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AS ELEIÇÕES AMERICANAS E OS ARAUTOS DO IMOBILISMO

A polêmica que se abriu com a entrevista recente em que Gleen se atribui a missão de informar a esquerda brasileira quem é Joe Biden tem contornos interessantes .Ele deve estar se referindo a uma esquerda mítica composta de desinformados e que só existe na cabeça dele . Talvez faça isso para justificar a campanha que fez contra Biden nos 20 dias finais da campanha com assento frequente na bancada da Fox News.
Biden como todos sabemos é um homem do stablishment democrata. Não vi até agora ninguém de carne e osso na esquerda brasileira com avaliação diferente dessa.
Mas eu faço parte da parcela da esquerda que sem desprezar o papel dos personagens na história, valoriza o cenário em volta. Biden se elegeu graças a uma mobilização sem precedentes da esquerda americana que mobilizou a juventude urbana, os negros e as mulheres. São os que estão nas ruas comemorando a vitória .
Biden e o stablishment democrata sabem que sem essa mobilização não teriam vencido. A correlação de forças mudou a quente nas ruas. Obama eleito em 2008 não entregou o que prometeu em termos de redução da desigualdade. Essa é a razão da força de Bernie Sanders nas primárias de 2016 e também explica a derrota de Hilary.
Agora em 2020 e ao contrário da versão pasteurizada apresentada pela mídia brasileira sobre a vitoria de Biden, foi a mobilização da esquerda puxada por Bernie , Stacey Abrams e Alessandra Ocasio Cortez que viabilizou a derrota de Trump.
Aqueles que acham que no essencial não faz diferença Biden ou Trump e que subscrevem a linha do Gleen na verdade estão tratando a esquerda Norte Americana , e os milhões que se mobilizaram por mudanças , como idiotas . Estão olhando a história a partir dos grandes personagens e não das movimentações sociais .
Ao agirem assim se tornam arautos do imobilismo .

A EXPORTAÇÃO DA AUSTERIDADE, NOVA FACE DO IMPERIALISMO

Enquanto os países centrais aumentam suas dívidas públicas para enfrentar a crise, os organismos multilaterais por eles controlados recomendam para os países periféricos políticas de feroz ajuste fiscal. Os EUA desde a crise de 2008 viram sua dívida pública subir de 73% do PIB para 105% . Os Estados Unidos financiam sistematicamente seus gastos com expansão monetária e aumento de dívida. Como sua moeda é reserva internacional de valor, o impacto inflacionário dessa expansão é minimizado. Como sua moeda é meio de troca internacional, os decorrentes déficits comerciais se tornam irrelevantes.

Essa talvez seja a principal característica do imperialismo no atual período de financeirização global. Há décadas que os EUA têm enormes déficits comerciais com o restante do planeta, financiados com moeda por eles mesmos emitida. É uma especie de cheque especial da conta corrente do proprietário do banco.

Para os países da periferia, a adoção de políticas expansionistas que aumentem seus déficits esbarra em limites mais estreitos, conforme o seu grau de abertura financeira e comercial com o restante do planeta. Uma política de expansão fiscal isolada em um pais com moeda própria, mas que não seja tida como reserva de valor internacional, resulta no vazamento para o exterior de parte do impulso econômico resultante, com a provável deterioração do seu balanço de pagamentos, esse denominado em dólares. Quanto maior a sua abertura comercial, maior será esse vazamento. A crescente globalização da produção industrial, com a internacionalização das cadeias produtivas, reduz a autonomia da política fiscal das autoridades nacionais.

A combinação de políticas de abertura comercial indiscriminada e da abertura financeira dos países da periferia resultou concretamente em perda de autonomia na sua tomada de decisões na área fiscal. As políticas de ajuste fiscal, normalmente associadas a campanhas de criminalização da dívida pública, condenam estes países a um crescimento econômico letárgico e baseado na desvalorização do custo do trabalho, verdadeiro objetivo dos ajustes fiscais. Condenados a serem países produtores de produtos primários ou semi elaborados, a redução do custo unitário do trabalho permite deteriorar as relações de troca com os países centrais.

Parte da esquerda ainda não entendeu isso e continua se deixando terceirizar pelo discurso de criminalização das dívidas públicas e, portanto, jogando água no moinho das políticas de ajuste fiscal.

A adoção de uma política econômica capaz de romper esse círculo vicioso, passa por concertar políticas fiscais entre países da periferia. No caso do Brasil, seria da maior importância concertar políticas industriais, comerciais e fiscais com seus vizinhos próximos.

Nunca antes na história a politica econômica dependeu tanto de uma política externa ativa e da vitória das forças populares em toda a America Latina, possibilitando a concertação de políticas econômicas em comum.

A VITÓRIA DE LOPEZ OBRADOR NO MÉXICO E O KEYNESIANISMO

Vi hoje nas redes sociais comentários críticos a Lopez Obrador dizendo que não era para a esquerda ter grandes esperanças porque ele iria fazer um governo keynesiano. Não sei a partir de qual momento parte da esquerda passou a achar insultante a defesa de posições keynesianas na gestão de economias capitalistas. Historicamente, quem se contrapõe às politicas keynesianas são os liberais, que têm verdadeira urticária com o papel ativo do estado, com políticas fiscais expansionistas e seus decorrentes déficits públicos, com a busca do pleno emprego. Não vi nenhuma explicação sobre o que seria em oposição um programa marxista de gestão de uma economia capitalista sem perspectiva de curto (e médio) prazo de transição ao socialismo. Michael Kalecki, economista marxista polonês, compartilha dos mesmos pressupostos de Keynes sobre a busca do pleno emprego, embora, obviamente, o faça por razões políticas distintas.

Qualquer governo de esquerda que vença eleições na América Latina tem no instrumental teórico keynesiano o caminho para uma política que altere a correlação de forças entre capital e trabalho e busque a partir daí produzir reformas substantivas. Por outro lado, entendo perfeitamente quem imagina que uma vitória eleitoral coloca em perspectiva a transição rápida ao socialismo , tornando desnecessárias essas preocupações “menores”, vá se decepcionar com Obrador e com qualquer candidato que vença pela esquerda as eleições na América Latina neste período político.

Esclarecido que não se trata nem no México, nem porventura no Brasil com a vitória em outubro da esquerda, de se iniciar uma transição ao socialismo, os problemas “menores” estarão sobre a mesa. E aí minha avaliação sobre o México é pessimista também. Com 40% do PIB ligado ao comercio exterior, com reduzida diversificação de seu parque industrial, uma politica keynesiana clássica de expansão fiscal, tem serias limitações. Parte desse “esforço “ fiscal vazaria para o exterior, reduzindo o efeito multiplicador interno, reduzindo o retorno fiscal decorrente e pressionando o balanço de pagamentos. Mesmo partindo de uma situação fiscal mais folgada que o Brasil, com uma relação divida PIB mais baixa e com superávit fiscal primário, as limitações externas são consideravelmente maiores que no Brasil. Vale acrescentar que 80% das exportações mexicanas têm como destino os Estados Unidos, o que aumenta a vulnerabilidade mexicana a retaliações e pressões politicas externas

O maior problema do governo Obrador é que mesmo uma política keynesiana na situação do México terá dificuldades de se viabilizar de forma plena, embora nos limites do possível deva ser tentada. E a minha dúvida é se e até onde ele tentará.

Como disse Porfírio Diaz , líder da Revolução Mexicana que derrubou o Imperador Maximiliano na década de 60 do século 19: “Pobre México: tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”.