria crucial entender que a disposição destes setores em negociar só existiria mediante a permanente disputa politica por parte da esquerda e da pressão de massa capaz de influir na correlação de forças. A opção do PT de abandonar o confronto e a disputa a troco de pactuações a frio revelou-se catastrófica.Da mesma forma a diluição das diferenças com as lideranças oligárquicas nos estados contribuiu para o desastre. Cada vez que Lula chamou Sarney de companheiro , cada vez que uma liderança petista rezou com Malafaia, cada vez que Lula pediu voto para um prócer Pmedebista ,um tijolo no impeachment de Dilma foi empilhado. Da capitulação do governo Dilma em levar adiante a Cartilha Contra a Homofobia nasceu o “Kit Gay” usado nas redes de whatzap em 2018.Da acomodação com as cúpulas conservadoras das igrejas evangélicas nasceu a reação ás pautas libertárias . Ao invés de disputar os trabalhadores evangélicos pela base, buscou-se o apoio por cima das suas lideranças que, fortalecidas, construíram a agenda que derrotou a esquerda nas periferias das grandes cidades em 2018.

JUNHO DE 2013

Junho de 2013 mostrou o aprofundamento da impaciência de parte da juventude urbana com a insuficiência dos serviços públicos. Um movimento que começa pedindo mais Estado, educação e saúde padrão FIFA , melhorias na mobilidade urbana e redução das passagens foi tratado pelo PT como orquestração inimiga. Fernando Haddad , prefeito de S.Paulo epicentro inicial do movimento, dá entrevista junto com Alkmin negando o atendimento das reivindicações. Foi o toque de reunir para a direita buscar se apossar das mobilizações. Pautas estranhas ao movimento brotam do chão como a rejeição á PEC 37, o discurso anti-partido se espalha e quando finalmente as mobilizações murcham temos como saldo a constatação que a extrema direita havia ganho o gosto pelas ruas. 2013 não foi por obvio uma orquestração da direita como setores do petismo sustentam para ocultar seus erros, nem foi um avanço do movimento de massas hegemonizado pela esquerda como poderia ter sido se a principal força tida socialmente como de esquerda, o PT, não tivesse reagido tão mal, como outros setores da esquerda equivocadamente sustentam.

O SEGUNDO GOVERNO DILMA E O DESASTRE

Ao aprofundamento da crise em 2014 o segundo governo Dilma reage adotando o programa econômico da oposição conservadora e mergulhando o país numa recessão planejada de grosso calibre. A ação de Eduardo Cunha boicotando o governo e aprofundando a crise era um movimento esperado; não o perceber e tentar sair do beco politico concedendo ás elites a adoção do seu programa econômico fez com que o PT perdesse o apoio da sua base social. O governo do PT era um governo de conciliação de interesses de classe a frio, sem disputa, tolerado pela burguesia mas nunca acolhido por ela. As alianças ao centro construídas com base no compartilhamento da gestão do estado da forma tradicional como se ao PT fosse concedido pela elite o privilegio do aparelhamento por ela exercido durante 500 anos, criaram uma ilusão de governabilidade e sustentabilidade do governo. Ao primeiro sintoma de fragilidade perante a sua base social a aliança se desmontou e a corrupção, sistêmica ao histórico modelo de gestão do estado brasileiro e adotado pelo PT , passou a ser usada para desmoralizar Lula, Dilma e os seus governos.

O EMPODERAMENTO DO JUDICIÁRIO E O DESMONTE DO SISTEMA
POLITICO

O balanço dos erros estratégicos não se resume aos erros do PT. Toda a esquerda, PSOL incluído, capitularam frequentemente as ações de desqualificação da politica e dos poderes eleitos e apoiaram o empoderamento do judiciário. A agenda de esvaziamento dos poderes eleitos vem de longe. Desde a Lei de Responsabilidade Fiscal que retira poderes aos governantes eleitos, passando pela independência de fato do banco central que retira importante instrumento de governo das mãos da Presidência da Republica até chegar á famigerada lei da Ficha Limpa , apoiada por todas as bancadas da esquerda e que coloca sob tutela do judiciário a definição de quem é elegível e quem não é elegível pelo povo brasileiro.

A PEC 37 que buscava separar as funções de investigação a cargo das policias da função de oferecimento de denuncia, a cargo das procuradorias foi torpedeada pela direita sem resistência . Temos hoje a singular situação em que os que oferecem a denuncia conduzem também as investigações. Investiga-se portanto para corroborar denuncias . O mais conservador dos 3 poderes da Republica , o único não eleito , composto pela meritocracia tal como a conhecemos por estes trópicos , exorbitou suas funções nos últimos anos comprometendo as liberdades democráticas. Setores minoritários do PSOL apoiaram a Lavajato embarcando de forma acrítica num movimento que tinha como alvo a derrubada do PT ainda que ao preço da desmoralização de todo o sistema politico. A ilusão que a alternativa de poder poderia ser á esquerda desconsiderou a correlação de forças e o crescente avanço conservador visível desde 2013 na base da sociedade .

O GOVERNO TEMER E O APROFUNDAMENTO DA CRISE

Consumado o golpe parlamentar de 2016 o governo Temer aprofunda as medidas econômicas recessivas e de desmonte do estado, prolongando a crise. O aumento exponencial do desemprego e a perda de renda mergulham de volta na pobreza setores que nos anos anteriores tinham experimentado algum nível de ascensão social. A rápida desmoralização do governo composto pelas alas mais apodrecidas do sistema político , fazendo com que Temer tenha por duas vezes sido submetido a votações no Congresso que se aprovadas resultariam no seu impedimento, consolidam na sociedade um forte sentimento de mudança. O judiciário em ação concertada com a burguesia retira Lula da disputa e o condena num processo totalmente desprovido de provas . Das lideranças egressas do que era socialmente percebido como o “sistema politico” Lula era o único que preservava base de massa para ser um candidato competitivo. O PSOL assim como corretamente se opôs ao Impeachment , também se opôs á prisão de Lula por nós claramente entendido como iniciativa de caráter golpista feita sob medida para viabilizar uma alternativa eleitoral das elites.

AS ELEIÇÕES DE 2018

O processo eleitoral de 2018 foi peculiar. O favorito nas pesquisas, Lula , segurou a campanha eleitoral até meados de setembro numa tática de alto risco buscando manter sua candidatura ao limite do possível. Só com a derrota do ultimo recurso jurídico, Lula lançou a candidatura de Fernando Haddad. Com pouco tempo de campanha pela frente o PT, principal força do campo progressista , precisou concentrar seus esforços na transferência de votos para Haddad. Embora bem sucedido nesse objetivo, o preço pago pela opção de manter o protagonismo com o ex-presidente foi que Bolsonaro não foi combatido no primeiro turno. O PSOL sem tempo de TV tentou cumprir esse papel , mas praticamente o fez só. Ciro Gomes mais empenhado em disputar a vaga com Haddad centrou esforços em pregação de voto útil apresentando-se como o único candidato capaz de vencer Bolsonaro, hipótese essa que figura mais no terreno da sua vontade que numa avaliação realista do que se tenha transformado o anti-petismo.

A campanha subterrânea do Bolsonarismo com a profusão de noticias falsas encontrou terreno fertilizado por uma intensa disputa ideológica anti esquerda realizada desde 2013. Seria um erro grave apontar as “fake news” como as responsáveis pela vitória da extrema direita. Esse é um recurso velho , usado pelo menos desde Goebels nas campanhas do partido nazista e sempre repetido pela extrema direita. A intensa campanha feita pelas redes de TV nos últimos anos são a versão mais cheirosa e limpinha das Fake News mas delas não se diferenciam na essência. A novidade de 2018 é a tecnologia de disseminação via Whatzap já usada em menor escala nos EUA com Trump , no Brexit na Inglaterra e por aqui mesmo em 2016 no segundo turno do Rio de Janeiro pela campanha Crivela.

O anti petismo é na sua essência anti esquerda. Ao transferir da sociedade para o Estado o problema da corrupção constrói uma narrativa anti estado , justificadora do seu desmonte. Ao mediatizar julgamentos de denunciados fulaníza a corrupção tirando dela o seu carácter sistêmico e preparando o terreno para que os “homens bons da Republica” se apresentem como salvadores da Pátria. Cada vez que a esquerda contemporizou com a Lavajato, cada vez que ajudou a mediatizar julgamentos , cada vez que se somou ao empoderamento do judiciário, soprou as velas da nau de Bolsonaro

O PSTU e alguns setores minoritários do PSOL flertaram com o anti-petismo não entendendo o seu caráter reacionário. Imaginar que a oposição de esquerda poderia a partir de 2013 hegemonizar uma saída de superação do Lulismo só poderia partir de setores que naquela altura negavam a existência de uma onda conservadora. Esse foi um dos debates no Congresso do PSOL de 2015. A história deixou claro quem tinha razão.

A candidatura de Guilherme Boulos foi um acerto numa conjuntura eleitoral muito difícil. Pela primeira vez o PSOL apresentou um programa á disputa presidencial digno desse nome. Boulos incidiu no debate construindo uma respeitabilidade que vai muito além da sua votação prejudicada por ondas de “voto útil”. Eleitores do PSOL e até militantes fraquejaram na sustentação do seu voto no primeiro turno numa clara incompreensão do que significa a existência de 2 turnos, e no mais absoluto descolamento do que seja o Brasil. Alguns votaram em Haddad com medo da vitória de Bolsonaro no 1 turno como se migrar votos entre os candidatos progressistas fizesse alguma diferença na existência do segundo turno; outros imaginando que o Brasil fosse a sua bolha nas redes sociais votaram em Ciro atrás de uma hipotética maior chance de vitória no 2 turno, não entendendo que o maior potencial de Ciro se resumia ás classes medias com possível prejuízo nas áreas populares onde Haddad e o PT tinham vantagem ,particularmente no nordeste.

O PSOL dobrou o numero de deputados eleitos conseguindo 2,99% dos votos validos para deputado federal , quase o dobro da clausula de barreira. Esse resultado demonstra o acerto da linha politica seguida pela direção nacional do partido desde que em 2015 Eduardo Cunha abriu o processo de impeachment. O PSOL foi o único partido do campo progressista que cresceu em numero de votos e em bancada.

A esquerda como um todo e o PSOL em particular errou na sua tática eleitoral nas disputas do Senado. Eleição majoritária em turno único obrigava, perante a ascensão do fascismo, a conformação de acordos informais desde o primeiro turno. No Rio de Janeiro, em Minas, S.Paulo e Rio Grande do Sul foi um grave equivoco o lançamento de chapas completas por parte da aliança que apoiou Guilherme Boulos assim como por parte do PT que fez o mesmo com exceção do Rio de Janeiro. Reivindicamos como correta a posição que defendemos de apoio no Rio de Janeiro a Chico e Lindberg para o Senado. A subestimação da ascensão do fascismo levou a que se pensasse a disputa do Senado como se estivéssemos em 2014.As derrotas, inesperadas para alguns, de Suplicy em S.Paulo e de Dilma em Minas mostram o tamanho do equivoco.

A RESISTÊNCIA EM TEMPOS DE BOLSONARO

A brutal mudança de cenário aberta com a vitória do candidato fascista nos obriga a pensar a nossa ação em três dimensões. A defesa das liberdades democráticas em frente ampla com todos os setores que se coloquem contra o avanço autoritário; a ação em frente de esquerda na defesa dos direitos sociais e contra o desmonte do Estado com as Centrais Sindicais, os movimentos sociais e os partidos políticos que integram as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. A consolidação da relação com o PCB , o MTST e a APIB que fizeram parte da campanha Boulos na disputa ideológica e de projeto na base da sociedade.

O movimento das mulheres , a campanha do #elenao# e 47 milhoes de votos em Haddad ,deixam claro que temos base social para resistir. A campanha “viravoto” na reta final mostram que temos militância capacitada a travar a disputa. A eleição de um presidente fascista não transforma o Brasil numa ditadura . Mas o período politico é outro. Não podemos permitir do nosso lado táticas aventureiras e nem podemos ter tolerância com provocadores sejam infiltrados , sejam inocentes uteis. Desta vez isso dirá respeito á segurança de todos.

O fascismo usa e manipula o medo para tolher a resistência ao seu projeto. Recuar perante a intimidação facilitará a vida do Bolsonarismo. Sem recuos na luta mas sem provocações e principalmente sem ações vanguardistas , esse deve ser o caminho da esquerda.

Coletivo A ESQUERDA – PSOL

PORQUE VOTEI NO CABO DACIOLO EM 2014

Dizem que filho feio não tem pai, mas isso só vale para os fracos. Votei e fiz campanha para Daciolo nas eleições de 2014. Conheci o Cabo Benevenutto Daciolo em 2011, quando ele surgiu como a principal liderança do movimento dos bombeiros militares do estado do Rio de Janeiro.

Os bombeiros recebiam de salário base R$1.198,00 no Rio, enquanto em Brasília o piso era de R$3.453,00. O movimento buscava um piso de R$2.000.00 de imediato e a aprovação da PEC 300 que estabelecia um piso nacional salarial para Bombeiros e Policiais Militares. O movimento surpreendeu a todos com a extraordinária organização e de imediato contou com a solidariedade da população.

Milhares de bombeiros marchavam pelas ruas, sempre fora dos seus plantões para não serem acusados de motim, gritando suas palavras de ordem e parando para rezar e pedir o apoio de Deus com frequência. Compreensivelmente é uma categoria com forte religiosidade, sendo na sua maioria evangélicos. Afinal, para nadar 200 metros mar revolto adentro para resgatar alguém de afogamento, ou entrar em um edifício em chamas para salvar uma criancinha no terceiro andar, é preciso acreditar que Deus está no comando. Só na racionalidade e no profissionalismo é mais difícil.

O governador Sérgio Cabral reagiu com a truculência habitual, prendendo administrativamente mais de 400 bombeiros após estes terem pacificamente ocupado o Quartel Central e os chamou de “vândalos”. Esta decisão foi o rastilho para deflagrar um amplo movimento de solidariedade da população para com os bombeiros. As fitas vermelhas nos carros eram a marca do movimento e se espalharam por todo os estado. Ali começou o declínio de Sérgio Cabral no estado . Os partidos da esquerda, em particular PSOL e PSTU, apoiaram decisivamente o movimento e passaram a ser a referência para a vanguarda dirigente do movimento.

Para a esquerda se apresentava pela primeira vez em décadas a oportunidade de ter uma parcela militante e uma liderança de massas numa corporação militarizada, em geral base da extrema direita e de Bolsonaro. Preso novamente em 2012 quando voltava da Bahia, onde tinha ido se reunir com lideranças do movimento da PM local há época em greve, Daciolo é expulso da corporação, sendo mais tarde anistiado.

Em 2012, Daciolo apoiou Ciro Garcia do PSTU a prefeito do Rio de Janeiro. Naquela altura, estava claro para a vanguarda do movimento a necessidade de levar para o terreno da política a luta da corporação. PEC 300, que estabelecia piso nacional unificado para policiais e bombeiros, além de mudanças no regulamento militar (acabando com as prisões administrativas, por exemplo), eram causas que se resolveriam no terreno da disputa política . Bombeiros e PMs são os únicos funcionários públicos que podem ser privados da liberdade sem processo judicial, bastando uma decisão administrativa do comando da corporação.

Os bombeiros fundaram a ABMERJ, associação profissional, já que não têm direito à sindicalização, onde debatiam temas caros à esquerda, como a desmilitarização das suas corporações. Bandeira difícil de ser levada sem mediações pelas condições objetivas em que estas corporações vivem. Se o regulamento militar lhes proíbe a sindicalização e os submete a prisões administrativas, por outro lado lhes garante porte de arma, o que possibilita fazer bicos fora dos plantões, sem os quais a sobrevivência com salários ínfimos seria difícil, e garante a passagem à reserva remunerada com 30 anos de serviço ou com vencimentos proporcionais a partir de 10 anos .

Estive em atividades de formação política promovidas pela ABMERJ, onde, por exemplo, se debatia a Coluna Prestes e se falava nos cerca de 7000 militares perseguidos pela ditadura com passagem compulsória para a reserva ou com tortura e prisões. Muita gente da esquerda tem falado sem o menor conhecimento de causa sobre o processo que levou Daciolo a se candidatar a deputado federal,comprando pelo valor de face matérias de jornal que atribuem a sua candidatura a “um cálculo eleitoral mal feito pelo PSOL”.

Na campanha de 2014, Daciolo foi duramente combatido nas redes sociais pelo Bolsonarismo que “alertava” a tropa que votar no Daciolo era eleger Jean Wyllys e os defensores dos “direitos humanos de bandidos”. Pessoalmente, sempre tive certeza que Daciolo se elegeria. Se alguém se surpreendeu com sua eleição, não fui eu . Era uma aposta, sabíamos dos riscos, mas era também uma oportunidade de consolidar uma liderança capaz de dialogar com as corporações militarizadas de todo o país e combater a extrema direita e Bolsonaro no seu reduto.

Daciolo sempre teve um forte componente messiânico, mas com um pé bem fincado na realidade sem o qual não teria liderado com sucesso a luta dos bombeiros. Após a eleição, mas ainda antes da posse, em dezembro de 2014, estive com Daciolo e um procurador da Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República no Complexo do Alemão, na UPP da Nova Brasília. Daciolo tinha articulado a vinda do procurador para denunciar as péssimas condições de trabalho dos PMs.

Subimos pelo teleférico até a Nova Brasília e nos deparamos com um cenário de guerra. Esta era a UPP com maior índice de violência no ano, com um oficial e creio que 2 soldados mortos meses antes. Sacos de areia na frente da sede da UPP, duas patamos atravessadas na diagonal para proteger o perímetro de tiros, Daciolo chama os policiais para uma roda de conversa dentro da UPP. São liderados por um sargento de 36 anos com câncer no rim e que teve sua baixa na corporação negada por não ter metástase. Outro soldado diz residir na Vila Cruzeiro, uma das comunidades do Complexo, contrariando todas as normas de segurança ao ter sua família exposta a retaliações. Um terceiro soldado mora em Itaperuna, a 9 horas de distância do Rio e que nas 36 horas de folga pouco tempo lhe resta para ficar com a família. Teria tido sua remoção para um batalhão próximo ao seu município negada. Por fim, um soldado de 22 anos que, quando perguntado quantos tiros de fuzil havia dado no treinamento, disse que nenhum. Para ele, isso não era problema, porque vinha dos fuzileiros navais, mas outros colegas dispararam pela primeira vez já em ação.

Saí dali com duas certezas. A primeira , que uma tragédia iria acontecer na Nova Brasilia (o que ocorreu poucos meses depois quando uma patrulha da UPP matou um garoto de 10 anos de idade). A segunda, que Daciolo era uma chance extraordinária de conseguir chegar a esse segmento de trabalhadores com uma ótica oposta a do Bolsonarismo.
Nunca foi fácil dialogar com Daciolo. O forte componente messiânico sempre esteve presente, mas com um pé na realidade. “Deus está no comando” era frase usada com frequência para encerrar polêmicas, mas sempre seguida de uma ação coerente com a racionalidade.

Com a chegada a Brasília, isso mudou. Longe da categoria e deslumbrado com as mesuras e poderes associados ao mandato, Daciolo envereda crescentemente para o misticismo. O tom do discurso religioso se acentua e a dissociação da realidade aumenta muito. Foram meses difíceis, até que ele apresenta a PEC propondo mudar a Constituição substituindo “todo o poder emana do povo” por “todo poder emana de Deus”. Todas as tentativas de o demover disso esbarravam em respostas do tipo “foi o Senhor Jesus que me mandou fazer isso”. A expulsão do PSOL foi necessária para proteger o partido.

No seu mandato, Daciolo seguiu votando com a esquerda na enorme maioria das pautas. PEC do teto dos gastos, reforma trabalhista, contra as privatizações, licença para processar Temer (Daciolo foi o primeiro a protocolar pedido de impeachment de Temer), mas votou a favor do impeachment de Dilma. Nunca perdoou o PT, a quem atribui responsabilidade pela sua prisão em 2012 na volta da Bahia.

Daciolo é um homem honrado. Tem um compromisso difuso de classe. Mas o seu crescente messianismo o levou a um forte descolamento da realidade, o que o separou da esquerda. É difícil defini-lo. Talvez caiba nele a desgastada frase “nem de esquerda nem de direita”. É contraditório e tomado por uma religiosidade confusa que beira a irracionalidade, mas, ao contrário de Bolsonaro ou de Malafaia, sua religiosidade é sincera e honesta . Daciolo expressa de forma clara princípios cristãos de solidariedade, compaixão e piedade. Ao mesmo tempo que votava pelo impeachment de Dilma, foi ao palácio rezar por ela. Não pode ser confundido com os picaretas que usam a religião para manter privilégios e defender a agenda da elite do atraso.

Foi uma aposta que deu errado, mas as razões desta aposta continuam válidas. Talvez demore algumas décadas para que a esquerda volte a ter a oportunidade de construir uma liderança capaz de disputar a massa das corporações militarizadas com a extrema direita.

À esquerda que defendo não cabe o papel de comentarista da luta de classes, mas o papel de a disputar nas condições dadas e com os atores disponíveis.

SOBRE O CAPITULACIONISMO E O ELEITORALISMO

A presença de Guilherme Boulos ontem no festival Lula Livre vem gerando polêmica. Boulos mudou sua agenda cancelando a participação em importantes atividades da sua pré-campanha para estar presente nos Arcos da Lapa. Esta foi a decisão correta.

A constatação de que estamos debaixo de um golpe de estado precisa ter consequências. O líder das pesquisas eleitorais à Presidência da República é preso político em Curitiba. Estas eleições não são iguais aquelas que passaram. Apresentar uma candidatura de esquerda com um programa para enfrentar a radicalidade da crise foi a decisão correta do PSOL, PCB e MTST. Mas estas eleições não se travam em condições de normalidade democrática.

Não há normalidade democrática sob a vigência de um golpe, com o empoderamento de um judiciário partidarizado, com Lula preso, com 23 ativistas sociais de 2013 condenados de forma absurda, com inquéritos abertos para silenciar o debate nas universidades, com a polícia federal ameaçando professores que na UFSC denunciam a própria polícia como responsável pelo suicídio do reitor Luis Cancelier.

Me causa estranheza que setores da esquerda que compartilham da mesma caracterização sobre o golpe de 2016 possam imaginar que a campanha deva ser feita como se na normalidade estivéssemos. Da mesma forma que me causa estranheza ver outros setores da esquerda em vários estados da federação se compondo com candidaturas da direita golpista.

A luta pelas liberdades democráticas precede as nossas diferenças programáticas, embora não as anule. Por isso, atos com a repercussão e o peso do festival Lula Livre deve ser a prioridade na agenda da esquerda. Na denuncia da prisão de Lula, se denuncia o avanço do arbítrio. E este nos atinge a todos.

Da mesma forma, não tem explicação que setores da esquerda onde têm força eleitoral tomem decisões que facilitem a eleição ao Senado de candidatos comprometidos até a medula com o golpe e seu programa.

Pluralidade na disputa eleitoral e unidade contra o golpe e seus representantes: essa deve ser a ação da esquerda. Os que capitulam a alianças com os golpistas e os que priorizam a campanha eleitoral demarcatória em relação à luta unitária contra o golpe, sucumbem ao eleitoralismo.

Esse não deve ser o caminho.