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A ALIANÇA DOS LUDISTAS PÓS-MODERNOS COM OS ECONOMISTAS LIBERAIS

Um dos debates mais atravessados e confusos que se estabeleceu no Brasil é sobre o papel do BNDES e das grandes empresas de construção civil pesada.

O Brasil desenvolveu a partir principalmente da construção de Brasília uma indústria de construção civil pesada e criou em 1952 o BNDES, banco de fomento focado em financiamento de investimentos de grande porte e de maturação a longo prazo. Uma das razões para o Brasil ter essa indústria é exatamente ter uma agencia de fomento com capacidade de arcar com financiamentos de grandes projetos. Obras de infraestrutura como portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, metros, barragens e pontes não são feitas pelo Tonhão da Construção, mas por empresas de grande porte, volume de capital, capacidades técnicas de elaboração de projetos e execução de obras.

Estas empresas precisam ter escala e continuidade de obras para se viabilizarem. Manter uma estrutura complexa como esta implica em não ter grandes descontinuidades de projetos em execução. Por esta razão, quando o Brasil entrou em crise nos anos 80 e as grandes obras de infraestrutura iniciadas nos anos 70 se encerraram, o caminho da indústria foi a sua internacionalização. As empresas que fracassaram neste movimento quebraram. Este processo de internacionalização teve corretamente o apoio do BNDES.

O caminho da internacionalização foi a partir da disputa de licitações de obras no terceiro mundo, particularmente América do Sul, África e Oriente Médio, em geral concorrendo com empreiteiras Europeias, Norte Americanas, Coreanas e Chinesas. Países que têm sua própria indústria têm mecanismos de reserva de mercado que impede ou dificulta muito a entrada de empresas estrangeiras no mercado, e por isso a disputa de licitações se concentra em países Africanos, Latinoamericanos e Árabes. Um dos requisitos para a disputa destas obras está em a empresa apresentar projeto, preço e financiamento. Empreiteiras Coreanas têm financiamento de bancos Coreanos, empreiteiras Chinesas têm financiamento de bancos Chineses e empreiteiras Europeias têm, financiamento de bancos Europeus. Empreiteiras brasileiras têm financiamento do BNDES.Trata-se não apenas de viabilizar estas empresas como também de financiar exportação de serviços e materiais. Só o porto de Mariel viabilizou mais de 20 mil empregos diretos no Brasil.

Economistas liberais defendem abertamente reduzir até á irrelevância o papel do BNDES e dos demais bancos públicos ( Arminio Fraga em reunião com banqueiros durante a campanha de Aécio em 2014) alegando que os bancos privados podem atender essa demanda. O governo Temer avança nesse sentido acabando com a TJLP, taxa de juros inferior á Selic e necessária para manter a competitividade das nossas empresas a nível internacional. Com as taxas de juro pornográficas que vigoram no Brasil , imaginar que seria possível vencer licitações internacionais contra empreiteiras estrangeiras financiadas a taxas de juro muito mais baixas é o tipo de ilusão que só cabe na cabeça de quem na verdade está pouco preocupado se o Brasil preservará sua indústria de construção civil pesada. Para os liberais, pouco importa se quem constrói plataformas para a Petrobrás , ou rodovias no Mato Grosso é uma empreiteira brasileira ou coreana.

Curiosamente há também ludistas pós modernos egressos da esquerda que fazem coro a esse discurso criticando o apoio do BNDES ás grandes empresas de construção, ou á J & S, dizendo que é absurdo o BNDES financiar o grande capital ( no século 19 o movimento ludista na Inglaterra defendia a destruição das maquinas porque elas eliminavam empregos). Aparentemente confundem o combate ao Capital enquanto propriedade privada com a sua destruição física. Algumas aulas de marxismo parecem ter sido esquecidas , porque a inexorável tendência a concentração e centralização de capital tem neste setor um dos seus mais completos exemplos. Como disse antes, o Tonhão da Construção não pega a empreitada de fazer a ponte Rio Niteroi. Por definição são obras de grandes empresas e o debate no mundo real é se serão brasileiras ou estrangeiras. Isso tem consequências na geração de empregos de qualidade, na preservação do mercado interno e na disputa de mercados internacionais essenciais á preservação destas empresas no longo prazo.

Quem acompanhou a construção da CSA da Thyssen Krupp no Rio de Janeiro por empreiteira chinesa viu que não apenas todo o projeto foi feito na China ( empregos qualificados na Asia) como até cerca de 2000 operários chineses vieram trabalhar no canteiro de obras ( ao abrigo de um acordo que os colocava fora das regras da legislação trabalhista brasileira). Para os liberais , tudo certo porque isso barateou a construção, para os neo ludistas sei lá o que acham. Mas sei que esse será o futuro após a destruição do BNDES e da indústria brasileira de construção civil pesada.

Uma politica de esquerda deve se orientar pela preservação destas empresas , pela ampliação do peso do poder publico a partir das participações acionarias do BNDES, pela maior fiscalização das suas ações. Pela natureza do oficio, em geral grandes obras são demandas do setor publico, este é um dos setores da atividade econômica mais corruptos do mundo. Certamente menos corrupto na Finlandia e mais corrupto em Angola. São corruptoras as empresas brasileiras do setor, as coreanas, as chinesas, as norte americanas e as europeias. A sua propensão á corrupção é diretamente proporcional á fragilidade institucional dos estados que as contratam. Acabar com as empresas brasileiras negando-lhes o financiamento do BNDES apenas levará a que o espaço seja ocupado por empresas com o mesmo padrão de comportamento, porem estrangeiras, que levarão de imediato as áreas de projeto e a demanda de produção de materiais para fornecedores nos seus países de origem.

O combate á corrupção portanto nada tem que ver com o financiamento á operação destas empresas mas ao reforço das medidas institucionais de controle e á punição de envolvidos em crimes.

MEIRELLES E TEMER JOGARAM FORA A CHAVE

Governo federal corta mais 42 bilhões do orçamento para compensar a queda na arrecadação. Em janeiro, a queda real da arrecadação federal na comparação com 2016 foi de 8%. A queda no imposto de renda das pessoas jurídicas foi de 40%. Sinal da enorme crise econômica em que estamos mergulhados. Quando o governo fala em cortar 42 bi de gastos a notícia deve ser lida como “empresas perdem 42 bi de receita”. Logo, não vão contratar, provavelmente demitirão e mais famílias perderão receita. Em consequência, todos pagarão menos imposto aos municípios, aos estados e…. à União, aumentando o déficit fiscal mais adiante.

Isto ocorre porque na economia o gasto de um agente econômico é a receita do outro. Quando todos cortam gastos, todos perdem receita e a crise se agrava. É nessa espiral recessiva que estamos mergulhados. Raciocinando a grosso modo com 5 agentes econômicos, União, Estados, Municípios, Empresas e Famílias, sem que um destes agentes econômicos aumente seus gastos não será possível que os outros aumentem suas receitas. Destes 5 agentes econômicos, o único que pode expandir seus gastos de forma segura é a União pela sua capacidade de emitir a moeda na qual é denominada a dívida. Pode, portanto, conviver com déficit por largo período sem que corra o risco da insolvência.

A crise recessiva que já dura 2 anos e 9 meses quebrou a arrecadação de Estados e Municipios retirando destes agentes econômicos a capacidade de ampliar investimentos. A queda na atividade econômica reduziu a receita das empresas e aumentou em muito a sua capacidade ociosa, não dando expectativas de que possam retomar investimentos. O aumento do desemprego retirou renda real das famílias, e, portanto, não há expectativas que o seu consumo puxe a retomada.

Face a isto o governo e a sua mídia tentam resolver com base na psicologia. Pela 24ª vez Meirelles anuncia que a recessão acabou, o jornal da Band informa ao distinto publico que um salão de cabeleireiro em Guarulhos contratou 4 manicures e está tudo resolvido. Mas os números, ah os números esses esquerdopatas, insistem em contrariar o marketing. Em janeiro, o consumo caiu 0,7% em relação a dezembro e 7% em relação a janeiro de 2016, mês que por sua vez já registrava forte queda em relação a 2015.

Sem que o governo federal aumente seus gastos e, portanto, no curto prazo o seu déficit, os outros agentes econômicos não aumentarão sua receita, condição para que depois possam por sua vez aumentar seus gastos. O motor de arranque tem que ser o governo federal.

Infelizmente Temer e Meirelles parecem ter jogado fora a chave.

A CARNE FRACA E O MIOLO MOLE

A deflagração da Operação Carne Fraca na sexta feira abriu um debate na esquerda que por vezes beira o surrealismo. De um lado teorias conspiratórias denunciando um complô imperialista para desacreditar um setor importante da economia brasileira que vem se internacionalizando nos últimos anos e que emprega milhares de trabalhadores em toda a cadeia produtiva. A quem interessaria, depois de desmoralizada a indústria de construção civil pesada, desmoralizar agora o setor agroexportador da carne? a pergunta já deixa subentendido um sujeito oculto, caviloso e mal intencionado, que teria incentivado a polícia federal a dar ares dramáticos a um pequeno incidente em alguns frigoríficos de menor importância.

Essa versão tem dificuldades em ser compatibilizada com áudios estarrecedores como por exemplo entre Carlos Augusto Goetzke e o agente de inspeção federal Carlos Cesar sobre o destino de 18 toneladas de carne de peru contaminada com salmonela onde tricotavam sobre as opções de fabricar mortadela ou ração com o lote. Em outro dialogo edificante sobre uma peça de presunto podre um tal de Normelio e um certo Idair travaram o seguinte colóquio: “Normélio: Tu viu aquele presunto que subiu ali ou não chegou a ver?
Idair: Ah, eu não vi. Cheguei lá, mas o Ney falou que tá mais ou menos . Não tá tão ruim.
Normélio: Não. Não tá. Fizemos um processo, até agora eu não entendo, cara, o que é que deu naquilo ali. Pra usar ele, pode usar sossegado. Não tem cheiro de azedo. Nada, nada, nada.”

Em outro dialogo elucidativo um diretor da BRF falando com um interlocutor reclamava de 4 containers de carne contaminada também com salmonela barrados no porto de Genova e sugeria passar a exportar via Holanda. Afinal o problema não era a salmonela mas a vigilância sanitária Italiana.

De outro lado vejo discursos praticamente comemorando a desmoralização de empresas nacionais do setor como se a derrocada do latifúndio estivesse ás portas e fosse a decorrência natural da falência do setor agroexportador de proteína animal. Numa absurda inversão de logica apresentam como argumento o fato de mais de 60% do faturamento da BRF ser no exterior como comprovação de que não é mais uma empresa nacional quando na verdade se trata de uma multinacional brasileira. Se as grandes empresas brasileiras do setor quebrarem não serão substituídas por kolkhoses ou cooperativas de produtores de carnes orgânicas ,mas por multinacionais estrangeiras que operarão na mesma logica mas invertendo o fluxo da mais valia do sul para o norte.

Empresas de grande porte deste ou de qualquer outro setor são para além de propriedades dos seus acionistas, patrimônio do povo brasileiro. A sua desagregação não ajudará em nada os bípedes viventes nestas latitudes. Articulam cadeias produtivas com milhões de trabalhadores diretos e indiretos, com pequenos produtores rurais associados, geração de emprego e renda disseminados pelo interior e demanda para a indústria transformadora de equipamentos agrícolas. E empresas não são criminosas, criminosos são os seus dirigentes envolvidos em trapaças, são os agentes públicos subornados, são os políticos que os nomeiam para vender facilidades na fiscalização.

A operação da Polícia Federal foi correta , quem tiver duvidas consulte as transcrições dos áudios das escutas telefônicas. Se continuar com duvidas sugiro um lanchinho de salmonela para clarear as ideias.

Os executivos das empresas devem ser punidos criminalmente, os acionistas das empresas multados exemplarmente – e atenção, são os acionistas e não o caixa das empresas que devem ser chamados a pagar a conta que precisa ser salgada- e se não o fizerem em efetivo que o façam transferindo ações para o BNDES. Os parlamentares responsáveis pelas indicações dos superintendentes de fiscalização envolvidos na esbornia devem ser responsabilizados criminalmente, e o Ministro da Agricultura responsável pelas nomeações no mínimo rigorosamente investigado. As empresas devem ser preservadas.

Na sequencia da Operação Carne Fraca urge que uma junta psiquiátrica lance nas redes sociais a Operação Miolo Mole para tratar de tanta sandice que vem sendo escrita sobre o assunto.