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O FETUCCINI, O VELHO ITALIANO E O FASCISMO

O fetuccini al pesto rosso está junto do fetuccini ao pesto clássico genovêse no panteão dos melhores pratos que conheço. Comi pela 1a vez aos 5 anos de idade . Em algum momento ali pelo final de 1965 ou início de 1966 meu pai me levou com ele para almoçar com um amigo no Maputo.
Vivia na velha cidade colonial de Lourenço Marques, atual Maputo, mas naqueles tempos a palavra Maputo remetia ao rio do mesmo nome que desagua no oceano indico do outro lado da baía Delagoa.
Saímos de casa rumo ao porto da cidade para cruzar a baía. Naquele ponto a largura da baía não está longe dos 2 km ( na sua parte mais larga chega a 38km ) . Cruzava-se a baía contratando um barqueiro que por vezes era a remos,outras era um ” gasolina ” pequeno com motor externo .
A medida que a Catembe ( a localidade onde se chegava do outro lado da baia) ia se aproximando vi um pequeno Renault branco estacionado. Era o carro da Aurizicola Moçambicana, a fazenda de arroz onde íamos almoçar. Uns 70 km de estrada de terra batida e chegamos ao rio Maputo.
Não havia ponte que só veio a ser construída no início dos anos 70. A travessia era feita de batelão movido a braço humano por um sistema de roldanas. 12 homens com uma força descomunal trabalhavam nessas roldanas movendo o batelao que em geral levava uns 3 carros. Nunca esqueci dessa imagem impactante. As palavras “trabalho braçal ” não dão conta de descrever o que era aquele trabalho . Só numa sociedade colonial me parece possível tal coisa .
Logo após a travessia do rio num pequeno povoado chamado Salamanga , entrava-se a esquerda numa picada aberta na mata até a sede da fazenda. Assim que chegamos um velho de cabelos cinza me vê e abre os braços ” bambinoooo”.
Não lembro do que fiz até a hora do almoço, mas o almoço foi inesquecível. Um fetuccini , prato que eu não conhecia, de comer ajoelhado.
Anos mais tarde a colônia Italiana cria um clube ,a Casa D’Italia , e o velho italiano assume a gestão do restaurante largando seu trabalho de administrador da fazenda. Meus pais com frequência nos levavam lá para jantar . Me lembro um dia do italiano dizer que gostava de me ver comendo o fetuccini. Dizia que eu comia concentrado no prato, com a disciplina de soldado alemão.
Ele tinha emigrado em 1946 da Itália para a África do Sul e em 1948 enfarado com o puritanismo da igreja reformada holandesa que regulava até a venda de bebida alcoólica na África do Sul, mudou- se para Moçambique .
O nome dele era Tulio Cianetti . Tinha sido ministro do governo Mussolini e membro do Grande Conselho Fascista . Participou da conspiração do Conde Ciano que derrubou Mussolini mas na última hora recuou e votou com o Duce . Por esse recuo acabou escapando da morte quando a República de Salo julgou Ciano e os conspiradores. Pela participação na conspiração escapou da condenação pelos aliados no pós guerra.
Mas não tinha clima para viver na República Italiana. Viveu em Moçambique até a sua morte no final dos anos 70.
Com ele aprendi a gostar de Fetuccini .

A ESPANHA ENTRE O IMPÉRIO CASTELHANO E O ESTADO PLURINACIONAL

A Espanha é um amalgama de nações. Raízes históricas que remontam á reconquista cristã da Península Ibérica determinam isso. Do original Reino das Astúrias, vários reinos cristãos surgem na península. Leão, Castela, Navarra e Aragão , são os que constituem hoje a Espanha moderna.

A Catalunha compreendendo na origem os condados do Roussillon e da Cerdanha que na sua maior parte fazem parte hoje da França, é anexada ao reino de Aragão já no século XII, embora sempre em relação conflituosa com a Coroa de Zaragoza. Na parte ocidental da península, os reinos de Leão e Castela se unificam em 1230 com capital em Toledo e depois em Segóvia. No século XV, com o casamento de Isabel de Castela com Fernando de Aragão finalmente a Espanha se unifica com configuração próxima á atual. O Roussillon, de língua catalã, e a parte norte da Cerdanha passam em 1659 á Franca.

Desde a sua incorporação á Coroa Aragonesa que a Catalunha com frequência entrava em conflito com o poder central. Não foi diferente com a coroa espanhola unificada. Lingua, cultura e tradições e interesses econômicos próprios, sempre foram fatores importantes.

Em 1640 a Revolta da Catalunha tenta mais uma vez separar a região da Coroa Espanhola, mas o seu fracasso deu a oportunidade da nobreza portuguesa recuperar a independência perdida em 1580 e por fim aos 60 anos de União Ibérica. Sem a mobilização do grosso das tropas de Madrid para reprimir a revolta catalã, talvez os portugueses não tivessem tido sucesso na sua própria revolta.

No inicio do século XVIII, durante a guerra de sucessão de Espanha entre Bourbons e Habsburgos a Catalunha apoia a derrotada pretensão austríaca, e após um cerco de 14 meses Barcelona é tomada em 11 de setembro de 1714 pelas forças leais ao trono Bourbon e o estatuto de relativa autonomia catalã é revogado. Esta é a data nacional da Catalunha.

A Catalunha só retomará sua autonomia em 1931 com a Republica Espanhola, finalmente derrotada pela ditadura de Franco em 1939.Com o Franquismo o idioma catalão é banido das ruas, os símbolos nacionais da Catalunha suprimidos e a logica imperial de Castela se impõe.

Com a redemocratização no final da década de 70 , os Pactos de Moncloa entre a ditadura franquista e a oposição democrática vedam expressamente a secessão de qualquer parte do estado espanhol. Estes pactos se expressam no artigo 2 da Constituíção :

“A Constituição baseia-se na unidade indissolúvel da Nação Espanhola, pátria comum e indivisível de todos os espanhóis e reconhece e garante o direito à autonomia das nacionalidades e regiões que a integram e a solidariedade entre eles” .

Estes pactos são argumentados pelo governo de Madrid para não aceitar debater o direito de nacionalidades integrantes do estado espanhol reivindicarem a independência. Este é o impasse que se estende com a questão do País Basco e da Catalunha, mas que pode também ocorrer com a Galicia ou com Valência ou com Maiorca.

Estados plurinacionais podem existir apenas se não se comportarem como carcereiros de povos. O direito á autodeterminação com todas as suas consequências , inclusive a independência, é um direito inalienável de qualquer nação. Os dispositivos da Constituição Espanhola que vedam esse direito , herdados de uma negociação com uma ditadura em condições desiguais, devem ser repudiados por todos que prezam a democracia. O que valeu para as nações constitutivas da Ex- Yuguslavia tem que valer para as nações constitutivas da Espanha.

O plebiscito ocorrido na Catalunha deve ser entendido como um movimento de massa para forçar Madrid a negociar. É o povo catalão quem deve decidir seu destino e o papel de todos que prezam a democracia deve ser repudiar os dispositivos imperiais expressos no artigo 2 da Constituição espanhola, verdadeiro entulho do franquismo que assola a Espanha até hoje.

A história da unificação da Espanha em um único estado é a historia da hegemonia de Castela que se apropriou dos símbolos de um estado que deveria ser plurinacional. Até os anos 40 não havia idioma espanhol mas sim o castelhano. A ditadura franquista passa a denominar o castelhano de espanhol e o impõe como idioma nacional único. A centralização do poder em Madrid faz do castelhano e dos interesses de Castela sinônimos de idioma e de interesses da Espanha desde a unificação de Fernando e Isabel.

A Espanha vive hoje uma encruzilhada: ou permanece como um Império Castelhano que é o que de fato ocorre hoje, ou se transforma num estado democrático plurinacional. Esta segunda hipótese só pode acontecer por livre adesão das suas nações constitutivas.

DE DUTERTE, BREXIT E TRUMP

Vivemos tempos difíceis. A ascensão de uma extrema direita antiliberal com base de massas é um fenômeno de alcance planetário. A eleição de Rodrigo Duterte à presidência das Filipinas em maio passado comparando-se a Hitler e prometendo exterminar 3 milhões de viciados em drogas abriu o cortejo de resultados eleitorais que expressam que algo se move na direção errada no planeta. O fenômeno que dá liga entre esse resultado eleitoral nas Filipinas, à vitória do Brexit na Inglaterra e ao Trump nos EUA é o mesmo. Isto não significa que os atores possam ser comparados, nada nos autoriza a comparar quem quer que seja a Rodrigo Duterte,que entre outros despropósitos vem incitando “viciados” a matarem traficantes e a população a matar “viciados”. O traço em comum está no fato que todos estes resultados eleitorais são fruto do mesmo processo econômico e político.

A reestruturação produtiva e a globalização

A Segunda revolução industrial está morta. No seu lugar, uma enorme reestruturação produtiva está em curso, com o avanço da robotização eliminando postos do trabalho e o deslocamento das plantas industriais intensivas em consumo de materiais, energia e mão de obra para os países da periferia, principalmente para a Ásia. Este processo produz vitoriosos e derrotados. Produziu ganhos significativos de renda em países periféricos, em particular na Ásia, mas também na África e na América Latina, mas aumentou a concentração de renda dentro de cada país. O rebaixamento dos custos de produção industrial decorrentes da robotização e dos menores custos salariais na Ásia produziu um enorme barateamento dos custos de bens duráveis, viabilizando o acesso destes produtos a milhões de trabalhadores pelo mundo afora. Mas deixaram atrás de si um rastro de destruição de empregos industriais na Europa, nos EUA e nas regiões industrializadas do Brasil.

O deslocamento do emprego para o setor de serviços significou um aumento de empregos bem remunerados no setor financeiro e tecnológico para uma parte menor da população e um aumento de empregos de baixa qualificação no setor de comércio e serviços de baixa intensidade tecnológica para a maior parte da população. Os primeiros viram sua renda subir acima da média, sua cesta de consumo de industrializados baixar de custo e votaram contra o Brexit e em Hilary Clinton. Os segundos, a maioria, via sua renda cair em relação à média, mas também em relação ao patamar anterior, e votaram pelo Brexit e em Donald Trump. Em comum com o filipino Duterte, os vitoriosos destes processos eleitorais construíram um “inimigo” de fácil identificação: para Duterte, os “viciados”; para os defensores do Brexit, a imigração e a União Europeia; para Trump, a imigração e a China. É sempre bom lembrar, que nos anos 30, para Hitler os culpados da crise eram os judeus.

Robert Paxton, em “A Anatomia do Fascismo”, cita frase de George Sorel de 1908 criticando Marx por não ter percebido que a historia não avança inexoravelmente para o socialismo “uma revolução alcançada em tempos de decadência pode tomar como ideal uma volta ao passado, ou até mesmo a conservação social”. As bases sociais tradicionais da esquerda nos cinturões industrializados da Europa, EUA e Brasil não mais existem. Porque estes cinturões industriais não mais existem no mínimo com a configuração que tinham há 30 anos atrás. Fora do centro financeiro de Londres, prevaleceu o Brexit, com vitorias expressivas nas antigas áreas industriais. Hilary perdeu a eleição na Pensylvania, Ohio, Michigan e Winscosin, estados industriais decadentes e o PT perdeu as eleições no ABC. Não foi uma derrota conjuntural, embora a conjuntura tenha tido seu peso. É uma nova configuração política que chegou para ficar.

O dilema da esquerda

A esquerda, tal como aprendemos a conhecê-la, construiu seus aparatos políticos, partidários e sindicais a partir da segunda revolução industrial, em que expressivas concentrações operárias formaram a sua base social por excelência. Para o marxismo, classe social se define por uma mesma forma de inserção no processo produtivo, uma relativa igualdade de acesso à renda e ao poder e, portanto, à formação de consciência de si mesma. Estas condições estavam dadas nas velhas plantas industriais, com milhares de operários organizados em atividades semelhantes, com salários semelhantes entre si e enorme concentração espacial.

A globalização e a reestruturação produtiva acabaram com estas condições. Nas plantas fabris, sobreviventes dos velhos cinturões industriais, trabalham muito menos operários, com um sem número de degraus e hierarquias entre eles e funções muito mais diversificadas, assim como patamares salariais distintos. A enorme maioria da força de trabalho foi deslocada para o setor de serviços, com formas distintas de inserção no processo produtivo, em que subsiste trabalho assalariado, mas cresce o trabalho terceirizado, a “pejotização” e o empreendedorismo precarizado. Formar consciência de classe nestas condições é muito mais difícil. A perda progressiva das identidades de classe foi substituída pela ascensão de outras identidades fragmentadas em busca de representação política. Pela esquerda, a luta antirracista, a pauta LGBT, a luta feminista, a defesa de valores libertários. Pela direita, as identidades étnicas, religiosas, culturais, a defesa de valores punitivistas.

Se no século 20 a luta política se organizou, no fundamental, em torno de interesses de classe, neste início do século 21 são as identidades que prevalecem na disputa. Recolocar a centralidade da disputa política em termos de conflito de interesses de classe é condição fundamental para a esquerda recuperar a relevância com capacidade de disputar poder. Isto não significa abandonar ou relativizar as lutas por direitos civis expressas nas pautas identitárias afetas à esquerda, mas reconhecer a sua insuficiência para lastrear a construção de uma nova hegemonia política.

Por tudo o que expus nesse texto, não é tarefa fácil nem tenho a pretensão de mostrar o caminho da salvação. Entre a esquerda que segue com a certeza na frente e a historia na mão, eu fico com a sabedoria de Sócrates expressa na frase “tudo o que sei é que nada sei”.