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DA VILA EUCLIDES À GREVE DOS CAMINHONEIROS

A greve dos caminhoneiros, hoje no seu sexto dia, abriu forte debate na esquerda. Greve ou locaute? Afinal, autônomos, pequenos e grandes empresários tinham uma mesma pauta, resultado de uma política de preços insana da administração da Petrobrás.

O ajuste quase que diário dos preços nas refinarias de um insumo estratégico para a economia resultou em 12 aumentos só no mês de maio. Pressionados pela redução da demanda por fretes em função da devastadora recessão, uma categoria já em crise e com acentuada queda de renda, sofre os reajustes quase diários porque o câmbio subiu, porque o petróleo subiu, porque, afinal, os acionistas da Petrobrás precisam maximizar seus lucros.

A justeza da pauta, que se choca frontalmente com a agenda neoliberal, já é razão bastante para que a esquerda não titubeasse no seu apoio à greve. Mesmo que fosse o caso, que não é, dos empresários do setor serem os grandes beneficiados de uma eventual derrota do governo. Se empresários se contrapõem à gestão privatista da Petrobrás e sua política de preços, ótimo.

Acontece que a categoria dos caminhoneiros historicamente é hegemonizada ideologicamente pelo conservadorismo. A própria natureza da atividade, descentralizada, individual, em que a renda de cada um depende de seu desempenho pessoal, não estimula lutas coletivas, nem a formação de espaços coletivos de debate, o que torna o terreno mais difícil para a esquerda. Por outro lado, a crise precarizou enormemente a categoria e a levou à confrontação com a agenda liberal do governo.

A extrema direita percebeu o potencial político do movimento e trabalhou organizadamente para colar a sua agenda nesta luta. Faixas produzidas de forma industrial com as palavras de ordem do fascismo não caíram do céu nem apareceram espontaneamente nos bloqueios. A esquerda demorou a reagir, mas acertadamente acabou por tomar o lado certo no apoio à greve. Se não disputarmos, deixaremos o terreno livre para a extrema direita que, como todo o movimento de características fascistas, se tornou no Brasil um movimento de massas, muito organizado e com real capacidade de mobilização.

A crescente desindustrialização do Brasil e o processo de reestruturação produtiva reduziram enormemente o peso do operariado e de categorias organizadas onde tradicionalmente a esquerda tem força. Significativo notar que as 3 principais mobilizações grevistas ocorridas nesta década no Rio de Janeiro, que tiveram forte impacto na sociedade e que ganharam adesão popular, tenham sido a dos bombeiros em 2011, as dos garis em 2014 e agora a dos caminhoneiros. Luta social dos até então desorganizados e do precariado. As intermináveis greves de professores não logram nem repercussão nem maior solidariedade. Esses, por duros que sejam, são os fatos.

Não teremos mais Vila Euclides e a histórica greve dos metalúrgicos do ABC. Hoje, quem move a historia é o bloqueio no trevo de Manilha. E lá a disputa é com a extrema direita também anti liberal. Esse cenário chegou para ficar. Quem na esquerda não estiver preparado para disputar política de massas com o Bolsonarismo nas ruas, sugiro preparar passaporte e emigrar talvez para a Groenlândia. Ou assumir seu papel de comentarista da luta de classes.

Em 2011, os bombeiros mobilizaram todo o estado na sua luta contra Cabral. Eles fazem parte de uma corporação militarizada. São, na sua maioria, evangélicos e ideologicamente hegemonizados pela extrema direita e suas pautas. Mas foi importante a esquerda ter apoiado a sua luta em 2011. Hoje há uma liderança de esquerda na corporação , a ABMERJ, sempre presente e solidária nas lutas sindicais de outras categorias e que cumpre um importante papel. Toda a liderança do movimento dos garis de 2014 está na esquerda.

E agora? Vamos deixar o fascismo representar os caminhoneiros sem disputa?

O DOMÍNIO DO FATO

O que faz com que a PM, em retaliação à morte de um soldado em troca de tiros com traficantes, se sinta à vontade para voltar à Rocinha e fuzilar 10 jovens em um baile funk?

O que faz com que a mílicia em Maricá fuzile 5 jovens com o intuito de amedrontar os moradores de um conjunto residencial para lhes extorquir taxas de proteção?

O que faz com que uma vereadora da esquerda seja executada com 9 tiros numa rua da cidade?

O que faz com que o ex-presidente Lula tenha seu ônibus alvejado à bala por manifestantes da extrema direita?

A desfaçatez e a sensação de normalidade com que estes facínoras estão agindo é de responsabilidade direta dos que destilam ódio pela mídia e redes sociais, dos que abertamente advogam soluções de força para todos os tipos de problema.

Os criminosos não são só os executores diretos dos crimes, mas os seus instigadores. E estes todos os conhecemos, entre eles está um candidato à Presidência da República.

A OBSOLESCÊNCIA DOS SABERES E O CRESCIMENTO DO FASCISMO

Vivemos neste início de século 21 a aceleração da inovação tecnológica impactando o mundo do trabalho. Profissões e saberes consagrados por décadas perdem a utilidade e eliminam profissões. A crescente automação e robotização da indústria elimina empregos industriais e torna obsoletos trabalhadores que sempre acreditaram ter uma profissão consolidada pelo resto das suas vidas. Boa parte dos empregos industriais perdidos nos EUA no chamado Cinturão da Ferrugem que deu a vitória a Donald Trump são irrecuperáveis, porque simplesmente deixaram de existir. Tal qual as taquigrafas ou telefonistas décadas atrás, boa parte dos empregos industriais estão em extinção.

Não é diferente em algumas áreas de serviços. Com os aplicativos e o boom da, por vezes mal denominada, economia colaborativa, a profissão de taxista pode entrar em extinção, substituída pelos Uber’s e similares com a consequente precarização do trabalho. Para um enorme contingente de trabalhadores que adquiriram seu táxi, sua autonomia, e pensavam que tinham uma profissão para o resto de suas vidas, a realidade será dura. A desleal concorrência destes aplicativos operados por empresas que não têm um único automóvel, não têm empregados na sua área operacional e se aproveitam da crise para arregimentar mão de obra barata desprovida de direitos, já está quebrando a economia familiar de taxistas pelo mundo afora.

Entender as consequências econômicas da velocidade da inovação tecnológica não basta para pensar em políticas públicas que possibilitem de um lado evitar a precarização do trabalho e de outro requalificar trabalhadores cujos saberes se tornaram obsoletos. O componente psicológico e a enorme sensação de insegurança que acompanha esses processos têm como consequência tornar estes trabalhadores vitimas fáceis da retórica racista, oportunista e xenófoba da extrema direita. A natural dificuldade em entender processos econômicos complexos e a ausência de políticas públicas adequadas para recapacitar estes trabalhadores para o exercício de novas funções, bem como o crescente desmonte das legislações trabalhistas, leva a que se tornem vitimas fáceis do discurso fascista, que lhes promete uma solução errada, porém de fácil compreensão e um inimigo de fácil localização, normalmente o estrangeiro, seja o imigrante seja a deslocalização da produção para outros países.

O avanço da hegemonia do pensamento liberal tem levado a mudanças nas leis trabalhistas pelo mundo afora, consolidando a uberização do trabalho, muitas vezes com a complacência de parte da esquerda pouco disposta a se confrontar com o senso comum de consumidores que olham pelo lado dos seus custos pessoais e pouco se importam que o preço dessa redução de custos seja a precarização do trabalho e da renda de terceiros. O debate sobre o Uber é elucidativo disso, com parte da esquerda se escondendo atrás de uma pseudo- regulamentação a futuro como forma de se livrar do debate no presente.

Por trás do discurso da modernização da legislação trabalhista, com certeza necessária, mas em outros termos, está o declarado objetivo de fragilizar direitos trabalhistas, possibilitar relações “flexíveis “de jornada de trabalho e de vínculos empregatícios, fazendo a apropriação das novas tecnologias em favor do Capital e em consequência contra os que vivem do seu trabalho. Não se trata de empreender uma jornada ludista contra a tecnologia, mas de disputar quem dela se deverá beneficiar. Não fazer isso, dá espaço para que a extrema direita culpe a imigração, a concorrência da China e outros inimigos imaginários e ganhe força desta forma.

É preciso combinar de um lado a defesa de programas públicos de requalificação profissional onde a inovação tecnológica obrigar a isso, e de outro não permitir que por trás do discurso da inovação tecnológica se reproduzam relações de trabalho que deveriam estar extintas há mais de um século, como é o caso do Uber.