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A ASCENSÃO DO BOLSONARISMO E O BALANÇO DAS ELEIÇÕES

Analisar o resultado das eleições de 2018 passa por fazer um longo balanço dos 13 anos de governos petistas, das mobilizações de junho de 2013, do golpe parlamentar de 2016, da crise economica e dos desacertos táticos da esquerda em 2018.

LULA NO GOVERNO

Lula eleito em 2002 e reeleito em 2006 com mais de 60% dos votos, conduziu um governo que abriu mão de usar seu capital politico para realizar reformas estruturais no país. O movimento social e politico que desde o inicio dos anos 80 impulsionou o PT, viabilizando uma enorme corrente de opinião e anseio por reformas estruturais não se transformou a partir de 2003 numa ação de governo que estivesse á altura dos desafios; reforma agraria para democratizar a propriedade da terra, reforma tributária para inverter os custos de sustentação do estado hoje majoritariamente a cargo dos mais pobres, enfrentamento ao rentísmo encastelado nas maiores taxas de juros do planeta com a perversa consequência de agravamento da distribuíção de renda, mudança na legislação de meios de comunicação enfrentando os monopólios privados, e reforma politica criando mecanismos de democracia direta e reduzindo peso do dinheiro nos processos eleitorais compunham uma agenda que estava na cabeça dos milhares de ativistas que foram essenciais á vitória de Lula. Todas e cada uma dessas agendas foram abandonadas pelo PT. Seria razoável supor que o seu sucesso dependeria da correlação de forças mas esta mesma correlação se altera com a disputa politica. Derrotas também fazem parte do processo de politização da base social. Lula se caracterizou no seu governo por construir consensos sem disputa. A cada “consenso” maior a desmobilização da sua base.

Surfando um período de forte crescimento econômico Lula distribuiu renda na base da pirâmide social sem precisar enfrentar privilégios das elites. Programas importantes foram desenvolvidos como por exemplo o Bolsa Família, o Luz para Todos, o programa de cisternas no semiárido, o apoio á pequena agricultura , o aumento real do salario mínimo, a expansão da rede publica de universidades .O período de forte crescimento econômico permitiu ganhos reais de renda para setores expressivos das classes trabalhadoras que aumentaram seu padrão de consumo. Se isso fidelizou a Lula e ao PT contingentes expressivos do eleitorado particularmente no nordeste, a ausência de disputa politica não reforçou a consciência de classe nem educou essa base social para a necessidade da mobilização.

Só por ingenuidade se poderia achar que uma força progressista vencendo as eleições presidenciais em minoria no Congresso, a esquerda teria no máximo cerca de 170 deputados em 2003 numa câmara de 513, poderia governar sem acordos pontuais com setores da burguesia. Explorar as contradições no interior das classes dominantes e nas suas representações politicas faz parte do jogo. Mas seria crucial entender que a disposição destes setores em negociar só existiria mediante a permanente disputa politica por parte da esquerda e da pressão de massa capaz de influir na correlação de forças. A opção do PT de abandonar o confronto e a disputa a troco de pactuações a frio revelou-se catastrófica.Da mesma forma a diluição das diferenças com as lideranças oligárquicas nos estados contribuiu para o desastre. Cada vez que Lula chamou Sarney de companheiro , cada vez que uma liderança petista rezou com Malafaia, cada vez que Lula pediu voto para um prócer Pmedebista ,um tijolo no impeachment de Dilma foi empilhado. Da capitulação do governo Dilma em levar adiante a Cartilha Contra a Homofobia nasceu o “Kit Gay” usado nas redes de whatzap em 2018.Da acomodação com as cúpulas conservadoras das igrejas evangélicas nasceu a reação ás pautas libertárias . Ao invés de disputar os trabalhadores evangélicos pela base, buscou-se o apoio por cima das suas lideranças que, fortalecidas, construíram a agenda que derrotou a esquerda nas periferias das grandes cidades em 2018.

JUNHO DE 2013

Junho de 2013 mostrou o aprofundamento da impaciência de parte da juventude urbana com a insuficiência dos serviços públicos. Um movimento que começa pedindo mais Estado, educação e saúde padrão FIFA , melhorias na mobilidade urbana e redução das passagens foi tratado pelo PT como orquestração inimiga. Fernando Haddad , prefeito de S.Paulo epicentro inicial do movimento, dá entrevista junto com Alkmin negando o atendimento das reivindicações. Foi o toque de reunir para a direita buscar se apossar das mobilizações. Pautas estranhas ao movimento brotam do chão como a rejeição á PEC 37, o discurso anti-partido se espalha e quando finalmente as mobilizações murcham temos como saldo a constatação que a extrema direita havia ganho o gosto pelas ruas. 2013 não foi por obvio uma orquestração da direita como setores do petismo sustentam para ocultar seus erros, nem foi um avanço do movimento de massas hegemonizado pela esquerda como poderia ter sido se a principal força tida socialmente como de esquerda, o PT, não tivesse reagido tão mal, como outros setores da esquerda equivocadamente sustentam.

O SEGUNDO GOVERNO DILMA E O DESASTRE

Ao aprofundamento da crise em 2014 o segundo governo Dilma reage adotando o programa econômico da oposição conservadora e mergulhando o país numa recessão planejada de grosso calibre. A ação de Eduardo Cunha boicotando o governo e aprofundando a crise era um movimento esperado; não o perceber e tentar sair do beco politico concedendo ás elites a adoção do seu programa econômico fez com que o PT perdesse o apoio da sua base social. O governo do PT era um governo de conciliação de interesses de classe a frio, sem disputa, tolerado pela burguesia mas nunca acolhido por ela. As alianças ao centro construídas com base no compartilhamento da gestão do estado da forma tradicional como se ao PT fosse concedido pela elite o privilegio do aparelhamento por ela exercido durante 500 anos, criaram uma ilusão de governabilidade e sustentabilidade do governo. Ao primeiro sintoma de fragilidade perante a sua base social a aliança se desmontou e a corrupção, sistêmica ao histórico modelo de gestão do estado brasileiro e adotado pelo PT , passou a ser usada para desmoralizar Lula, Dilma e os seus governos.

O EMPODERAMENTO DO JUDICIÁRIO E O DESMONTE DO SISTEMA
POLITICO

O balanço dos erros estratégicos não se resume aos erros do PT. Toda a esquerda, PSOL incluído, capitularam frequentemente as ações de desqualificação da politica e dos poderes eleitos e apoiaram o empoderamento do judiciário. A agenda de esvaziamento dos poderes eleitos vem de longe. Desde a Lei de Responsabilidade Fiscal que retira poderes aos governantes eleitos, passando pela independência de fato do banco central que retira importante instrumento de governo das mãos da Presidência da Republica até chegar á famigerada lei da Ficha Limpa , apoiada por todas as bancadas da esquerda e que coloca sob tutela do judiciário a definição de quem é elegível e quem não é elegível pelo povo brasileiro.

A PEC 37 que buscava separar as funções de investigação a cargo das policias da função de oferecimento de denuncia, a cargo das procuradorias foi torpedeada pela direita sem resistência . Temos hoje a singular situação em que os que oferecem a denuncia conduzem também as investigações. Investiga-se portanto para corroborar denuncias . O mais conservador dos 3 poderes da Republica , o único não eleito , composto pela meritocracia tal como a conhecemos por estes trópicos , exorbitou suas funções nos últimos anos comprometendo as liberdades democráticas. Setores minoritários do PSOL apoiaram a Lavajato embarcando de forma acrítica num movimento que tinha como alvo a derrubada do PT ainda que ao preço da desmoralização de todo o sistema politico. A ilusão que a alternativa de poder poderia ser á esquerda desconsiderou a correlação de forças e o crescente avanço conservador visível desde 2013 na base da sociedade .

O GOVERNO TEMER E O APROFUNDAMENTO DA CRISE

Consumado o golpe parlamentar de 2016 o governo Temer aprofunda as medidas econômicas recessivas e de desmonte do estado, prolongando a crise. O aumento exponencial do desemprego e a perda de renda mergulham de volta na pobreza setores que nos anos anteriores tinham experimentado algum nível de ascensão social. A rápida desmoralização do governo composto pelas alas mais apodrecidas do sistema político , fazendo com que Temer tenha por duas vezes sido submetido a votações no Congresso que se aprovadas resultariam no seu impedimento, consolidam na sociedade um forte sentimento de mudança. O judiciário em ação concertada com a burguesia retira Lula da disputa e o condena num processo totalmente desprovido de provas . Das lideranças egressas do que era socialmente percebido como o “sistema politico” Lula era o único que preservava base de massa para ser um candidato competitivo. O PSOL assim como corretamente se opôs ao Impeachment , também se opôs á prisão de Lula por nós claramente entendido como iniciativa de caráter golpista feita sob medida para viabilizar uma alternativa eleitoral das elites.

AS ELEIÇÕES DE 2018

O processo eleitoral de 2018 foi peculiar. O favorito nas pesquisas, Lula , segurou a campanha eleitoral até meados de setembro numa tática de alto risco buscando manter sua candidatura ao limite do possível. Só com a derrota do ultimo recurso jurídico, Lula lançou a candidatura de Fernando Haddad. Com pouco tempo de campanha pela frente o PT, principal força do campo progressista , precisou concentrar seus esforços na transferência de votos para Haddad. Embora bem sucedido nesse objetivo, o preço pago pela opção de manter o protagonismo com o ex-presidente foi que Bolsonaro não foi combatido no primeiro turno. O PSOL sem tempo de TV tentou cumprir esse papel , mas praticamente o fez só. Ciro Gomes mais empenhado em disputar a vaga com Haddad centrou esforços em pregação de voto útil apresentando-se como o único candidato capaz de vencer Bolsonaro, hipótese essa que figura mais no terreno da sua vontade que numa avaliação realista do que se tenha transformado o anti-petismo.

A campanha subterrânea do Bolsonarismo com a profusão de noticias falsas encontrou terreno fertilizado por uma intensa disputa ideológica anti esquerda realizada desde 2013. Seria um erro grave apontar as “fake news” como as responsáveis pela vitória da extrema direita. Esse é um recurso velho , usado pelo menos desde Goebels nas campanhas do partido nazista e sempre repetido pela extrema direita. A intensa campanha feita pelas redes de TV nos últimos anos são a versão mais cheirosa e limpinha das Fake News mas delas não se diferenciam na essência. A novidade de 2018 é a tecnologia de disseminação via Whatzap já usada em menor escala nos EUA com Trump , no Brexit na Inglaterra e por aqui mesmo em 2016 no segundo turno do Rio de Janeiro pela campanha Crivela.

O anti petismo é na sua essência anti esquerda. Ao transferir da sociedade para o Estado o problema da corrupção constrói uma narrativa anti estado , justificadora do seu desmonte. Ao mediatizar julgamentos de denunciados fulaníza a corrupção tirando dela o seu carácter sistêmico e preparando o terreno para que os “homens bons da Republica” se apresentem como salvadores da Pátria. Cada vez que a esquerda contemporizou com a Lavajato, cada vez que ajudou a mediatizar julgamentos , cada vez que se somou ao empoderamento do judiciário, soprou as velas da nau de Bolsonaro

O PSTU e alguns setores minoritários do PSOL flertaram com o anti-petismo não entendendo o seu caráter reacionário. Imaginar que a oposição de esquerda poderia a partir de 2013 hegemonizar uma saída de superação do Lulismo só poderia partir de setores que naquela altura negavam a existência de uma onda conservadora. Esse foi um dos debates no Congresso do PSOL de 2015. A história deixou claro quem tinha razão.

A candidatura de Guilherme Boulos foi um acerto numa conjuntura eleitoral muito difícil. Pela primeira vez o PSOL apresentou um programa á disputa presidencial digno desse nome. Boulos incidiu no debate construindo uma respeitabilidade que vai muito além da sua votação prejudicada por ondas de “voto útil”. Eleitores do PSOL e até militantes fraquejaram na sustentação do seu voto no primeiro turno numa clara incompreensão do que significa a existência de 2 turnos, e no mais absoluto descolamento do que seja o Brasil. Alguns votaram em Haddad com medo da vitória de Bolsonaro no 1 turno como se migrar votos entre os candidatos progressistas fizesse alguma diferença na existência do segundo turno; outros imaginando que o Brasil fosse a sua bolha nas redes sociais votaram em Ciro atrás de uma hipotética maior chance de vitória no 2 turno, não entendendo que o maior potencial de Ciro se resumia ás classes medias com possível prejuízo nas áreas populares onde Haddad e o PT tinham vantagem ,particularmente no nordeste.

O PSOL dobrou o numero de deputados eleitos conseguindo 2,99% dos votos validos para deputado federal , quase o dobro da clausula de barreira. Esse resultado demonstra o acerto da linha politica seguida pela direção nacional do partido desde que em 2015 Eduardo Cunha abriu o processo de impeachment. O PSOL foi o único partido do campo progressista que cresceu em numero de votos e em bancada.

A esquerda como um todo e o PSOL em particular errou na sua tática eleitoral nas disputas do Senado. Eleição majoritária em turno único obrigava, perante a ascensão do fascismo, a conformação de acordos informais desde o primeiro turno. No Rio de Janeiro, em Minas, S.Paulo e Rio Grande do Sul foi um grave equivoco o lançamento de chapas completas por parte da aliança que apoiou Guilherme Boulos assim como por parte do PT que fez o mesmo com exceção do Rio de Janeiro. Reivindicamos como correta a posição que defendemos de apoio no Rio de Janeiro a Chico e Lindberg para o Senado. A subestimação da ascensão do fascismo levou a que se pensasse a disputa do Senado como se estivéssemos em 2014.As derrotas, inesperadas para alguns, de Suplicy em S.Paulo e de Dilma em Minas mostram o tamanho do equivoco.

A RESISTÊNCIA EM TEMPOS DE BOLSONARO

A brutal mudança de cenário aberta com a vitória do candidato fascista nos obriga a pensar a nossa ação em três dimensões. A defesa das liberdades democráticas em frente ampla com todos os setores que se coloquem contra o avanço autoritário; a ação em frente de esquerda na defesa dos direitos sociais e contra o desmonte do Estado com as Centrais Sindicais, os movimentos sociais e os partidos políticos que integram as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. A consolidação da relação com o PCB , o MTST e a APIB que fizeram parte da campanha Boulos na disputa ideológica e de projeto na base da sociedade.

O movimento das mulheres , a campanha do #elenao# e 47 milhoes de votos em Haddad ,deixam claro que temos base social para resistir. A campanha “viravoto” na reta final mostram que temos militância capacitada a travar a disputa. A eleição de um presidente fascista não transforma o Brasil numa ditadura . Mas o período politico é outro. Não podemos permitir do nosso lado táticas aventureiras e nem podemos ter tolerância com provocadores sejam infiltrados , sejam inocentes uteis. Desta vez isso dirá respeito á segurança de todos.

O fascismo usa e manipula o medo para tolher a resistência ao seu projeto. Recuar perante a intimidação facilitará a vida do Bolsonarismo. Sem recuos na luta mas sem provocações e principalmente sem ações vanguardistas , esse deve ser o caminho da esquerda.

Coletivo A ESQUERDA – PSOL

BALANÇO DAS ELEIÇÕES DO RIO DE JANEIRO E A SÍNDROME DE CLAUDIO COUTINHO

Perdemos a eleição do Rio de Janeiro porque não tínhamos como vencer. Reza a lenda que o Rio é uma cidade progressista, com tendência à esquerda. Mas, pelo menos nas disputas municipais, essa lenda não encontra muito respaldo na realidade. Desde os anos 1980, com Saturnino Braga em 1985 e Marcelo Alencar em 1988, que candidaturas socialmente vistas como de esquerda (sim, era desse jeito que Marcelo Alencar era visto em 1988) não vencem as eleições.

Desde 1992, quando Benedita da Silva perdeu por 52% a 48% para Cesar Maia, que a esquerda sequer conseguia disputar o segundo turno. Em 1996, 2000 e 2008 o segundo turno foi disputado por duas alternativas à direita. Em 2004 e 2012, a direita venceu no primeiro turno.

Agora em 2016, Marcelo Freixo chega ao segundo turno com pouco mais de 18% dos votos, beneficiando-se da fragmentação da direita não religiosa em quatro candidaturas, uma delas, a de Bolsonaro Filho, de extrema direita, e da migração do voto útil de eleitores que tinham as outras duas candidaturas vistas como progressistas como primeira opção. Somando-se à votação de Freixo à votação de Alessandro Molon e Jandira Feghali, chegamos a cerca de 23% dos votos válidos. Cerca de 77% dos eleitores votaram em candidaturas à direita do espectro politico.

Essa conta evidentemente não é exata porque boa parte do eleitorado não usa esses critérios de direita e esquerda na definição do seu voto. Identificações culturais, estéticas, simbólicas e fundamentalmente a percepção do que sejam seus interesses imediatos e quem os pode melhor representar, são elementos essenciais na definição do voto.

No segundo turno, Freixo ampliou em cerca de 600 mil votos sua votação, sendo que pouco menos de 150 mil vieram de eleitores de Jandira e Molon. Os restantes vieram de eleitores que fizeram sua escolha pela defesa dos valores do Iluminismo contra uma alternativa vista como teocrática. Provavelmente a nossa geração jamais voltará a ver um candidato socialista vencer as eleições no Leblon e perder de pouco em Ipanema.

A DERROTA NA PERIFERIA

A derrota da esquerda está exatamente nas áreas da periferia onde se concentra o eleitorado que é em tese o maior beneficiário do programa “redentor“ que defendemos. Esse é o centro do balanço a ser feito. Há uma crise de credibilidade da esquerda provocada pela falência do projeto do PT, que alguns setores do próprio Psol sonharam que não nos atingiriam.

Discursos de que o PT não é esquerda e logo nada temos que ver com isso, entendem a política a partir de proclamações programáticas e não da percepção social do que os vários atores representam. Fizemos oposição aos governos de Lula e Dilma, mas os valores pelos quais esses governos são avaliados pelo povo são os mesmos que defendemos: a solidariedade, a igualdade, a liberdade, o papel do estado como agente redistributivo de renda, dentre outros. E tudo isso entrou em crise junto com a crise do PT. Em política, o que parece, é.

Essa, no entanto, não é a razão da nossa derrota. Porque essa crise não explica a prolongada ausência da esquerda da disputa real desde 1992. A razão da nossa derrota são as nossas insuficiências e a dificuldade de entender, ouvir e reconhecer legitimidade no outro. Tenho visto por aí avaliações reducionistas, que no fundamental apontam a ignorância do povo pela nossa derrota. Afinal, se temos um programa redentor, que por óbvio é o que melhor atende os interesses da maioria , só dois tipos de pessoas podem se opor a nós: os mal intencionados e aqueles que os primeiros manipulam. Desse raciocínio deriva outro que se tivéssemos vencido nos causaria enormes problemas, o de que governaríamos sem alianças.

DISCURSO QUE NÃO AJUDA

Neste caso, não ajudou o discurso de Freixo de que nosso secretariado seria técnico. Optando por não enfrentar a onda da antipolítica, Freixo reforçou a confusão entre a daninha lógica do presidencialismo de coalizão que vigora também em Estados e Municípios baseado na formação de bases parlamentares assentes no loteamento do aparelho de estado com a decorrente praga associada da corrupção estrutural, e a necessária conformação de alianças programáticas ainda que com concessões, essenciais numa democracia onde invariavelmente o vencedor não representa a maioria absoluta. Vigora no PSOL de uma forma geral, e no Rio em particular, a ideia do não reconhecimento da legitimidade das outras representações politicas e que, portanto, qualquer negociação seria imoral. As experiências em Porto Alegre com Olívio Dutra, de Erundina em São Paulo e de Edmílson em Belém, nos anos 1980-90, onde a esquerda governou em minoria nas câmaras, não nos autoriza a essa interpretação. Pressão e negociação ocorreram o tempo todo e só assim se conseguiu governar.

A derrota nas áreas populares, e em particular no segmento evangélico que decidiu a eleição contra nós, merece uma reflexão detalhada. Segundo o Datafolha, 91% a 92% dos eleitores evangélicos pentecostais votaram em Crivella e de 8 a 9% em Freixo. Entre os evangélicos tradicionais foi algo entre 85% a 86% a 14% a 15%. Como os evangélicos são cerca de 28% do eleitorado e tiveram um índice de comparecimento maior e de voto branco e nulo bem menor podemos inferir que foram responsáveis por um terço dos votos válidos. Perdendo a grosso modo de 30 a 3 em um terço do eleitorado válido, não é possível vencer a eleição.

A classe média e a esquerda no geral carregam um enorme preconceito contra os evangélicos reduzidos à condição infantil de pessoas facilmente manipuladas por pastores inescrupulosos. Contribuem para a formação desse esteriótipo as cenas deploráveis de mercadores da fé que com frequência aparecem em programas comprados de TV, os pastores Valdomiros, RR Soares , Bispa Ingrid Dutra e seu amado esposo, dois picaretas escrachados. Mas o mundo evangélico é muito maior que isso e felizmente bem mais plural, ainda que majoritariamente muito conservador. E os 8 a 9% de evangélicos pentecostais que declaravam voto em Freixo mostram que tem como disputar. Mas é preciso trabalho de base de médio para longo prazo.

BANDEIRAS IDENTITÁRIAS

O Psol em geral, mas particularmente no Rio, se consolidou como expressão política de bandeiras identitárias. Luta feminista, LGBTT, anti racista, causas absolutamente imprescindíveis porque lidam com opressões concretas, mas até por não terem corte de classe, são insuficientes para construir hegemonia na sociedade. Em pouco mais de dez anos de construção, e mesmo sem se omitir em nenhum momento nesses enfrentamentos, o Psol não conseguiu se tornar referência de representação politica nas lutas por direitos sociais como habitação, transporte, saúde, educação, trabalho e segurança. Em algumas destas lutas, somos referência para parte das vanguardas, mas sem maior expressão de massa. Sem conseguir ter maior protagonismo e reconhecimento social nestas causas e sem disputar o segmento evangélico, não teremos como vencer eleições no Rio de Janeiro, nem na capital e muito menos no estado.

Nenhuma destas insuficiências, razão maior da nossa derrota, é de fácil superação. Mas como sempre diz o nosso deputado Glauber Braga, nós estamos entre aqueles que não escolheram o caminho fácil da vida. Tenho nos últimos dois anos em particular, debatido e feito formação politica para público evangélico. Entender a razão do crescimento acelerado do protestantismo pentecostal nas periferias é o primeiro passo para conseguir disputar politicamente esse segmento. É difícil fazer reuniões politicas na baixada fluminense aos domingos, dia dedicado à Igreja, não apenas ao culto, mas à Igreja como espaço de sociabilidade, como sentido de pertencimento, como espaço onde as pessoas se sentem acolhidas e valorizadas.

A base evangélica não é composta por pessoas infantilizadas, manipuladas por seus pastores. É constituída por trabalhadores que ralam no transporte precário, nas filas do SUS, na precariedade do ensino público, no domínio das milícias ou do trafico, e que encontram na Igreja muito mais que a religião redentora, mas o apoio psicológico, e muitas vezes material, para enfrentarem as dificuldades da vida.

MANIPULAÇÃO E DISTORÇÃO

A nossa agenda identitária, usada contra nós por Crivella com recurso à manipulação e distorção, pode e deve ser debatida com evangélicos. Temos feito isso com sucesso, embora de forma muito limitada por não ser uma preocupação assumida pela maioria do partido no Rio. Casamento civil igualitário, como garantidor de direitos como pensão, herança, compartilhamento de planos de saúde; educação sexual nas escolas, como prevenção a uma das pragas das periferias que é a gravidez na adolescência e as doenças sexualmente transmissíveis; tolerância à diferença de orientação sexual que começa a se manifestar na adolescência, afinal ninguém deve ser vítima de bullying e isso é um principio cristão, dentre outros tema. Devidamente debatida, a nossa agenda pode dialogar com a classe trabalhadora evangélica. Assumir mais protagonismo na agenda de direitos sociais também ajudaria. Enquanto tivermos no Psol dirigentes que comparam a Marcha para Jesus, que reúne mais de 500 mil pessoas , com passeatas da Ku Klux Klan, vai ser difícil superar esse desafio.

A grosso modo, estas são as nossas insuficiências, impossíveis de serem superadas numa campanha, mas possíveis de serem com trabalho de médio prazo. Compreender e aceitar a legitimidade de outras representações, abandonarmos uma certa arrogância característica dos que se acham condutores da história, aceitar a legitimidade da nossa derrota e buscar aprender com ela, superar a síndrome de Claudio Coutinho. que após a derrota na Copa de 78 na Argentina se proclamou campeão moral.

Já avançamos muito até aqui, mas é maior o caminho pela frente que aquele já trilhado.

SOBRE O DEBATE ENTRE FREIXO E CRIVELLA NA BAND

Acho que Freixo foi bem no debate, mostrou mais consistência programática que Crivella. No entanto, tem alguns problemas.

A frase síntese de Crivella é “vou governar para as pessoas”. A frase síntese de Freixo é “vou governar com as pessoas”. Aqui, Freixo demostra correta preocupação com as aspirações de democracia inclusiva, agenda da modernidade num mundo onde a democracia representativa vive uma enorme crise. No entanto, essa demanda é restrita à “tribo” que já vota ou tende a votar em Freixo. Para a outra “tribo”, onde Crivella prospera, democracia é escolher a cada 4 anos aquele que na administração de parcela do estado vai “fazer por nós”. Um dos problemas desta eleição é que esta segunda tribo é maior que a primeira.

Embora seja correto manter a proposta de ampliar a democracia para além dos momentos eleitorais, não será em 20 dias que esse conceito se tornará hegemônico. Logo, é preciso falar a linguagem capaz de chegar à parcela que espera que o prefeito faça , realize, resolva. Como diz Crivella, que “cuide das pessoas”.

Logo na primeira pergunta sobre qual seria a primeira iniciativa ao tomar posse, Crivella foi direto: “vou resolver a fila das cirurgias na área da saúde”. Freixo disse que iria reunir com os profissionais de educação para discutir com eles como seria a nova escola, inclusiva, capaz de formar cidadãos, com autonomia pedagógica, inserida na comunidade. Ambos falaram para tribos diferentes. O problema é que a tribo do Crivella tem mais índios.

Sem falar para esta parcela do eleitorado , não dá para vencer a eleição.