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JEAN WYLLYS TEM SEU LUGAR NO LADO CERTO DA HISTÓRIA

Soubemos hoje da decisão do deputado Jean Wyllys de renunciar ao mandato e sair do país. Conheço Jean desde a sua primeira campanha quando se elegeu em 2010. Tive com ele acordos e desacordos. Acordos intensos e desacordos intensos também. Porque acordos e desacordos entre quem acredita e defende suas ideias são sempre intensos. Jean nunca fugiu da polemica nem do conflito. Nos seus 2 mandatos colocou na agenda da politica causas antes invisibilizadas, enfurecendo o conservadorismo e a hipocrisia dominantes.

Para milhões de cidadãos discriminados por sua orientação sexual, há um Brasil de antes do mandato Jean Wyllys e outro depois do mandato Jean Wyllys. Não foi pequena a afronta aos reacionários, ao tiozão do pavê, aos picaretas aproveitadores da religiosidade alheia, que milhões de cidadãos antes relegados a uma existência marginal passassem a ver seus direitos debatidos no Congresso e em praça publica.

Mas no seu mandato Jean não foi apenas um deputado das causas dos direitos individuais. Jean foi, e talvez poucos saibam disso, um importantíssimo deputado do PSOL no debate econômico e na defesa dos direitos sociais. Projetos de sua autoria sobre desindexação de alugueis, sobre reforma tributaria, sobre direitos sociais, ficam na camara tramitando como herança de 8 anos de intenso trabalho.

Jean foi também o deputado mais ameaçado e agredido física e psicologicamente nestes 8 anos. Campanhas permanentes de difamação, agressões verbais constantes em off e em on nas ruas e no Congresso Nacional, protagonizadas frequentemente por esse individuo que hoje desgraçadamente carrega a faixa presidencial.

Com a vitoria de Witzel ao governo do estado e de Bolsonaro á presidência as ameaças subiram muito de tom.Todos os trogloditas homofóbicos se sentiram empoderados para ameaçar qualquer um que lhes desagrade. Jean sempre foi o mais visado. Com a notória ligação da familia Bolsonaro com milicianos criminosos , como as recentes investigações deixam claro, as ameaças tornam-se mais agudas.Mataram Marielle e hoje se suspeita que gente do gabinete do então deputado Flavio Bolsonaro pode estar envolvida nisso.

As ameaças se estendiam á assessoria , Jean não podia sair as ruas sem forte aparato de segurança. Não é fácil viver assim. Obviamente que a renuncia do Jean é uma derrota para todos nós.É uma derrota para o Brasil.É uma derrota para a humanidade. Mas não sou daqueles que arrota valentia com o pescoço dos outros.Respeito, acato e apoio a decisão do Jean.

Durante 8 anos de mandato Jean Wyllys nos representou e orgulhou. No auto exílio pelo qual optou,com justas e boas razões, Jean continuará nos representando e orgulhando.

Siga adiante meu amigo e camarada.

A EXPORTAÇÃO DA AUSTERIDADE, NOVA FACE DO IMPERIALISMO

Enquanto os países centrais aumentam suas dívidas públicas para enfrentar a crise, os organismos multilaterais por eles controlados recomendam para os países periféricos políticas de feroz ajuste fiscal. Os EUA desde a crise de 2008 viram sua dívida pública subir de 73% do PIB para 105% . Os Estados Unidos financiam sistematicamente seus gastos com expansão monetária e aumento de dívida. Como sua moeda é reserva internacional de valor, o impacto inflacionário dessa expansão é minimizado. Como sua moeda é meio de troca internacional, os decorrentes déficits comerciais se tornam irrelevantes.

Essa talvez seja a principal característica do imperialismo no atual período de financeirização global. Há décadas que os EUA têm enormes déficits comerciais com o restante do planeta, financiados com moeda por eles mesmos emitida. É uma especie de cheque especial da conta corrente do proprietário do banco.

Para os países da periferia, a adoção de políticas expansionistas que aumentem seus déficits esbarra em limites mais estreitos, conforme o seu grau de abertura financeira e comercial com o restante do planeta. Uma política de expansão fiscal isolada em um pais com moeda própria, mas que não seja tida como reserva de valor internacional, resulta no vazamento para o exterior de parte do impulso econômico resultante, com a provável deterioração do seu balanço de pagamentos, esse denominado em dólares. Quanto maior a sua abertura comercial, maior será esse vazamento. A crescente globalização da produção industrial, com a internacionalização das cadeias produtivas, reduz a autonomia da política fiscal das autoridades nacionais.

A combinação de políticas de abertura comercial indiscriminada e da abertura financeira dos países da periferia resultou concretamente em perda de autonomia na sua tomada de decisões na área fiscal. As políticas de ajuste fiscal, normalmente associadas a campanhas de criminalização da dívida pública, condenam estes países a um crescimento econômico letárgico e baseado na desvalorização do custo do trabalho, verdadeiro objetivo dos ajustes fiscais. Condenados a serem países produtores de produtos primários ou semi elaborados, a redução do custo unitário do trabalho permite deteriorar as relações de troca com os países centrais.

Parte da esquerda ainda não entendeu isso e continua se deixando terceirizar pelo discurso de criminalização das dívidas públicas e, portanto, jogando água no moinho das políticas de ajuste fiscal.

A adoção de uma política econômica capaz de romper esse círculo vicioso, passa por concertar políticas fiscais entre países da periferia. No caso do Brasil, seria da maior importância concertar políticas industriais, comerciais e fiscais com seus vizinhos próximos.

Nunca antes na história a politica econômica dependeu tanto de uma política externa ativa e da vitória das forças populares em toda a America Latina, possibilitando a concertação de políticas econômicas em comum.

A BATALHA DE SÃO BERNARDO

Terminou a batalha de São Bernardo, mas não terminou a guerra pela democracia. Lula, condenado por Moro e pelo TRF-4 sem provas, num processo montado para produzir efeitos eleitorais tornando Lula inelegível, com prisão decretada à revelia da Constituição, que explicitamente veta prisão sem sentença transitada em julgado, se entrincheirou no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo durante dois dias, protegido por uma multidão e pela solidariedade de partidos de esquerda e entidades do movimento social.

Rejeitado o ultimato de Moro para a “rendição” até às 17h de sexta feira, desmoralizadas as suas tentativas de pressionar a Polícia Federal para executar a prisão dentro do sindicato, com Lula definindo a hora e os termos do enfrentamento político, a batalha de São Bernardo foi uma vitória. A comemoração fraca, contida , nos Tucanistões que dois anos atrás bateram panelas pelo golpe, mostra quem venceu e quem perdeu no dia de hoje.

Poucas são as batalhas que definem o resultado das guerras. Esta, com certeza, não tinha esta possibilidade. A menos que a partir de São Bernardo se levantasse um movimento capaz de derrocar as instituições, hipótese que ninguém sustenta de forma séria, esse objetivo estava fora do alcance. Por isso, a prisão de Lula era inevitável. A vitória possível era controlar o timing, a repercussão e os termos em que ela ocorreria.

A legítima disposição da militância de prolongar a resistência para além do dia de hoje é elogiável e uma das vitórias deste enfrentamento. As cenas da massa impedindo a saída do carro de Lula ficarão para a História. Mas lutas não são um fim em si mesmo sendo sempre subordinadas a um objetivo político possível. Não era possível impedir a prisão de Lula logo. Portanto, em algum momento era necessário pactuar. A defesa da “luta até á vitória” quando a vitória não é possível, costuma conduzir a derrotas desastrosas.

Acho, portanto, com toda a estima aos valorosos militantes que tinham manifesta disposição de prolongar o enfrentamento, que a decisão de Lula foi correta. Sair nos seus termos, com a mobilização no auge, deixando claro quem escolheu a hora de sair, foi a decisão acertada.

Moro perdeu a sua foto, perdeu a chance de uma prisão humilhante. As imagens espetaculares destes dois dias continuarão repercutindo pelo Brasil e pelo mundo. Mesmo “peleando em retirada e com pouca munição”, é possível obter vitórias. Hoje foi um desses dias.

É levantar a cabeça e retomar a luta em defesa da democracia.