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IMPEACHMENT, O DESCARTE DOS PEÕES

A figura do impeachment, tal como inscrito na legislação brasileira, por crime de responsabilidade, submetido à interpretação politica de uma maioria parlamentar qualificada, não é um mecanismo de aprimoramento democrático. Desde o impeachment de Collor, passando pelo de Dilma e agora no Rio de Janeiro o processo aberto de impedimento do prefeito Marcelo Crivella demonstram que este mecanismo tem servido á burguesia para que esta se livre de governos que se tornaram disfuncionais aos seus interesses.
A analise da luta institucional entre as forças populares e a burguesia, de 1988 para cá, mostram que é possível para a esquerda vencer eleições para o Executivo, mas que é virtualmente impossível constituir maiorias parlamentares de esquerda. É difícil até mesmo constituir bases parlamentares ideologicamente sólidas superiores ao terço necessário à defesa dos mandatos executivos. A “governabilidade” depende da manutenção de sólido apoio popular e de acordos pragmáticos nos Legislativos, esses voláteis em cenários de crise.

Collor foi deposto com a esquerda fornecendo a mobilização nas ruas e as oligarquias concertando entre si a formação de um novo governo que viabilizasse a estabilização do regime e a vitória eleitoral em 1994. Olhando retrospectivamente, se Collor não tivesse sido derrubado, a coalizão conservadora que o elegeu em 1989 chegaria às eleições presidenciais de 1994 desmoralizada e com enormes dificuldades de apresentar um candidato competitivo contra Lula. Provavelmente não havia para a esquerda outro caminho em 1992, a não ser a derrubada de Collor, pela pressão da base social e pelas dimensões da crise. Mas, com exceção de Brizola que relutou em aderir ao impeachment, nenhum setor da esquerda compreendeu as implicações desta ação. Brizola vinha dos anos 1950 e assistira ás tentativas de se derrubar Vargas, de se impedir a posse de Juscelino, de se bloquear a posse de Jango e, finalmente, ao golpe de 1964. Certamente seu sexto sentido estava ativado para a defesa de mandatos populares contra manobras que os interrompessem. Brizola vinha de longe.

Dilma foi derrubada em 2016, apesar de todas as concessões que fez. Mas, pela natureza da sua base social, não podia entregar tudo que a burguesia queria. Com a crise e consequente perda de popularidade, seu destino estava traçado.

No Rio de Janeiro a movimentação pelo impeachment do prefeito visa arrumar a casa para a construção de uma candidatura do campo conservador em 2020, livre do ônus de defender o colapso administrativo de Crivella. Esse movimento não deve ter a colaboração da esquerda. Não nos cabe ajudar a resolver as crises politicas da burguesia.

Quando escrevo este texto, 19 de maio, começa a circular pela grande imprensa e pelo Congresso a hipótese de derrubada de Bolsonaro. Algo que semanas antes entrava como mera especulação em conversas reservadas passa a ser tratado à luz do dia. Está medianamente claro que Bolsonaro é inepto para fazer avançar com consistência a agenda ultraliberal da coalizão da Casa Grande que o elegeu. O rápido desgaste do seu governo, o prolongamento sem fim da crise econômica e as ações grotescas da parte circense do seu ministério minam seu apoio mesmo entre parte das classes médias conservadoras. É notória a movimentação do vice, o general Hamilton Mourão, para se colocar como capaz de retomar a agenda da burguesia sem manobras diversionistas e sem se envolver em polêmicas secundárias.

As extraordinárias manifestações de 15 de maio recolocam a esquerda no cenário politico pela primeira vez em anos, com real capacidade de mobilização. As expectativas de fortes demonstrações de força são reais e estão longe das tradicionais avaliações bravateiras tão comuns em parte da esquerda. Esse é um capital politico de peso. O sucesso destas ações enfraquecerá mais ainda Bolsonaro, que pelo seu lado busca também mobilizar os seus contra os inimigos imaginários de sempre.

Os tempos da politica estão acelerados. Fazer previsões nos últimos meses virou tarefa de enorme risco, mas a se confirmar um cenário de grandes mobilizações contra a reforma da Previdência e os cortes de verba da Educação, e a crescente fragilidade de Bolsonaro em mobilizar seus seguidores mais fieis, com maior dificuldade de levar adiante o programa ultraliberal de Paulo Guedes, a burguesia avançará na tentativa de se livrar do capitão. Não será difícil encontrar as razões no laranjal da família, como o avanço das investigações contra Flavio Bolsonaro deixam claro. Podem chegar até à comprovação de relações com as milícias cariocas, muito além da mera simpatia e das relações pessoais com alguns de seus membros.

Foi a aliança das mais diversas frações da burguesia que elegeu Bolsonaro, um outsider inconfiável, da mesma forma que em 1989 foi esta mesma aliança que elegeu Collor. Em ambos os casos atingido o objetivo de derrotar a esquerda, sobra para a oligarquia administrar a crise politica decorrente do recurso a outsiders empoderados.
Nosso adversário não é Bolsonaro, assim como não era Collor nem é Crivella. Nosso adversário é o projeto oligárquico excludente dirigido pela aliança das burguesias financeira e agrária que hegemonizaram as outras frações da burguesia, para quem esses atores nunca passaram de peões a serem usados e se necessário descartados. Não podemos nos contentar com o descarte dos peões.

O acúmulo de forças que estamos obtendo nas ruas não pode servir de linha auxiliar à resolução da crise politica por parte da elite. Sempre que esta falou em pacificação da politica foi para reestabelecer um arranjo que reorganizou suas forças e impôs a paz dos cemitérios ao andar de baixo.

A vulgarização do impeachment, a sua naturalização como método de apear governos eleitos será sempre usado impiedosamente contra administrações de esquerda quando as condições lhes permitirem e contra governos da direita quando estes se tornarem disfuncionais. É de luta de classes que se trata.
No cenário nacional o general Mourão se desloca. Na politica e no futebol quem se desloca recebe. Nosso papel é o de negar-lhe terreno. No agravamento da crise politica devemos contrapor ao impeachment a defesa de novas eleições. Nenhum acordo sem novas eleições. Nenhum voto a favor de impeachment sem novas eleições.

Hoje como ontem o impeachment será queima de arquivo.

PRECISAMOS FALAR SOBRE RENAN CALHEIROS

Prossegue a guerra civil na direita brasileira entre aqueles que querem se livrar rapidamente de Temer para o substituir por um presidente biônico, eleito por este Congresso travestido em Colégio Eleitoral, com o objetivo de concluir o desmonte do capitulo de direitos e garantias sociais da Constituição de 1988, e aqueles outros que, mais preocupados em fugir da polícia, Temer liderando, preferem manter o morto-vivo no Palácio do Planalto.

A linha de confrontação com ambos os grupos é a defesa de eleições em 2017, recuperando a velha bandeira da luta contra a ditadura , “Diretas Já”. Em 1984 uma ampla frente politica e partidária se formou em torno desta ideia. Governadores dos estados mais importantes como S.Paulo, Rio e Minas, junto com partidos de esquerda, liberais, conservadores, sindicalistas , artistas, gente de todos os quadrantes foram as ruas por em apoio á emenda Dante de Oliveira. Mesmo com toda a mobilização fomos derrotados, faltando 25 votos na câmara dos deputados para a sua aprovação. Enfrentávamos uma ditadura, que cuidava de sair de cena o mais protegida possível e operou contra as eleições diretas com amplo midiático. Na época a indefectível TV Globo anunciou o enorme comício por Diretas Já como um show de musica que ocorria na cidade.

Agora em 2017 a direita foge das urnas como o diabo foge da cruz. Sabe que o seu programa não passa em eleições e, por absoluta falta de imaginação, repete os argumentos da ditadura em 1984.”Diretas já, é golpe” bradava Paulo Maluf , candidato da ditadura em 1984.Tenho escutado o mesmo de “analistas” políticos ouvidos no noticiário. Agora há pouco no programa do William Wack lá estava Bolivar Lamonier dizendo que essa era uma saída populista. Jornalistas da Globonews ao cobrirem as manifestações de hoje pedindo diretas já, anunciam que “isto não é possível”. Se escudam na Constituição como se esta só pudesse ser alterada para retirar direitos sociais, e fosse imutável para sonegar ao povo o direito de dar a sua saída para a crise politica e econômica.

A frente que devemos construir nas ruas por diretas já deve ser com todos que vierem a ela. Hoje na Folha de SP tem uma nota informando que Paulinho da Força convidou Renan Calheiros para o ato da Força Sindical em Brasília dia 24 contra as reformas. Se Paulinho da Força e Renan Calheiros se somarem á luta pelas Diretas Já devem ser bem recebidos. Se parlamentares da bancada golpista se somarem á defesa das Diretas Já, devem ser bem recebidos. Não estão em jogo alianças eleitorais nem projetos em comum, mas simplesmente devolver ao povo aquilo que lhe pertence: o direito de escolher seus governantes. A emenda constitucional do momento é a de Miro Teixeira, garantindo eleições em 2017. Em torno desta emenda quem chegar é bem vindo.

Se todos não entendermos isso, não teremos a menor chance.

MICHEL TEMER NÃO RENUNCIOU, A CRISE CONTINUA

Michel Temer ainda não renunciou. Paradoxalmente, isso é um bom sinal. Ainda não chegaram a acordo, o que implicaria em garantias de que ele não será preso. Os golpistas querem trocar a roda (o Temer) para que o carro das reformas continue andando. O script é 1. a renuncia; 2. Rodrigo Maia assume e convoca eleições indiretas em 30 dias; 3. o Congresso elege um dois de paus sem ficha na policia e, por fim, 4. voltam a tocar as reformas. Esse é o jogo dos golpistas e é esse o jogo da Globo.

Neste jogo, tirar o Temer rápido é essencial para não inflamar mais ainda as ruas. É uma tentativa desesperada de retomar as reformas da previdência e trabalhista. Não será fácil, mesmo que consigam fazer isso, esta agenda já entra pelo segundo semestre e quanto mais próximo de 2018 pior fica para os golpistas.

Nenhuma solução que não passe por eleições diretas para presidente é aceitável. A direita tem pavor das urnas e seu programa jamais seria vitorioso em eleições .Por isso alegam a defesa da legalidade para descartar eleições diretas este ano. Como se emendas constitucionais só fossem legítimas quando propostas por eles.

O golpe está ferido, mas ainda não está morto. É necessário avançar com a mobilização social por eleições diretas em 2017. Nenhuma solução presidencial parida por este Congresso tem legitimidade.

Às ruas.