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CARTA À TIA DO ZAP

Minha querida tia
Espero que a Sra esteja bem e o tio do pavê também. Soube que a Sra está preocupada com as suas contas. É natural. A empresa onde o tio trabalha está paralisada e o dono fala em reduzir em 70% o salário dele. E os seus alunos de piano paralisaram as aulas. Aquele dinheirinho para os seus botões não está entrando.
Sei que a Sra sempre cuidou das finanças da casa com muito cuidado. Foi assim que a sra e o tio puderam comprar aquele apartamentinho em Maricá para passarem os finais de semana. Sempre mantendo o orçamento controlado para ter uma sobra para a poupança. Foi muito prudente.
Mas estranhei aquele seu áudio no grupo da família dizendo que o governo federal não pode dar os 600 reais para os autônomos e informais nem ajudar os estados e municípios neste período de crise porque isso ia criar uma dívida enorme para o Brasil.
Querida tia, deixe eu tentar lhe explicar que o seu orçamento não tem nada a ver com o da União. A Sra e o tio precisam de reais para pagarem as suas contas e vocês não emitem reais. Por isso precisam receber reais a troco do seu trabalho. Já imaginou se pudessem emitir reais? Não precisariam se preocupar com dívidas não é? Por favor não conte isso ao tio porque ele pode achar que a ideia é boa e não é não. Vai dar errado da pior forma possível. Sempre achei perigoso ele ter aquela impressora a cores em casa .
Já a União emite reais e dessa forma paga as suas despesas. Logo a dívida da União não é igual a sua . Sempre pode ser paga e não é verdade que seja a Sra e o tio que terão que a pagar com seus impostos. Eu sei que a Sra viu aquele mapa em forma de pizza que dizia que o dinheiro dos seus impostos está sendo usado para pagar as dívidas da União e é por isso que estão sem dinheiro para a saúde. Mas não acredite nisso. A dívida da União nunca é efetivamente paga. Ela é sempre trocada por nova dívida
É por isso que a União pode gastar agora os 600 reais com os informais e com a ajuda aos Estados e Municípios sem que isso atrapalhe a sua vida. Ao contrário isso vai ajudar a Sra e o tio. Sei que 2 dos seus alunos são funcionários públicos do Estado. Já imaginou se o Estado não puder pagar os salários deles? Eles não voltarão às suas aulas. E o tio? A Sra acha mesmo que a sapataria onde ele trabalha vai continuar vendendo sapatos se os funcionários públicos do Estado e do município deixarem de receber o salário? E a prima Leonor que tem aquele mercadinho com o idiota do marido dela lá em Vilar dos Teles , a Sra acha que vão conseguir vender alguma coisa sem o auxílio dos 600 reais para esse mundareu de gente que ficou sem renda? Olhe que se der errado eles voltam a morar com a Sra e o tio .
Então tia, pense direito. E se precisar de ajuda para explicar isso pro tio não me chame. Eu realmente acho que ele nunca vai entender

O PALÁCIO GUANABARA E A GUILHOTINA

Vi hoje em um dos telejornais que o STJ vai julgar uma causa de 123 anos em que os descendentes da família imperial brasileira reivindicam a propriedade do Palácio Guanabara.

Quando a Princesa Isabel se casou com o Conde D’Eu ganhou do Estado brasileiro 300 contos de reis de dote com os quais mandou edificar o dito Palácio. Com a proclamação da República, o imóvel foi desapropriado e revertido ao Estado que, afinal, foi quem proveu os recursos para a sua construção.

É inacreditável que tal processo tramite na justiça, como é inacreditável que uma chusma de sanguessugas dessa família ainda recebam laudemios dos moradores de Petrópolis.

Não me consta que descendentes de Luis Capeto , vulgo Luis XVI, reivindiquem a propriedade de Versailes ou de qualquer outro palácio que tenha estado às ordens da monarquia francesa.

Sou forçado a considerar que faltou guilhotina na Proclamação da República.

A REFORMA TRABALHISTA E O CÓDIGO DE HAMURABI

Um dos itens da reforma trabalhista aprovada pelo Congresso que mais tem chocado a parcela civilizada da sociedade brasileira é a indenização por danos morais. Segundo a nova versão, a indenização em caso de ofensa moral leve deverá ser de até 3 salários da vítima da injúria. Se a vítima receber R$1.000,00 de salário, o teto da indenização será de R$3.000,00, porém se a vítima tiver um salário de R$20.000,00 o teto será de R$60.000,00.

Da mesma forma se a ofensa for grave, o teto deverá ser de 20 vezes o salário da vítima. E em caso de ofensa gravíssima, o teto será de 50 salários. Perante a perplexidade generalizada com a precificação de ofensas morais de acordo com o prestígio social e renda da vítima, me bateu a curiosidade de pesquisar qual a fonte inspiradora dessa reforma.

Não foi fácil, meses de investigação e finalmente achei. O Código de Hamurabi, Rei da Babilônia , previa nos seus julgamentos 196 a 199 o seguinte:

196 – Se um homem superior arrancar um olho de outro homem superior , deverá ter seu olho arrancado.

197 – Se ele quebrar o osso de outro homem superior, deverá ter seu osso quebrado.

198 – Se ele arrancar um olho de um homem comum, ou quebrar um osso de um homem comum, deverá pagar 60 siclos de prata.

199 – Se ele arrancar um olho de um escravo de um homem superior, ou quebrar um osso de um escravo de homem superior, deverá pagar a metade do valor do escravo em prata.

Já os seus julgamentos de 209 a 214 diz o seguinte:

209 – Se um homem superior bater numa mulher superior e a fizer abortar, deverá pagar 10 siclos de prata.

210 – Se essa mulher morrer, a filha dele deverá ser morta.

211 – Se ele bater numa mulher comum e a fizer abortar, deverá pagar 5 siclos de prata.

212 – Se essa mulher morrer, ele deverá pagar 30 siclos de prata.

213 – Se ele bater numa escrava e a fizer abortar, deverá pagar 2 siclos de prata.

214 – Se essa escrava morrer, ele deverá pagar 20 siclos de prata.

Não podemos mais alegar a ausência de jurisprudência na nova legislação. O Congresso Brasileiro buscou sua inspiração no Código de Hamurabi para reformar a legislação trabalhista.

Modernidade é isso aí!