Arquivo da tag: Eleições

SOBRE O CAPITULACIONISMO E O ELEITORALISMO

A presença de Guilherme Boulos ontem no festival Lula Livre vem gerando polêmica. Boulos mudou sua agenda cancelando a participação em importantes atividades da sua pré-campanha para estar presente nos Arcos da Lapa. Esta foi a decisão correta.

A constatação de que estamos debaixo de um golpe de estado precisa ter consequências. O líder das pesquisas eleitorais à Presidência da República é preso político em Curitiba. Estas eleições não são iguais aquelas que passaram. Apresentar uma candidatura de esquerda com um programa para enfrentar a radicalidade da crise foi a decisão correta do PSOL, PCB e MTST. Mas estas eleições não se travam em condições de normalidade democrática.

Não há normalidade democrática sob a vigência de um golpe, com o empoderamento de um judiciário partidarizado, com Lula preso, com 23 ativistas sociais de 2013 condenados de forma absurda, com inquéritos abertos para silenciar o debate nas universidades, com a polícia federal ameaçando professores que na UFSC denunciam a própria polícia como responsável pelo suicídio do reitor Luis Cancelier.

Me causa estranheza que setores da esquerda que compartilham da mesma caracterização sobre o golpe de 2016 possam imaginar que a campanha deva ser feita como se na normalidade estivéssemos. Da mesma forma que me causa estranheza ver outros setores da esquerda em vários estados da federação se compondo com candidaturas da direita golpista.

A luta pelas liberdades democráticas precede as nossas diferenças programáticas, embora não as anule. Por isso, atos com a repercussão e o peso do festival Lula Livre deve ser a prioridade na agenda da esquerda. Na denuncia da prisão de Lula, se denuncia o avanço do arbítrio. E este nos atinge a todos.

Da mesma forma, não tem explicação que setores da esquerda onde têm força eleitoral tomem decisões que facilitem a eleição ao Senado de candidatos comprometidos até a medula com o golpe e seu programa.

Pluralidade na disputa eleitoral e unidade contra o golpe e seus representantes: essa deve ser a ação da esquerda. Os que capitulam a alianças com os golpistas e os que priorizam a campanha eleitoral demarcatória em relação à luta unitária contra o golpe, sucumbem ao eleitoralismo.

Esse não deve ser o caminho.

A EXPORTAÇÃO DA AUSTERIDADE, NOVA FACE DO IMPERIALISMO

Enquanto os países centrais aumentam suas dívidas públicas para enfrentar a crise, os organismos multilaterais por eles controlados recomendam para os países periféricos políticas de feroz ajuste fiscal. Os EUA desde a crise de 2008 viram sua dívida pública subir de 73% do PIB para 105% . Os Estados Unidos financiam sistematicamente seus gastos com expansão monetária e aumento de dívida. Como sua moeda é reserva internacional de valor, o impacto inflacionário dessa expansão é minimizado. Como sua moeda é meio de troca internacional, os decorrentes déficits comerciais se tornam irrelevantes.

Essa talvez seja a principal característica do imperialismo no atual período de financeirização global. Há décadas que os EUA têm enormes déficits comerciais com o restante do planeta, financiados com moeda por eles mesmos emitida. É uma especie de cheque especial da conta corrente do proprietário do banco.

Para os países da periferia, a adoção de políticas expansionistas que aumentem seus déficits esbarra em limites mais estreitos, conforme o seu grau de abertura financeira e comercial com o restante do planeta. Uma política de expansão fiscal isolada em um pais com moeda própria, mas que não seja tida como reserva de valor internacional, resulta no vazamento para o exterior de parte do impulso econômico resultante, com a provável deterioração do seu balanço de pagamentos, esse denominado em dólares. Quanto maior a sua abertura comercial, maior será esse vazamento. A crescente globalização da produção industrial, com a internacionalização das cadeias produtivas, reduz a autonomia da política fiscal das autoridades nacionais.

A combinação de políticas de abertura comercial indiscriminada e da abertura financeira dos países da periferia resultou concretamente em perda de autonomia na sua tomada de decisões na área fiscal. As políticas de ajuste fiscal, normalmente associadas a campanhas de criminalização da dívida pública, condenam estes países a um crescimento econômico letárgico e baseado na desvalorização do custo do trabalho, verdadeiro objetivo dos ajustes fiscais. Condenados a serem países produtores de produtos primários ou semi elaborados, a redução do custo unitário do trabalho permite deteriorar as relações de troca com os países centrais.

Parte da esquerda ainda não entendeu isso e continua se deixando terceirizar pelo discurso de criminalização das dívidas públicas e, portanto, jogando água no moinho das políticas de ajuste fiscal.

A adoção de uma política econômica capaz de romper esse círculo vicioso, passa por concertar políticas fiscais entre países da periferia. No caso do Brasil, seria da maior importância concertar políticas industriais, comerciais e fiscais com seus vizinhos próximos.

Nunca antes na história a politica econômica dependeu tanto de uma política externa ativa e da vitória das forças populares em toda a America Latina, possibilitando a concertação de políticas econômicas em comum.

A VITÓRIA DE LOPEZ OBRADOR NO MÉXICO E O KEYNESIANISMO

Vi hoje nas redes sociais comentários críticos a Lopez Obrador dizendo que não era para a esquerda ter grandes esperanças porque ele iria fazer um governo keynesiano. Não sei a partir de qual momento parte da esquerda passou a achar insultante a defesa de posições keynesianas na gestão de economias capitalistas. Historicamente, quem se contrapõe às politicas keynesianas são os liberais, que têm verdadeira urticária com o papel ativo do estado, com políticas fiscais expansionistas e seus decorrentes déficits públicos, com a busca do pleno emprego. Não vi nenhuma explicação sobre o que seria em oposição um programa marxista de gestão de uma economia capitalista sem perspectiva de curto (e médio) prazo de transição ao socialismo. Michael Kalecki, economista marxista polonês, compartilha dos mesmos pressupostos de Keynes sobre a busca do pleno emprego, embora, obviamente, o faça por razões políticas distintas.

Qualquer governo de esquerda que vença eleições na América Latina tem no instrumental teórico keynesiano o caminho para uma política que altere a correlação de forças entre capital e trabalho e busque a partir daí produzir reformas substantivas. Por outro lado, entendo perfeitamente quem imagina que uma vitória eleitoral coloca em perspectiva a transição rápida ao socialismo , tornando desnecessárias essas preocupações “menores”, vá se decepcionar com Obrador e com qualquer candidato que vença pela esquerda as eleições na América Latina neste período político.

Esclarecido que não se trata nem no México, nem porventura no Brasil com a vitória em outubro da esquerda, de se iniciar uma transição ao socialismo, os problemas “menores” estarão sobre a mesa. E aí minha avaliação sobre o México é pessimista também. Com 40% do PIB ligado ao comercio exterior, com reduzida diversificação de seu parque industrial, uma politica keynesiana clássica de expansão fiscal, tem serias limitações. Parte desse “esforço “ fiscal vazaria para o exterior, reduzindo o efeito multiplicador interno, reduzindo o retorno fiscal decorrente e pressionando o balanço de pagamentos. Mesmo partindo de uma situação fiscal mais folgada que o Brasil, com uma relação divida PIB mais baixa e com superávit fiscal primário, as limitações externas são consideravelmente maiores que no Brasil. Vale acrescentar que 80% das exportações mexicanas têm como destino os Estados Unidos, o que aumenta a vulnerabilidade mexicana a retaliações e pressões politicas externas

O maior problema do governo Obrador é que mesmo uma política keynesiana na situação do México terá dificuldades de se viabilizar de forma plena, embora nos limites do possível deva ser tentada. E a minha dúvida é se e até onde ele tentará.

Como disse Porfírio Diaz , líder da Revolução Mexicana que derrubou o Imperador Maximiliano na década de 60 do século 19: “Pobre México: tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”.