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A PAUTA DE COSTUMES E SUA INSTRUMENTALIZAÇÃO PELA DIREITA

No seu livro “A consciência de um liberal”, Paul Krugman relata como a direita americana, desde o fim dos anos 60, começa a demolir o estado de bem-estar social construído a partir do governo Roosevelt até o governo Johnson. Uma das reformas previstas por Johnson nos anos 60 era a universalização da saúde pública, barrada pela direita com o recurso ao racismo, forte no Sul, que até então era base do Partido Democrata, trabalhando com a ideia que num sistema público de saúde brancos teriam que conviver com negros nos mesmos hospitais, compartilhar enfermarias e até, horror dos horrores, receber transfusões de sangue sem saberem qual a origem racial do mesmo. A coalizão social que garantira maioria para as reformas iniciadas nos anos 30, com alíquotas de Imposto de Renda que chegavam a 90%, aumento dos gastos públicos, criação de programas sociais, lei dos direitos civis, começa a se desfazer, iniciando-se um período largo, que perdura até hoje, de hegemonia do pensamento conservador.
A cartada religiosa também fez parte do cardápio da construção dessa nova hegemonia conservadora, com a proliferação dos tele-evangelistas, da radicalização do fundamentalismo e sua instrumentalização para fazer com que trabalhadores pobres passassem a eleger deputados porque eram contra o aborto e contra os direitos LGBTs, mas que ao chegarem ao Congresso votavam também pela redução dos impostos dos ricos e pela redução dos programas sociais. Neste caso, pode-se dizer que os perus votavam pela antecipação do Natal.  A partir dos anos 80, foram raras as legislaturas onde o Partido Republicano não tivesse maioria no Congresso, mesmo durante governos de presidentes democratas. Uma coalizão da elite rica com os trabalhadores pobres, polarizados por uma agenda de costumes conservadora. Aparentemente este bloco pode estar chegando ao fim pela mudança do perfil demográfico americano, mas ainda é cedo para ter certezas a respeito.

No Brasil, vivemos um processo semelhante. O crescimento acelerado das igrejas evangélicas verificado dos anos 80 para cá, também com a proliferação dos tele-evangelistas e da teologia da prosperidade, tem levado ao Congresso cada vez mais deputados eleitos em torno da pauta de costumes, que com poucas exceções são também base para o conservadorismo nas pautas sociais. Há, no entanto, uma diferença importante a ser considerada no Brasil, que é a emergência das pautas sociais numa sociedade relativamente bem mais pobre que a norte-americana e que parte de uma desigualdade muito maior.

A esquerda brasileira se encontra no dilema de ter que defender a sua agenda de costumes, porque ela é correta e porque ela dialoga com setores oprimidos, sem cair na armadilha de aceitar esta pauta como a central da disputa política. Na última eleição presidencial, vimos o esforço de Luciana Genro para tentar sair do canto das pautas libertárias, onde a mídia em geral tentava circunscrevê-la para não dar destaque as suas posições sobre a agenda de direitos sociais e reformas econômicas. Por outro lado, temos visto que segmentos sociais com profunda concentração de evangélicos neo-pentecostais têm se organizado para lutar por direitos sociais. Aqui no Rio de Janeiro, bombeiros desde 2011, garis em 2014 e 2015, operários da construção civil no Comperj. Em Goiás, na fazenda de Eunício de Oliveira, ocupada pelo MST, a maioria dos ocupantes é evangélica, conforme notícia publicada no Globo de 18/01/2015. “No interior do acampamento há mercearia, serviço de mototáxi e até uma igreja da Assembleia de Deus improvisada num barracão. A maioria dos sem-terra no local é evangélica. Numa dessas mercearias, há um aviso: ‘Fiado, só quando a terra sair’. No acampamento há também uma bandeira da campanha de Dilma Rousseff”.

Evidentemente a luta de classes se manifesta, se infiltra e não podia ser diferente numa sociedade tão desigual como a brasileira, onde a concentração maior de evangélicos ocorre exatamente nas periferias pobres das grandes cidades. Para a esquerda, a tarefa é disputar esses segmentos, a partir da agenda de direitos sociais, e fazê-lo sem preconceitos, buscando no processo debater e fazer avançar a agenda de costumes. Pode não ser tarefa fácil, mas para se constituir uma esquerda capacitada a disputar poder é necessário fazê-lo.

Nos anos 30 e 40 os partidos comunistas não aceitavam católicos, e católicos que fossem comunistas corriam o risco de excomunhão. A partir dos anos 60 surge uma esquerda católica expressiva, a partir das Comunidades Eclesiais de Base, inspirada na Teologia da Libertação. Se isso ocorreu numa igreja milenar profundamente centralizada como é a Igreja Católica, certamente tem espaço no movimento evangélico dividido em milhares de denominações e muito menos centralizado para o crescimento da esquerda.

Basta que a esquerda de dispa dos seus preconceitos e incorpore aqueles que a partir das lutas sociais se aproximam dela. Não é tarefa sem riscos, como a crise com o Daciolo deixa claro, mas são riscos que fazem parte da disputa de hegemonia na sociedade. O contrario é se colocar fora da disputa.

A POLÍTICA E OS CHIMPANZÉS

Como é de conhecimento geral, a política é a forma desenvolvida por primatas mais evoluídos, entre os quais se costuma localizar a espécie humana, para mediar conflitos de interesses e reduzir as soluções de força. O oposto da política é a solução de força como método de resolução de conflitos. Para sermos rigorosos, mesmo quando prevalece a política, a força também é usada de forma complementar, e onde prevalecem as soluções de força, a política também está presente. Mesmo em cenários de ditadura ou de guerra civil, o uso da força é feito por coalizões de interesses cujas diferenças foram elas próprias mediadas pela política.

Vivemos temos difíceis no Brasil e no mundo de uma forma geral. A crise econômica iniciada em 2008, associada à rápida mudança de padrões produtivos, à globalização e à perda de referencias por parte dos indivíduos, face as transformações em curso, acirram o conflito de interesses e colocam sob tensão os sistemas políticos e suas capacidades de mediar diferenças entre classes sociais e intraclasses sociais. Neste cenário, cresce a tentação da rejeição à política. Proliferam pelo planeta candidatos e projetos políticos baseados na negação da política e que, por definição, são eles próprios arautos das soluções de força. Ganham apoio de pessoas que acreditam que as soluções de força arbitrarão os conflitos a favor dos seus interesses. A história não costuma dar razão a esse otimismo.

No Brasil, agravado pelo desvendamento da cornucópia de corrupção que financiava os grandes partidos, a antipolítica cresce na defesa de soluções autoritárias. Isto vai da crença irracional de que o super empoderamento do judiciário “saneará” o país ao florescimento de candidatos que basearam sua campanha no descolamento da sua imagem da “politica”. Empresários, pastores, dirigentes esportivos, todos buscando se apresentar como outra coisa que não aquilo que de fato são: representantes de interesses políticos que, até por não se assumirem como tal , são potencialmente mais danosos para a maioria.

Debates legítimos, que em outra circunstância seriam travados pelo seu real valor de face, como o recente aumento de 26% do salário dos vereadores de São Paulo, correspondente a 4 anos onde a inflação acumulada foi de 34%, onde há bons e válidos argumentos, tanto para os que defendem o aumento, afinal 18 mil reais para um vereador que lida com as responsabilidades do 3° maior orçamento do país não é nenhum absurdo, como para os que contestam a oportunidade do mesmo, já que pelo país afora milhares de funcionários públicos estão sem receber salário e outros tantos estão sem qualquer reajuste, são travados de tacape na mão revelando o crescimento da rejeição à política.

Circulam pela internet petições visando acabar com salários de deputados, senadores e vereadores, por vezes repercutidos por pessoas que devem o seu direito à representação exatamente ao assalariamento destas funções. Afinal, quando o direito de voto era restrito às oligarquias proprietárias ou à nobreza, isso era desnecessário. Foi com o alargamento do direito de voto e a ampliação dos parlamentos à representação das classes médias e das classes trabalhadoras, que se apresentou a necessidade da remuneração das funções de representação política.

Nesta mesma diapasão, também proliferam pela internet torcidas a favor da prisão deste ou daquele “político”, normalmente restrito aos “adversários”. Confesso minha estupefação face a esse comportamento de pessoas que se perguntadas professarão juras de amor à democracia. Eu não torço pela prisão de ninguém em particular, mas torço para que a justiça se faça em relação a todos por igual, garantidos o amplo direito de defesa e a presunção da inocência.

A qualidade da representação política está diretamente ligada à qualidade do voto do cidadão. Não tenho motivos para me arrepender dos votos que dei na última década. Os que escolhi para me representar, me representam. Sugiro que todos façam esse balanço antes de se somarem à retorica da antipolítica, porque, em geral, essa retórica se baseia na negação da legitimidade da representação dos outros, nunca da sua própria.

Me parece que, do ponto de vista civilizacional, não deveríamos retroagir a patamares inferiores aos dos chimpanzés.

BREVE RESUMO DA HISTÓRIA DO BRASIL PELA ÓTICA DO MOVIMENTO ESCOLA SEM PARTIDO

Por volta do ano de 1500, disputando uma regata no Atlântico Sul, o marinheiro português Pedro Alvares Cabral chegou às praias da Bahia. Encantado com o que viu ao voltar para a sua terra, fez uma intensa campanha de marketing sobre as terras encontradas, até que cerca de 30 anos depois , empreendedores portugueses resolveram montar seus negócios por aqui.

Um dos negócios que mais prosperou foi a plantação de cana de açúcar. A expansão da oferta de empregos incentivou muito a imigração africana para o Brasil, tornando este contingente de trabalhadores fundamental para o crescente florescimento econômico do país. Na última década do século XVII , em função de conflitos laborais, Zumbi dos Palmares liderou um grupo de trabalhadores imigrantes e , rompendo unilateralmente o seu contrato de trabalho, se estabelece na Serra da Barriga em Alagoas.

Em 1808, a família real portuguesa resolve passar uma temporada veraneando nos trópicos e se muda para o Rio de Janeiro. Com a morte da rainha D. Maria, seu filho D. João assume o trono. Porém, em 1821, com saudades da sua terra natal, D. João retorna a Portugal, deixando seu filho mais velho, D.Pedro I, no Brasil. Conflitos geracionais – D.Pedro I sempre tinha sido um menino rebelde – levam a que este resolva em 1822 assumir plenamente o governo do Brasil, criando um conflito familiar com seu pai e posteriormente com seu irmão.

Foi sucedido por seu filho D.Pedro II, homem muito ilustrado e com gosto pelas viagens. D.Pedro II, em 1889, resolve se mudar definitivamente para Paris, onde vem a morrer meses depois, deixando o governo do Brasil com seu velho amigo, o Marechal Deodoro.

Na próxima aula, contaremos a história do século XX.