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ADEUS CAMARADA

Nesta madrugada Marcelo Biar faleceu de Covid 19 no hospital de campanha do Leblon. Conheci Marcelo no final de 2016 mas é como se o conhecesse de toda a vida. Candidato a vereador pelo PSOL naquelas eleições municipais, nos procurou após a eleição querendo participar do nosso coletivo ainda em formação, o coletivo A ESQUERDA. Ele tinha sofrido um infarto naquele ano mas mesmo ainda se recuperando fez a campanha.
Marcelo tinha sido diretor da escola do complexo penitenciário de Bangu por 4 anos e essa experiencia marcou sua vida e militância. Ativista de direitos humanos com foco nos direitos dos cidadãos privados da liberdade , Marcelo desenvolveu relações com familiares de presos, com ex-presos, e dedicava boa parte da sua militancia á defesa desta parcela esquecida da sociedade. É de sua inspiração o projeto de lei do deputado Glauber Braga que garante direitos trabalhistas aos presos que trabalham no presidio, com direito a salário mínimo e desconto previdenciário, proposta escolhida pelos fascistas em 2018 para uma saraivada de Fake News contra Glauber e o PSOL.
Marcelo foi fundador e era presidente da ONG Instituto por Direitos e Igualdade , IDI, que tinha como foco estas causas. Uma ação do IDI teve acolhimento na justiça obrigando o governo do estado em 6 de abril deste ano , a garantir em ate 3 dias materiais de limpeza, , higiene e proteção para o sistema penitenciário com equipamentos de EPI para os agentes penitenciários, fornecimento de luvas e álcool em gel. No final de junho ele comemorava a nova sede do IDI conseguida numa licitação de imóveis abandonados da prefeitura do Rio , o que dinamizaria muito as atividades do Instituto.
Marcelo nos representava como membro da Comissão Executiva do Diretório Estadual do PSOL-RJ. Não consigo imaginar a minha militância nos últimos anos sem a presença do Marcelo. Quantas atividades de formação politica fizemos juntos. Campos, Teresópolis, Tanguá, Araruama, S.Gonçalo, Areal, Paraiba do Sul, Trés Rios, Barra do Pirai, Baixada. Onde quer que fosse ,se tivesse a presença de pessoas de bairros periféricos, sempre tinha algum parente de preso ou ex-preso, que após a exposição do Marcelo perdia o medo de falar da sua situação e dava seu depoimento. Sempre saia algum contato novo para organizar as famílias de presos.
Marcelo era um otimista. Se engajava em movimentações politicas com uma fé nos seus interlocutores que beirava a ingenuidade. isto não é uma critica, mas um elogio. Só os puros de alma têm esse dom. E com essa boa fé vinha uma disposição de buscar o impossível e com frequência tendo sucesso.
Nestes anos Marcelo Biar foi indispensável. Não consigo imaginar a minha militancia sem a sua presença . Em mensagem que me enviou dia 1 de julho manifestava seu desespero com a progressão da Covid nos presídios face á indiferença da sociedade e do estado. Em 10 dias ele próprio estava internado. Em mais 15 dias faleceu .
Gostaria de encerrar este texto dizendo que Marcelo estará presente em cada um de nós e que suas bandeiras não ficarão pelo chão, nós as carregaremos e daremos continuidade ao que ele fazia. Mas não consigo. Só me vem á cabeça a frase de Bertold Brecht : “ há homens que lutam um dia e são bons, há homens que lutam um ano e são melhores, mas há homens que lutam a vida toda, esses são os insubstituíveis”.
Não terá velório, não terá enterro, será cremado sem a presença de ninguém. É a morte em tempos de Covid. Não teremos o abraço uns dos outros, não teremos o ombro, não teremos o choro coletivo. A nós que ficamos nos resta o isolamento social, a mascara e o álcool em gel. E continuar acordando todos os dias com um psicopata criminoso e negacionista na presidência da Republica.

SOBRE O IMPEACHMENT DE CRIVELLA

Bancadas do PSOL e PT votam pelo impeachment de Crivella que obviamente não passou porque foi apenas uma operação de chantagem conduzida pela banda mais podre da câmara. Do outro lado da calçada do palácio Pedro Ernesto nenhum transeunte sabia das razões do impeachment ; talvez sequer soubesse que esta votação estava ocorrendo. Vai ser difícil explicar na campanha de 2020 quando Crivella se apresentar como vitima de uma tentativa de golpe que a situação dele era diferente da Dilma porque blá blá blá.

Que tinha irregularidades nos contratos, é obvio. Que o Crivella pudesse ser responsabilizado diretamente por isso, é polêmico. Que o povo do Rio de Janeiro tivesse a menor noção do que se passava, é um sonho.

Naturalizar o impeachment é um desserviço à esquerda. Essa figura jurídica existente na nossa legislação é um instrumento da elite para se livrar dos governantes disfuncionais a tempo de se recompor para as próximas eleições. Ou para derrubar a esquerda. Serve também para maiorias nas câmaras chantagearem os prefeitos como foi o caso. Obviamente na hora da votação sobraram só os inocentes uteis; PT e PSOL foram os únicos partidos a votar em bloco pelo impeachment. Ressalvo aqui que o vereador Leonel Brizola foi contrario no debate interno do PSOL sendo voto vencido na bancada. Legitimo herdeiro da sabedoria do seu avô.

Se Marcelo Freixo vencer as eleições em 2020 , no primeiro dos vários pedidos de impeachment que ocorrerão o líder do governo vai ter que rebolar para dizer que a situação nada tem que ver com a de hoje. Difícil vai ser explicar para os transeuntes do outro lado da calçada do palácio Pedro Ernesto.

“IMPEACHMENT DE CRIVELLA” ,QUEIMA DE ARQUIVO OU APENAS UMA NEGOCIATA?

Semana passada a câmara de vereadores do Rio tentou, e por 1 voto não conseguiu, mudar a lei orgânica para transformar em indireta a eleição de prefeito em caso de afastamento. Essa manobra consolidaria a derrubada do desastroso prefeito Crivella e sua substituição por um vereador , provavelmente da bancada do MDB. Ontem , desta vez com apoio da esquerda, PSOL e PT , a câmara abriu processo de impeachment com 36 votos dos 34 necessários.

Para quem não aguenta mais o desgoverno de Crivella a noticia parece ser boa. Parece, mas não é. A comissão constituída para analisar o processo tem 90 dias para levar o seu parecer ao plenário que ai votará se confirma o impeachment ou não. Alguns desavisados podem achar que serão 90 dias de analise do fato causador do pedido de impeachment. Na verdade serão 90 dias para Crivella conseguir cooptar 2 vereadores impedindo dessa forma a maioria qualificada para sua derrubada ou para o MDB conseguir o voto que lhe faltou para mudar a lei orgânica e estabelecer a eleição indireta.

Em qualquer hipótese nós perdemos no final. Derrubado Crivella, a direita terá ano e meio para se recompor e chegar as eleições de 2020 com competitividade, sem precisar arrastar o cadáver desta administração pelas calçadas. Para os de boa memoria, o governo Itamar foi essencial para a vitória de FHC em 1994. Essa é a hipótese “queima de arquivo”. De quebra Crivella sai de vitima, com o discurso pronto de que o impediram de “cuidar das pessoas”. Colará para alguns, particularmente para o eleitorado evangélico. Por favor, assistam a cobertura da TV Record.

Essa possibilidade porem medirá forças com a outra que é Crivella aceitar os pleitos de parte da câmara e partilhar mais o seu governo com os nobres edis. Façam suas apostas. Nessa hipótese Crivella fica e chega a 2020 acusando a esquerda de ter participado de uma tentativa de golpe contra a sua administração.

Mas o mais grave é a fragilização dos mandatos eletivos. Com a democracia em risco desde 2016 cresce o avanço do judiciário sobre o legislativos e executivos , e dos legislativos sobre os executivos. Recentemente o prefeito de Niterói foi preso preventivamente e afastado de suas funções por decisão monocrática de juiz de 1ª instancia. Prisões preventivas também foram alegadas para tentar impedir a posse de deputados eleitos em 2018, manobra corretamente abortada pela mesa diretoria da ALERJ . Aqui não vai nenhuma defesa dos ditos deputados que não são suspeitos de honestidade mas a defesa do voto popular que não pode ser anulado por decisões do judiciário não transitadas em julgado.

Reforçar precedentes de cassação de mandatos eleitos pelos legislativos tornará mais frágeis os governos de esquerda. Frequentemente com minoria nos respectivos legislativos passarão a viver sob crescente cerco . Cassado Crivella , o próximo prefeito do Rio principalmente se for de esquerda, será vitima de vários pedidos de impeachment protocolados por quaisqueres tecnicalidades e assoprados por vereadores que não se sintam contemplados com seu naco de poder no governo. Para além disso , se pelo menos as razões alegadas para a derrubada de Dilma eram de conhecimento publico embora absurdas e de difícil compreensão, as razões para a derrubada de Crivella são absolutamente desconhecidas pelo eleitor que desta forma será mais facilmente convencido que foi golpe. Novamente recomendo que assistam a cobertura da TV Record.

Desta forma a decisão das bancadas do PSOL e do PT de aprovar a abertura de processo de impeachment foi um erro grave.

Erros graves são aqueles que tem consequências.