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O QUE É A OPERAÇÃO LAVA JATO?

A Operação Lava Jato incide sobre questões que são reais. A corrupção na Petrobrás aconteceu? Sim. A corrupção no Estado brasileiro aconteceu? Sim. O PT tinha conhecimento disso? Tinha sim. E isso foi usado para financiar campanha? Foi sim. Para o PT, para o PMDB, para o PSDB, para o PP, para todos os grandes partidos. Portanto, o problema existiu.

A Operação Lava Jato, no entanto, tem viés político. Ela foi usada para desmoralizar o PT, desmoralizar a Dilma e o Lula, para possibilitar a derrubada do governo. E essa agenda foi coordenada com a maioria parlamentar conservadora, com Aécio Neves, com o PSDB, que desde 2014 não tinham aceitado o resultado eleitoral. E esse objetivo político foi feito de comum acordo.

No entanto, esse comum acordo era para fazer esse movimento. Não significa que a agenda política de todos eles seja a mesma. Nesse processo, judiciário, procuradores, polícia federal, se empoderaram muito, ganharam muito poder. E têm uma agenda própria, que não necessariamente é a agenda do Temer ou a agenda do Aécio Neves. Tanto que a Lava Jato continua. E continua criando problemas para o próprio governo. Metade do governo Temer está listada em delações. Todos os caciques do PSDB também estão. Há uma desmoralização da representação política tradicional. E há uma série de atores políticos disputando esses escombros. Entre eles procuradores de justiça, juízes etc, que passam crescentemente a ter um papel político.

É importante olhar isso. Porque às vezes a gente vê esse debate nas redes sociais a branco e preto. Como se a Lava Jato fosse um movimento da direita para derrubar o PT e ponto. Foi isso também, mas não apenas isso. Ou do outro lado, “Sérgio Moro está passando o Brasil a limpo!”. Não, não está. E Deus me livre que ele faça isso, porque é um fascista. Ele e os procuradores são uns fascistas.

(…) Esse processo é complexo por quê? Porque o empoderamento desses setores da procuradoria, do judiciário, também criou problema para a atual base de sustentação do governo Temer. E isso nos coloca algumas possibilidades que não podemos desprezar. Primeiro, essa instabilidade política pode nos ajudar a barrar a reforma da previdência. Porque o golpe ocorre, essa grande aliança que junta procuradoria, Lava Jato, Moro, cumplicidade do STF, maioria parlamentar, o grande empresariado, com uma série de pactos entre eles, como o Romero Jucá definiu muito bem: “Lava Jato tem que parar com isso. Delimita onde está e não faz mais nada. Vamos parar isso. Um grande acordo com o STF, com todo mundo, para delimitar onde está”. Ou seja, quem já dançou, dançou, e daqui pra frente ninguém mais dança. Isso era o que o golpe ofereceu para aquela maioria parlamentar que votou pelo impeachment. O problema é que eles não têm essa mercadoria para entregar. Porque essa agenda não é compartilhada com os procuradores, não é compartilhada com o Janot, não é compartilhada com o Moro, não é compartilhada com a polícia federal.

(…) Essa conflagração está muito clara. Vejam a situação do Renan Calheiros. É de dar pena… Renan Calheiros é senador da república. Tem direito a foro privilegiado. Responde acho que a 11 processos. Já ganhou música no Fantástico várias vezes. Ele tem foro privilegiado porque é senador, mas o mandato acaba agora. E ele é de Alagoas e o filho é governador. Pela lei das inelegibilidades, por ser pai do governador ele não pode ser candidato a nenhum cargo político a não ser aquele que ele já ocupa. Só pode ser candidato ao senado. Não pode se esconder, por exemplo, como deputado federal. E tem um problema. Ele é senador em Alagoas, está mais sujo que pau de galinheiro, e é do Nordeste onde o governo do golpe é mais impopular do que na média nacional. A situação dele é muito difícil. Ele vai votar contra a reforma previdenciária? Ele vai votar a favor de que o benefício de prestação continuada para maiores de 65 anos sem renda passe para 70 anos e seja desvinculado do salário mínimo? Não vai fazer isso.

Há uma série de parlamentares que precisam se reeleger para fugir da polícia. É isso. Não se trata de se reeleger para manter o cargo e o prestígio. Para boa parte da bancada parlamentar do Congresso, a reeleição é fugir da polícia. É para manter o foro privilegiado. Para esses caras a reeleição é uma questão de estar preso ou não estar preso. Porque no STF, bom…, tem lá o Gilmar Mendes, agora tem o Alexandre Moraes, um pessoal que vai dar um jeito de empurrar isso para frente. Mas se cair em Curitiba a agenda deles é outra. Então, esses caras são pressionáveis.

Trecho da fala realizada no Encontro de Formação Política em Três Rios (RJ), no dia 25 de março.

 

A CARNE FRACA E O MIOLO MOLE

A deflagração da Operação Carne Fraca na sexta feira abriu um debate na esquerda que por vezes beira o surrealismo. De um lado teorias conspiratórias denunciando um complô imperialista para desacreditar um setor importante da economia brasileira que vem se internacionalizando nos últimos anos e que emprega milhares de trabalhadores em toda a cadeia produtiva. A quem interessaria, depois de desmoralizada a indústria de construção civil pesada, desmoralizar agora o setor agroexportador da carne? a pergunta já deixa subentendido um sujeito oculto, caviloso e mal intencionado, que teria incentivado a polícia federal a dar ares dramáticos a um pequeno incidente em alguns frigoríficos de menor importância.

Essa versão tem dificuldades em ser compatibilizada com áudios estarrecedores como por exemplo entre Carlos Augusto Goetzke e o agente de inspeção federal Carlos Cesar sobre o destino de 18 toneladas de carne de peru contaminada com salmonela onde tricotavam sobre as opções de fabricar mortadela ou ração com o lote. Em outro dialogo edificante sobre uma peça de presunto podre um tal de Normelio e um certo Idair travaram o seguinte colóquio: “Normélio: Tu viu aquele presunto que subiu ali ou não chegou a ver?
Idair: Ah, eu não vi. Cheguei lá, mas o Ney falou que tá mais ou menos . Não tá tão ruim.
Normélio: Não. Não tá. Fizemos um processo, até agora eu não entendo, cara, o que é que deu naquilo ali. Pra usar ele, pode usar sossegado. Não tem cheiro de azedo. Nada, nada, nada.”

Em outro dialogo elucidativo um diretor da BRF falando com um interlocutor reclamava de 4 containers de carne contaminada também com salmonela barrados no porto de Genova e sugeria passar a exportar via Holanda. Afinal o problema não era a salmonela mas a vigilância sanitária Italiana.

De outro lado vejo discursos praticamente comemorando a desmoralização de empresas nacionais do setor como se a derrocada do latifúndio estivesse ás portas e fosse a decorrência natural da falência do setor agroexportador de proteína animal. Numa absurda inversão de logica apresentam como argumento o fato de mais de 60% do faturamento da BRF ser no exterior como comprovação de que não é mais uma empresa nacional quando na verdade se trata de uma multinacional brasileira. Se as grandes empresas brasileiras do setor quebrarem não serão substituídas por kolkhoses ou cooperativas de produtores de carnes orgânicas ,mas por multinacionais estrangeiras que operarão na mesma logica mas invertendo o fluxo da mais valia do sul para o norte.

Empresas de grande porte deste ou de qualquer outro setor são para além de propriedades dos seus acionistas, patrimônio do povo brasileiro. A sua desagregação não ajudará em nada os bípedes viventes nestas latitudes. Articulam cadeias produtivas com milhões de trabalhadores diretos e indiretos, com pequenos produtores rurais associados, geração de emprego e renda disseminados pelo interior e demanda para a indústria transformadora de equipamentos agrícolas. E empresas não são criminosas, criminosos são os seus dirigentes envolvidos em trapaças, são os agentes públicos subornados, são os políticos que os nomeiam para vender facilidades na fiscalização.

A operação da Polícia Federal foi correta , quem tiver duvidas consulte as transcrições dos áudios das escutas telefônicas. Se continuar com duvidas sugiro um lanchinho de salmonela para clarear as ideias.

Os executivos das empresas devem ser punidos criminalmente, os acionistas das empresas multados exemplarmente – e atenção, são os acionistas e não o caixa das empresas que devem ser chamados a pagar a conta que precisa ser salgada- e se não o fizerem em efetivo que o façam transferindo ações para o BNDES. Os parlamentares responsáveis pelas indicações dos superintendentes de fiscalização envolvidos na esbornia devem ser responsabilizados criminalmente, e o Ministro da Agricultura responsável pelas nomeações no mínimo rigorosamente investigado. As empresas devem ser preservadas.

Na sequencia da Operação Carne Fraca urge que uma junta psiquiátrica lance nas redes sociais a Operação Miolo Mole para tratar de tanta sandice que vem sendo escrita sobre o assunto.