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SOBRE O “‘TERRIVELMENTE PSOLISTA” E OS “FEIOS, SUJOS E MALVADOS”

Marcelo Freixo saiu do PSOL para disputar o governo do estado pelo PSB. As razões alegadas são as diferenças sobre politica de alianças. Embora a direção estadual do PSOL já tenha afirmado a sua disposição de abrir uma mesa de dialogo com os partidos da esquerda e centro-esquerda , Marcelo quer ir mais além e trazer para essa aliança partidos da direita liberal ( aquela que a grande mídia apelida de centro) e isso certamente não passaria no PSOL .
Freixo avalia que para vencer as eleições no Estado do Rio é necessário ampliar a aliança para esses setores. Vejo alguns problemas nessa avaliação. Sempre que se fala disso surgem os nomes de Rodrigo Maia e de Eduardo Paes como interlocutores. Visto assim, eles até parecem ser a direita limpinha e cheirosinha , mas quando se olha para o Estado, interior e baixada, e se vê qual foi a base de apoio de Eduardo Paes na disputa do governo em 2018, surgem os feios, sujos e malvados.
Falar em aliança com setores da direita liberal significará negociar com vários clãs e oligarquias da baixada e interior ou então não terá eficácia. Estamos falando de Cozzolinos, ou da família “do Posto” em Magé e Guapimirim, estamos falando de Washington Reis ou da família Zito em Caxias, estamos falando em Celso Jacob e Vinicius Farah em Três Rios, estamos falando em escolher uma das oligarquias de Campos.
Marcelo está preparado para isso? vai conversar sobre o Detran com Vinicius Farah? tenho muita confiança no Marcelo Freixo, quadro sério, corajoso e que vem literalmente travando uma batalha de vida e morte com as milícias desde 2008. E acho que esse acordo com parcelas da direita liberal não tem como prosperar salvo alguns acertos pontuais. Marcelo não fala o mesmo idioma que esse pessoal.
A segunda razão da saída de Freixo do PSOL é a necessidade de se desvencilhar da imagem de “terrivelmente Psolista” que dificultaria seu dialogo seja com os atores politicos mais conservadores, seja com a parcela do eleitorado que rejeita o PSOL pelo seu protagonismo na polarização politica no nosso estado. Aqui no Rio o anti-psolismo conservador é mais intenso que o antipetismo, porque o PSOL é o maior partido da esquerda.
Os primeiros movimentos Marcelo já os fez. Segundo se noticiou, o marqueteiro Renato Pereira, que fez as campanhas de Cabral, Pezão , Eduardo Paes e Pedro Paulo, além de ser o idealizador do Pato da Fiesp, teria sido contratado. Certamente não é o único marqueteiro qualificado nem Freixo o achou pelos classificados. Foi escolha politica e simbólica. Chamar Raul Jungman para elaborar o programa de segurança também faz parte desse reposicionamento de imagem. Sai o “Se a Cidade Fosse Nossa” de 2012 e 2016 e entram “técnicos” palatáveis ao establishment politico e confiáveis a parcelas das classes medias conservadoras. A reação estridente de parte minoritária do PSOL , ontem, por tuites e notas, criticando duramente essas iniciativas eram o objetivo da ação, concluída com sucesso.
Marcelo Freixo faz uma inflexão politica pensada , calculada, e com o objetivo absolutamente nobre de tentar derrotar o Bolsonarismo no seu berço e consequentemente enfrentar as milícias tendo o aparelho de estado do seu lado.
Não creio que tenha chance de sucesso no sentido de viabilizar uma aliança ampla, embora certamente vá conseguir agregar alguma coisa. Mas também perde. A politica tem se movido pelos polos e não apenas no Brasil. Não concordo com a sua escolha, e ela de fato não seria possível no PSOL onde teria mínimo ou quase nenhum apoio.
Teremos uma eleição presidencial simultânea onde derrotar o Bolsonarismo e a agenda liberal são imperativos para a esquerda. O Bolsonarismo é a forma truculenta de passar uma agenda de contrarreformas e de destruição de direitos de tal forma cruel que pelos mecanismos tradicionais não prosperaria.
Mas se não concordo com as movimentações táticas de Marcelo Freixo, reconheço que nenhuma politica alternativa tem qualquer chance de ser sequer levada em consideração pela base social da esquerda se tentar se construir contra a candidatura dele. Tentar fazer isso, é caminhar para o gueto e a desmoralização.
Vivemos tempos difíceis onde todas as escolhas são turvas para quem faz politica para além da reafirmação de princípios.

COMO PENSA O EMPRESARIADO

Por razões profissionais tenho contato com muitos empresários. Industriais, CE0 de grandes empresas , profissionais liberais, comerciantes, gente de diversas áreas.
Um traço comum a todos é conhecerem muito bem as suas áreas de atuação e, mesmo que intuitivamente, terem bom conhecimento de microeconomia. Sabem avaliar seus mercados, suas estruturas de custo, e suas potencialidades.
Outro traço em comum é a mais absoluta ignorância sobre macroeconomia. Reproduzem mecanicamente o discurso da mídia, veem o Estado como um entrave e não fazem a menor ideia de como funciona a economia como um todo. Como em geral convivem nos seus ambientes sociais com outros empresários, seus conceitos e preconceitos se auto reforçam.
Boa parte deles prosperou durante os governos do PT e enfrenta crises de 2016 para cá. A maioria dos que conheço é muito crítico a Bolsonaro a quem têm na conta de idiota. Mas temem a volta da esquerda e do Lula em particular. Se questionados sobre que problemas tiveram nos governos Lula não têm nenhuma resposta direta. Ficam no ” a esquerda não gosta de empresários”.
Lula declarou anos atrás em tom de desabafo que não entendia a bronca dos bancos e dos empresários em geral com os governos do PT porque teriam ” ganho dinheiro como nunca” nos seus governos.
É ideológico. É sentido de pertencimento de classe. É receio a qualquer discurso que fale em combater a desigualdade porque sabem que lugar ocupam nessa desigualdade. Por mais moderada que seja a agenda, e os governos do PT foram moderadíssimos, a enorme maioria dos empresários não reage a seus interesses concretos mas á percepção que têm deles.
E essa percepção é determinada pela ideologia.

FRENTE DE ESQUERDA EM 2022 É TAREFA PARA JÁ

As eleições de 2022 ocorrerão num cenário muito distinto de tudo que já conhecemos. Derrotar Bolsonaro e a agenda neo liberal é um imperativo para a esquerda. Nenhum partido da esquerda isoladamente tem força para o fazer.
Não discuto aqui apenas a eleição presidencial mas também a eleição dos principais estados . Não nos basta levar um candidato ao 2 turno se esse candidato não tiver nos principais estados representação no segundo turno a governador. Em 2018 Haddad disputou o 2 turno sem ter candidato que o defendesse em S.Paulo, no Rio, em Minas e no Rio Grande do Sul onde os segundos turnos foram disputados por candidatos bolsonaristas raiz contra candidatos que flertavam com o Bolsonarismo.
Uma aliança nacional tem que se reproduzir no minimo nos principais estados . Dadas as movimentações de Ciro Gomes tentando viabilizar sua candidatura em aliança com setores da direita liberal o campo político possível é o que engloba o PT, PSOL e PC do B , dentre os partidos com representação parlamentar .
Os nomes destes partidos são auto evidentes. Haddad, Boulos , Manoela e Flávio Dino. Não considero neste momento Lula porque continua inelegível. Construir um programa mínimo em comum que interrompa e reverta o desmonte do Estado e dos direitos sociais, é a tarefa imediata .
Mas definir um nome para representar esse programa também é urgente. O regime é presidencialista e a política detesta espaços vazios. Um nome que seja desde já o porta voz da defesa do auxílio emergencial, da vacina para todos e do conjunto de enfrentamentos ao governo Bolsonaro.
Não se faz frentes sem escolhas doloridas. O PT é o maior partido da esquerda e não se vence eleição sem ele. Mas sem uma frente o PT também não vence. A escolha dos candidatos, presidência e governadores, deve ser pactuada . Tendencialmente o maior partido deve indicar o cabeça de chapa presidencial mas esta não pode ser uma imposição. Sem imposições mas também sem vetos.
A esquerda tem a obrigação de apresentar em 2022 uma esperança de futuro. Não será a eleição entre o presente e um passado mitico. Será a escolha entre uma nova esperança de radicalização democrática e redução da desigualdade contra o Bolsonarismo e agenda regressiva.
Estabelecer uma mesa de conversações, construir um programa e definir os nomes que irão protagonizar esta disputa.
Esta tarefa é para aqui e agora