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O DOMÍNIO DO FATO

O que faz com que a PM, em retaliação à morte de um soldado em troca de tiros com traficantes, se sinta à vontade para voltar à Rocinha e fuzilar 10 jovens em um baile funk?

O que faz com que a mílicia em Maricá fuzile 5 jovens com o intuito de amedrontar os moradores de um conjunto residencial para lhes extorquir taxas de proteção?

O que faz com que uma vereadora da esquerda seja executada com 9 tiros numa rua da cidade?

O que faz com que o ex-presidente Lula tenha seu ônibus alvejado à bala por manifestantes da extrema direita?

A desfaçatez e a sensação de normalidade com que estes facínoras estão agindo é de responsabilidade direta dos que destilam ódio pela mídia e redes sociais, dos que abertamente advogam soluções de força para todos os tipos de problema.

Os criminosos não são só os executores diretos dos crimes, mas os seus instigadores. E estes todos os conhecemos, entre eles está um candidato à Presidência da República.

A RETOMADA DA ECONOMIA PELA PIPOCA

Acabei de ver no programa Gnews Economia o economista José Márcio Camargo dizer que o aumento do trabalho informal é a prova da retomada da economia. Segundo ele, dando como exemplo o vendedor de pipoca na esquina, o fato de mais gente estar “vendendo pipoca” é sinal que a demanda por pipoca aumentou. “Se a demanda não existisse, o vendedor de pipoca não sairia de casa para vender pipoca”. Logo , isso seria um sintoma de que a economia esta reagindo. Por essa lógica, como diz ironicamente meu amigo Leonardo Guimarães, “há também mais pedintes na rua. Sinal que a economia está voltando a crescer, porque há, obviamente, um aumento na oferta de esmolas”.

É inacreditável que a esta altura da vida portadores de diploma universitário reproduzam tal platitude impunemente. No mundo maravilhoso de José Márcio Camargo, o vendedor de pipoca da esquina tem a opção de avaliar pela manhã os indicadores econômicos, receber do seu consultor um relatório sobre o estado da demanda por pipoca e, então, decidir se vai para a esquina com seu carrinho ou se, por falta de demanda, marca com seus amigos uma partida de golfe.

Para o referido economista, essa opção é determinada por condicionantes apenas ligadas à avaliação racional do tamanho do mercado. Variáveis como a absoluta falta de alternativa para ter alguma renda ou o desespero do desemprego, que faz com que seja melhor dividir um mercado de pipoca do mesmo tamanho com outros vendedores já instalados na praça , resultando daí menor renda para cada um deles, já que mais ofertantes disputarão uma mesma demanda do produto, são desconsiderados.

Comparar as decisões de grandes corporações que ao entrarem em um mercado o fazem a partir de avaliações de resultado, de tamanho potencial de sua inserção no mercado (market share), com as decisões individuais de um pai de família desempregado tangido entre as opções de não fazer nada e não ter acesso a qualquer renda, ou fazer qualquer coisa que lhe dê alguma renda, mesmo que insuficiente, é desonestidade intelectual.

O crescimento do trabalho “por conta própria” não espelha retomada da economia nem ampliação da demanda, mas a divisão do mesmo mercado por mais ofertantes de serviços, com redução de renda per capita para todos. Reflete o desespero dos que já esgotaram a sua capacidade de esperar um emprego formal e foram obrigados a fazer qualquer coisa para acessar qualquer renda possível. No mundo real, é assim.

Imagino o desespero do meu amigo Adhemar Mineiro, economista do DIEESE também entrevistado , por não ter mais tempo de responder ao José Márcio Camargo, visto que esta platitude foi a última fala do programa.

Deve ter lhe estragado a Semana Santa.

A CANDIDATURA BOULOS E O LUGAR DE FALA DO PSOL

Milito no PSOL desde a sua fundação e acompanhei todos os processos eleitorais a partir de 2006 que disputamos.Construção difícil, na oposição de esquerda a governos socialmente identificados como de esquerda.Em geral disputamos sem alianças ou com alianças partidárias restritas.Desde 2006 que dizíamos que nossa aliança não era para somar tempos de TV ,mas com os movimentos sociais e suas pautas.Sempre defendi que pautas de movimentos não são programa ,mas que programas devem dialogar com pautas de movimentos.

Curiosamente sempre pensei que fosse consenso no PSOL a idéia de buscar alianças com movimentos sociais.É fato que em todas as ocasiões citadas os movimentos entraram dando suporte e apoio a candidaturas orgânicas do PSOL.

O PSOL corretamente sempre buscou dialogo e apoio de intelectuais e artistas sem vinculo partidário, o que também nunca foi contestado. Mas me causa espanto ver que o apoio de Caetano e Paula Lavigne a Boulos vem sendo apresentado como demérito.É fato que eles não tiveram o protagonismo que lhes foi atribuído em matérias da grande imprensa e que isso causou agastamentos, mas é inegável que tiveram e têm um papel a cumprir e que esse papel não pode ser apenas o de garantir fundo musical aos nossos comícios.

Hoje no debate partidário vejo com espanto que setores que sempre incensaram o papel dos movimentos sociais reivindicam para o PSOL o lugar de fala na sua versão excludente com declarações do tipo “ ele nem é do PSOL”, “a candidatura dele está sendo imposta de fora para dentro”, “temos bons nomes do PSOL, porque buscar alguém que nem é filiado”. Com relação a Caetano e Paula Lavigne bem como a outros artistas e intelectuais, a retórica é também de silenciamento.

Com relação ao lançamento publico da pré candidatura de Guilherme Boulos em ato organizado por movimentos sociais, a retórica da defesa do lugar de fala do PSOL atingiu o ápice. “Assembléia odara”, “atropelo a fóruns partidários”, foram vários os questionamentos dos defensores do “lugar de fala do PSOL” na sua interpretação excludente.

Não estou entre aqueles que relativizam ou menosprezam a política partidária. Toda a minha vida militei em partido político, que considero o espaço adequado para a construção de sínteses políticas e programas gerais capazes de organizarem a luta política. E, sim, esse é o meu lugar de fala, para usar uma expressão que não gosto exatamente pela sua apropriação por setores que buscam excluir os outros do debate.

A novidade de hoje é que os movimentos sociais não estão entrando como caudatários de um candidato orgânico do PSOL, mas com o protagonismo maior da indicação de Guilherme Boulos , principal liderança do MTST , como candidato presidencial. O problema é que artistas não se reduzem a compor o fundo musical e a declarar os costumeiros apoios a candidatos da esquerda mas buscam ser ouvidos e terem seu espaço.

O PSOL fará sua Conferencia Eleitoral no próximo sábado. Analisará entre opções de respeitados quadros orgânicos do partido e de um candidato que aglutina enorme apoio de movimentos sociais , com evidente maior capacidade de levar a nossa mensagem mais longe, sem vínculos orgânicos com o PSOL, cuja filiação é meramente cartorial para cumprir exigências legais. E que é a melhor opção.

Defendo que continuemos fazendo o debate programático, aberto pela Plataforma Vamos, também sem protagonismos excludentes.
Na enorme crise das representações políticas, fenômeno que ocorre á escala mundial, não compartilhar protagonismo com setores não organizados em partidos políticos é , acreditem, não ter entendido nada das “jornadas de junho” nem dos movimentos que assolaram a Europa após a crise de 2008 e fazer a opção preferencial por dialogar com o passado e não com o futuro.