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A PESADA HERANÇA DO PENSAMENTO RELIGIOSO NA ESQUERDA

Algo que sempre incomodou desde o inicio da minha militância, na virada dos anos 70 para os 80, foi a recorrente tendência de setores da esquerda de apresentarem explicações morais para todas as derrotas ou insuficiências. O MEC ( antigo Ministério da Educação e Cultura) aumentou os preços dos bandejões das universidades? culpa da direção da UNE que traiu a luta dos estudantes . Collor venceu a eleição de 1989? culpa da Articulação ( tendência majoritária do PT á época da qual fazia parte Lula) que ficou com medo de vencer e orientou Lula a perder o debate final ( sim meninos, eu ouvi isso).

Fracassou a greve geral de 30 de junho? Culpa das direções das grandes centrais que desmobilizaram as classes trabalhadoras ( que “obviamente” queriam fazer a greve).Temer tem apenas 5% de aprovação e mesmo assim não há manifestações de massa pela sua derrubada? culpa de setores da esquerda que na verdade não querem derrubar o Temer porque …… .

O que me impressiona é o total protagonismo que se atribui nestes “raciocínios” ás direções e aos aparatos ( partidos, sindicatos, centrais), e a absoluta falta de protagonismo e iniciativa que se atribui ao povo.

Obviamente que direções partidárias e sindicais incidem sobre a conjuntura e cumprem um papel relevante, que linhas politicas distintas fazem diferença em determinadas conjunturas, mas a busca permanente por responsáveis morais, traidores presumidos e linhas politicas equivocadas como responsáveis por todas as derrotas , busca apresentar como contraste a linha justa, a verdade revelada, o programa redentor, da qual a corrente A, B ou C é portadora.

O maior problema desse comportamento típico da Ordem dos Templários, ou da Irmandade de Cavaleiros de Jedi , é que a analise das condições objetivas da realidade passa sempre para segundo plano. Na Greve Geral de 28 de abril o clima nas ruas, nas redes sociais, nas assembleias, deixava claro que algo grande iria acontecer. Havia a expectativa de que a mobilização poderia travar as reformas trabalhista e previdenciária, e isso foi essencial para o sucesso da greve. Em junho, e isso era evidente nas ruas e nas redes , a sensação dominante era que a reforma trabalhista já estava virtualmente aprovada e a previdenciária não avançaria por conta da fragilização do governo Temer. Teve sim o recuo da Força Sindical e da UGT, mas mesmo que não tivesse esse recuo ,30 de junho seria uma pálida sombra de 28 de abril.

É preciso entender que mobilizações de massa ocorrem com pautas simples, claras, com a percepção da sua viabilidade, e com a expectativa que a vitória significará ganhos efetivos e imediatos. Vale para a direita e para a esquerda. As classes medias conservadoras que foram á rua pelo impeachment tinham uma ideia clara que derrubada Dilma os seus problemas estariam resolvidos; acabaria a corrupção, acabaria a crise econômica, acabaria a sua percepção de perda de status social. Evidentemente nada disso aconteceu e os movimentos, MBL, Vem Pra Rua , ficam pateticamente chamando atos que sabidamente não mobilizarão ninguém. Este último está desde junho chamando um ato para 27 de agosto destinado ao fracasso( provavelmente será adiado sob um pretexto qualquer).

A dificuldade do movimento Fora Temer em promover mobilizações massivas está ligada á percepção que a sua derrubada não mudará grandes coisas. Não passará a emenda por eleições diretas, o substituto será Rodrigo Maia, Henrique Meirelles já avisou que fica, a crise econômica e o desemprego ficam também.

Mas obviamente para os Savonarolas de plantão é mais conveniente responsabilizar direções sindicais e partidárias acusando-as do delito moral da traição.

O 6º CONGRESSO DO PSOL ENTRE A REALIDADE E A FANTASIA

Esta semana começaram a circular as primeiras teses para o Congresso do PSOL e as primeiras polêmicas surgem. Tudo aponta para que a principal polarização seja centrada sobre a plataforma eleitoral para as eleições de 2018.

De um lado aqueles que se recusam a encarar os desafios reais que estão colocados e agem como se estivessem elaborando as teses para a tomada do Palácio do Jaburu, na ausência de um palácio de inverno para dar contornos épicos mais simbólicos. Dar respostas aos problemas objetivos parece desvalorizado demais para a sua retorica revolucionaria.

Afinal dizer o que fazer com o banco central, com a taxa de juros, como controlar a inflação, como mudar a estrutura tributaria, como viabilizar a retomada dos gastos e investimentos da União, que passa pela revogação da Emenda Constitucional 95 do teto dos gastos (vai precisar de 60% do Congresso para mudar), como mudar a matriz energética sem mergulhar a curto prazo o Brasil no apagão, como mudar o perfil agrário brasileiro sem desestruturar de imediato cadeias produtivas que geram mais de 6 milhões de empregos, como reverter o processo de desindustrialização em curso, como lidar com o grande capital privado, como reverter um desemprego de 14 milhões, dá mais trabalho e parece pouco charmoso para quem é portador de nobres e redentores propósitos revolucionários.

No entanto, qualquer governo de esquerda que por ventura venha a assumir em 2019 terá como principal e imediata tarefa tirar o Brasil da recessão/estagnação em que estamos mergulhados. Sem dar conta disto não terá base social para alterar a correlação de forças e empreender tarefas de maior vulto como mudar o sistema tributário, desindexar as rendas do capital e do patrimônio( alugueis, tarifas de serviços concessionados) , eliminar as transferências regressivas de renda via taxa de juros sobre a divida publica, reverter a reforma trabalhista, recuperar a renda e o emprego, consolidar apoio e engajamento das classes trabalhadoras para continuar avançando.

Curiosamente este conjunto de medidas de difícil viabilização no seu todo, mas de forma alguma impossíveis, são taxadas de “melhorísmo” pelos que na pratica defendem um estelionato eleitoral prometendo programas maximalistas com nenhuma possibilidade de serem sequer tentados fora de uma conjuntura revolucionária. Esta é a grande polarização do Congresso do PSOL.

Provavelmente teremos também aqueles que neste debate subirão no muro, que é lugar quente e ensolarado, e lhes permitirá não precisar brigar com ninguém.

Neste Congresso o PSOL passará pelo seu teste de maioridade politica. Se será um partido vocacionado para disputar governos e poder, ou apenas uma grife parlamentar para a classe media progressista chamar de sua e os aparatos das suas correntes internas continuarem cooptando uma pequena parcela da juventude encantada com o Encouraçado Potenkim.

POR UM PARTIDO DE MASSAS

“Para que possamos constituir uma alternativa de poder nesse país precisamos de um partido de massas. Um partido que faça a disputa de valores. A disputa ideológica. A disputa da solidariedade contra o individualismo. A disputa da sustentabilidade contra o consumismo. A disputa da igualdade contra a sociedade hierarquizada de classes. A disputa da liberdade contra o proibicionismo.

Essa é uma disputa no cotidiano. Uma disputa de massas. Uma disputa de corações e mentes em cada esquina desse país. Em cada rua. Em cada luta. Em cada local de trabalho. Em cada favela. Em cada local de moradia.

Essa luta pode formar um nível de consciência de massa que nos possibilite, a nós e ao conjunto das organizações de esquerda, nos constituirmos mais adiante como alternativa de poder.”

Trecho da defesa da tese “Unidade Socialista por um Psol popular” realizada no 5º Congresso do Psol, em 6 de novembro de 2015.