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GLEISI HOFFMANN NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Em recente entrevista ao portal 247, Gleisi Hoffmann apresenta em linhas gerais a estratégia do PT no caso de condenação em segunda instância de Lula pelo TRF -4 de Porto Alegre. Lula manteria a sua candidatura, se inscreveria candidato em 15 de agosto, e enfrentaria na Justiça Eleitoral o inexorável pedido de impugnação de sua candidatura com base na Lei da Ficha Limpa, lamentavelmente aprovada em 2010 com o apoio de toda a esquerda.

Nesta entrevista, a presidente nacional do PT aponta que Lula, mantendo seu enorme apoio popular de hoje, colocaria a justiça eleitoral face à difícil situação de impugnar um candidato líder de pesquisas, que hoje apresenta invejáveis índices de intenção de voto acima dos 35% em primeiro turno. Perguntada sobre alianças com setores que apoiaram o golpe, Gleisi diz que com mais de 70% de intenções de voto no nordeste, não há politico nesses estados que não queira apoiar Lula e que apoio não se rejeita. Até mesmo candidatos do PSDB vão querer estar com Lula.

Dito assim, parece algo cândido, óbvio, natural até. Só que não. É difícil imaginar algo de positivo no golpe parlamentar de 2016, mas fazendo algum esforço e tapando nariz podemos dizer que um subproduto positivo do golpe foi a demarcação de campos políticos entre golpistas e democratas. As cenas constrangedoras da Câmara dos Deputados em 17 de abril de 2016 que humilharam o Brasil perante o mundo, onde uma maioria de mais de 2/3 aprovou a derrubada ilegal de uma Presidente da República eleita, deixaram claro quais são as linhas demarcatórias básicas na politica brasileira.

Para citar nomes e ir ao grão, Eunício de Oliveira presidente do senado, foi um dos partícipes do golpe, apoiou a emenda constitucional do “Fim do Mundo”, a reforma trabalhista e toca a agenda de Temer no Senado Federal. Eunício negocia aliança com o governador petista do Ceará para se reeleger e, por óbvio, busca o apoio de Lula. Gleisi acha isso positivo. Mais ou menos assim: Eunício consegue, deve conseguir, uns pouco milhares de votos para Lula no Ceará, que só se definiriam por apoiar o ex-presidente se este tiver o aval do patriarca dos Oliveira do município de Lavras da Mangabeira (também herdeiro politico por casamento do clã do “saudoso” Paes de Andrade conhecido como o “Estadista de Mombaça”), e Lula conseguiria para Eunício alguns milhões de votos essenciais para garantir por mais 8 anos a sua cadeira no Senado.

Mas esta é a hipótese otimista, a da troca de apoios entre Lula e Eunício. Porque a outra hipótese é que a contrapartida de Eunício sequer ocorra, já que é um exercício de candura imaginar que se o TRF-4 condena Lula abrindo-se a janela legal para a impugnação da sua candidatura, o ex-presidente trafegue até 15 de agosto sem ser alvo de uma campanha de bombardeio midiático com todo o arsenal da mídia corporativa para desconstrução da sua imagem. Doses diárias de “pareceres” dos juristas de sempre, fatos e factoides relativos aos outros processos, difusão permanente da informação da inescapável cassação da sua candidatura dificilmente deixarão de ter impacto nos índices de apoio eleitoral a Lula. O adversário joga, e joga pesado. Ninguém pode se dar ao luxo de ignorar isso. Com índices de apoio em queda, Lula não tem nenhuma garantia da fidelidade dos Eunícios, que hoje abundam pelo país afora.

Como acerto eleitoral até eu que sou português consigo perceber que o negócio é ruim. E tenho certeza que Gleisi acabará por chegar à mesma conclusão. Como opção política, é desastroso, porque não opera na única lógica possível que é a de buscar a derrota das oligarquias nos executivos e nos legislativos como condição necessária para que golpes como o de 2016 e agendas de guerra de classes contra os trabalhadores não prosperem mais nos parlamentos brasileiros

A SUPERAÇÃO DO LULISMO E O ELIXIR DA LONGA VIDA

Desde 1989 com as primeiras eleições presidenciais pós-ditadura, que o sistema politico brasileiro se organiza em torno da polarização entre Lula e uma alternativa à direita. De 1994 para cá, o PSDB ocupou este lugar. Lula vence em 2002 liderando um amplo movimento na sociedade, gestado desde os anos 80, que veio a ser chamado de Lulismo. Com a derrubada de Dilma Roussef e o desgaste dos 13 anos de reformismo fraco dos governos petistas, se reacende na esquerda o debate sobre a superação do Lulismo.
Lula não é uma liderança de esquerda, ele próprio não se reivindica assim, mas o Lulismo é um fenômeno social de esquerda.  A sua superação não se dará com bravatas nem em um momento mágico, catalizador e definitivo. Não bastará a apresentação de uma candidatura presidencial estreita, com um programa demarcatório e um discurso sectário para que o Lulismo possa ser superado. Enquanto fenômeno social representativo das classes trabalhadoras, o Lulismo não é fenômeno único na história brasileira. O Getulismo/Trabalhismo ocupou este espaço por décadas, assim como o seu sucedâneo , o Brizolismo, até o início dos anos 90, embora com peso mais localizado nos estados do sul e no Rio de Janeiro.
Fenômenos desta natureza não se superam sem a conformação de alternativas com peso de massa e viabilidade na disputa de poder. A construção de uma alternativa de esquerda ao Lulismo não é tarefa simples, nem de viabilização imediata. Não há atalhos. Só com a aglutinação crescente de parcelas expressivas da intelectualidade, da academia, das classes médias progressistas, das vanguardas dos movimentos sociais, sindicais, sem terra, sem teto, mulheres, LGBT, povos indígenas e quilombolas, da esquerda católica, da consolidação de um núcleo de esquerda dentro do movimento evangélico, se terá a massa critica necessária a viabilizar uma alternativa.
Boa parte destas lideranças compartilham da mesma critica que fazemos à experiência dos 13 anos de Lulismo no poder. Seja pelas limitações programáticas, a escolha de não usar os espaços de poder para organizar o conflito de classes optando pela composição de interesses sem disputa, seja o modelo de governabilidade que primou por deixar intocadas as estruturas oligárquicas e se compor com elas, inclusive nos métodos de subordinação do Estado aos interesses privados. A critica às escolhas do Lulismo são amplas, mesmo na base social que ainda está sob sua hegemonia.
Sem deslocar parcelas significativas destes setores para outro projeto, não se supera o Lulismo como principal força referencial da esquerda. E isto só ocorrerá quando um novo projeto demonstrar capacidade de influir na disputa política real e perspectiva de se constituir em alternativa de poder. Neste sentido, mais do que a pressa em definir um candidato presidencial, é necessário construir um processo que tenha capacidade real de aglutinar força e de incidir sobre a base social e de ativistas do Lulismo.
Não existem atalhos, não há soluções maximalistas, e a possibilidade de não ter resultados expressivos a curto prazo é real. No século 19 prosperaram farmacêuticos ambulantes que vendiam o Elixir da Longa Vida. Não consta que alguém tenha vivido uma semana a mais pelo consumo dessas gororobas. Hoje existem os que apontam a possibilidade da Revolução Brasileira para daqui a pouco.
É propaganda enganosa.