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A OBSOLESCÊNCIA DOS SABERES E O CRESCIMENTO DO FASCISMO

Vivemos neste início de século 21 a aceleração da inovação tecnológica impactando o mundo do trabalho. Profissões e saberes consagrados por décadas perdem a utilidade e eliminam profissões. A crescente automação e robotização da indústria elimina empregos industriais e torna obsoletos trabalhadores que sempre acreditaram ter uma profissão consolidada pelo resto das suas vidas. Boa parte dos empregos industriais perdidos nos EUA no chamado Cinturão da Ferrugem que deu a vitória a Donald Trump são irrecuperáveis, porque simplesmente deixaram de existir. Tal qual as taquigrafas ou telefonistas décadas atrás, boa parte dos empregos industriais estão em extinção.

Não é diferente em algumas áreas de serviços. Com os aplicativos e o boom da, por vezes mal denominada, economia colaborativa, a profissão de taxista pode entrar em extinção, substituída pelos Uber’s e similares com a consequente precarização do trabalho. Para um enorme contingente de trabalhadores que adquiriram seu táxi, sua autonomia, e pensavam que tinham uma profissão para o resto de suas vidas, a realidade será dura. A desleal concorrência destes aplicativos operados por empresas que não têm um único automóvel, não têm empregados na sua área operacional e se aproveitam da crise para arregimentar mão de obra barata desprovida de direitos, já está quebrando a economia familiar de taxistas pelo mundo afora.

Entender as consequências econômicas da velocidade da inovação tecnológica não basta para pensar em políticas públicas que possibilitem de um lado evitar a precarização do trabalho e de outro requalificar trabalhadores cujos saberes se tornaram obsoletos. O componente psicológico e a enorme sensação de insegurança que acompanha esses processos têm como consequência tornar estes trabalhadores vitimas fáceis da retórica racista, oportunista e xenófoba da extrema direita. A natural dificuldade em entender processos econômicos complexos e a ausência de políticas públicas adequadas para recapacitar estes trabalhadores para o exercício de novas funções, bem como o crescente desmonte das legislações trabalhistas, leva a que se tornem vitimas fáceis do discurso fascista, que lhes promete uma solução errada, porém de fácil compreensão e um inimigo de fácil localização, normalmente o estrangeiro, seja o imigrante seja a deslocalização da produção para outros países.

O avanço da hegemonia do pensamento liberal tem levado a mudanças nas leis trabalhistas pelo mundo afora, consolidando a uberização do trabalho, muitas vezes com a complacência de parte da esquerda pouco disposta a se confrontar com o senso comum de consumidores que olham pelo lado dos seus custos pessoais e pouco se importam que o preço dessa redução de custos seja a precarização do trabalho e da renda de terceiros. O debate sobre o Uber é elucidativo disso, com parte da esquerda se escondendo atrás de uma pseudo- regulamentação a futuro como forma de se livrar do debate no presente.

Por trás do discurso da modernização da legislação trabalhista, com certeza necessária, mas em outros termos, está o declarado objetivo de fragilizar direitos trabalhistas, possibilitar relações “flexíveis “de jornada de trabalho e de vínculos empregatícios, fazendo a apropriação das novas tecnologias em favor do Capital e em consequência contra os que vivem do seu trabalho. Não se trata de empreender uma jornada ludista contra a tecnologia, mas de disputar quem dela se deverá beneficiar. Não fazer isso, dá espaço para que a extrema direita culpe a imigração, a concorrência da China e outros inimigos imaginários e ganhe força desta forma.

É preciso combinar de um lado a defesa de programas públicos de requalificação profissional onde a inovação tecnológica obrigar a isso, e de outro não permitir que por trás do discurso da inovação tecnológica se reproduzam relações de trabalho que deveriam estar extintas há mais de um século, como é o caso do Uber.

DE DUTERTE, BREXIT E TRUMP

Vivemos tempos difíceis. A ascensão de uma extrema direita antiliberal com base de massas é um fenômeno de alcance planetário. A eleição de Rodrigo Duterte à presidência das Filipinas em maio passado comparando-se a Hitler e prometendo exterminar 3 milhões de viciados em drogas abriu o cortejo de resultados eleitorais que expressam que algo se move na direção errada no planeta. O fenômeno que dá liga entre esse resultado eleitoral nas Filipinas, à vitória do Brexit na Inglaterra e ao Trump nos EUA é o mesmo. Isto não significa que os atores possam ser comparados, nada nos autoriza a comparar quem quer que seja a Rodrigo Duterte,que entre outros despropósitos vem incitando “viciados” a matarem traficantes e a população a matar “viciados”. O traço em comum está no fato que todos estes resultados eleitorais são fruto do mesmo processo econômico e político.

A reestruturação produtiva e a globalização

A Segunda revolução industrial está morta. No seu lugar, uma enorme reestruturação produtiva está em curso, com o avanço da robotização eliminando postos do trabalho e o deslocamento das plantas industriais intensivas em consumo de materiais, energia e mão de obra para os países da periferia, principalmente para a Ásia. Este processo produz vitoriosos e derrotados. Produziu ganhos significativos de renda em países periféricos, em particular na Ásia, mas também na África e na América Latina, mas aumentou a concentração de renda dentro de cada país. O rebaixamento dos custos de produção industrial decorrentes da robotização e dos menores custos salariais na Ásia produziu um enorme barateamento dos custos de bens duráveis, viabilizando o acesso destes produtos a milhões de trabalhadores pelo mundo afora. Mas deixaram atrás de si um rastro de destruição de empregos industriais na Europa, nos EUA e nas regiões industrializadas do Brasil.

O deslocamento do emprego para o setor de serviços significou um aumento de empregos bem remunerados no setor financeiro e tecnológico para uma parte menor da população e um aumento de empregos de baixa qualificação no setor de comércio e serviços de baixa intensidade tecnológica para a maior parte da população. Os primeiros viram sua renda subir acima da média, sua cesta de consumo de industrializados baixar de custo e votaram contra o Brexit e em Hilary Clinton. Os segundos, a maioria, via sua renda cair em relação à média, mas também em relação ao patamar anterior, e votaram pelo Brexit e em Donald Trump. Em comum com o filipino Duterte, os vitoriosos destes processos eleitorais construíram um “inimigo” de fácil identificação: para Duterte, os “viciados”; para os defensores do Brexit, a imigração e a União Europeia; para Trump, a imigração e a China. É sempre bom lembrar, que nos anos 30, para Hitler os culpados da crise eram os judeus.

Robert Paxton, em “A Anatomia do Fascismo”, cita frase de George Sorel de 1908 criticando Marx por não ter percebido que a historia não avança inexoravelmente para o socialismo “uma revolução alcançada em tempos de decadência pode tomar como ideal uma volta ao passado, ou até mesmo a conservação social”. As bases sociais tradicionais da esquerda nos cinturões industrializados da Europa, EUA e Brasil não mais existem. Porque estes cinturões industriais não mais existem no mínimo com a configuração que tinham há 30 anos atrás. Fora do centro financeiro de Londres, prevaleceu o Brexit, com vitorias expressivas nas antigas áreas industriais. Hilary perdeu a eleição na Pensylvania, Ohio, Michigan e Winscosin, estados industriais decadentes e o PT perdeu as eleições no ABC. Não foi uma derrota conjuntural, embora a conjuntura tenha tido seu peso. É uma nova configuração política que chegou para ficar.

O dilema da esquerda

A esquerda, tal como aprendemos a conhecê-la, construiu seus aparatos políticos, partidários e sindicais a partir da segunda revolução industrial, em que expressivas concentrações operárias formaram a sua base social por excelência. Para o marxismo, classe social se define por uma mesma forma de inserção no processo produtivo, uma relativa igualdade de acesso à renda e ao poder e, portanto, à formação de consciência de si mesma. Estas condições estavam dadas nas velhas plantas industriais, com milhares de operários organizados em atividades semelhantes, com salários semelhantes entre si e enorme concentração espacial.

A globalização e a reestruturação produtiva acabaram com estas condições. Nas plantas fabris, sobreviventes dos velhos cinturões industriais, trabalham muito menos operários, com um sem número de degraus e hierarquias entre eles e funções muito mais diversificadas, assim como patamares salariais distintos. A enorme maioria da força de trabalho foi deslocada para o setor de serviços, com formas distintas de inserção no processo produtivo, em que subsiste trabalho assalariado, mas cresce o trabalho terceirizado, a “pejotização” e o empreendedorismo precarizado. Formar consciência de classe nestas condições é muito mais difícil. A perda progressiva das identidades de classe foi substituída pela ascensão de outras identidades fragmentadas em busca de representação política. Pela esquerda, a luta antirracista, a pauta LGBT, a luta feminista, a defesa de valores libertários. Pela direita, as identidades étnicas, religiosas, culturais, a defesa de valores punitivistas.

Se no século 20 a luta política se organizou, no fundamental, em torno de interesses de classe, neste início do século 21 são as identidades que prevalecem na disputa. Recolocar a centralidade da disputa política em termos de conflito de interesses de classe é condição fundamental para a esquerda recuperar a relevância com capacidade de disputar poder. Isto não significa abandonar ou relativizar as lutas por direitos civis expressas nas pautas identitárias afetas à esquerda, mas reconhecer a sua insuficiência para lastrear a construção de uma nova hegemonia política.

Por tudo o que expus nesse texto, não é tarefa fácil nem tenho a pretensão de mostrar o caminho da salvação. Entre a esquerda que segue com a certeza na frente e a historia na mão, eu fico com a sabedoria de Sócrates expressa na frase “tudo o que sei é que nada sei”.