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O SISTEMA POLÍTICO FALIU, TEMEMOS O DILÚVIO

A divulgação das delações da Lava jato confirma o que já se imaginava. O sistema político brasileiro baseado em dois blocos de alianças ancorados pelo PT e pelo PSDB faliu. Sistemas políticos em geral se organizam em torno de posição e oposição. No Brasil foi assim desde 1994 onde, com raras dissenções, todo o sistema partidário se organizou à sombra destas duas grandes forças com enorme lastro na sociedade.

PT e PSDB não protagonizaram durante estas duas últimas duas décadas todas as disputas presidenciais e estaduais, com seus sistemas de alianças anexos, apenas por terem votos. Collor também os teve em 1989 e não se consolidou como um dos pilares do sistema. PT e PSDB tiveram esse papel porque representaram interesses e expectativas enraizadas na sociedade brasileira, no meio empresarial, nas classes trabalhadoras organizadas, nos movimentos sociais, na formação da opinião pública. Por essa razão estava implícita a legitimidade do outro, reconhecida pelos vitoriosos e pelos derrotados.

A crise em que estamos, desvendados os métodos de financiamento de campanha com suas operações clandestinas que sempre possibilitaram enriquecimentos dos seus agentes operadores, desmoralizou as principais lideranças dos dois partidos. Lula de um lado e Aécio, Alkmin e Serra do outro, perderam a capacidade de ancorar um sistema político onde derrotados aceitem a legitimidade do vencedor. Mesmo preservando viabilidade eleitoral, coisa que parece mais consistente em Lula segundo as pesquisas, nenhum destes personagens reúne a capacidade de superar a crise de legitimidade, mesmo que eventualmente eleito. Tanto no PT quanto no PSDB não há lideranças alternativas. Falta um nome óbvio ao PT e falta a Dória comprovação de consistência para a tarefa. E não se pode desprezar a perda de legitimidade destes partidos, atingidos tanto quanto suas lideranças de maior expressão

As alternativas à esquerda e à direita não têm lastro social, e aí incluo o meu partido, o PSOL, para reorganizarem em novas bases o sistema político. Certamente aumentarão seu protagonismo, sua influência, mas ainda longe de ocuparem posições no palco principal. Se estivéssemos na segunda metade do século XX, seria o cenário de manual para um golpe militar. No século 21, como sabemos, os golpes são de outra natureza. Está aberta a temporada dos aventureiros vindos de lugares impolutos, vestidos como querubins ou serafins que , assim como Collor, podem ter lastro eleitoral em 2018, mas só prolongarão a crise.

Luis XIV, Rei de França, se tornou celébre por duas frases: “L’Etat c’est mois” (o estado sou eu), adaptado no Brasil para “o Estado é meu”, e “Aprés mois le deluge” (depois de mim o dilúvio).

Preparem os botes.

DE DUTERTE, BREXIT E TRUMP

Vivemos tempos difíceis. A ascensão de uma extrema direita antiliberal com base de massas é um fenômeno de alcance planetário. A eleição de Rodrigo Duterte à presidência das Filipinas em maio passado comparando-se a Hitler e prometendo exterminar 3 milhões de viciados em drogas abriu o cortejo de resultados eleitorais que expressam que algo se move na direção errada no planeta. O fenômeno que dá liga entre esse resultado eleitoral nas Filipinas, à vitória do Brexit na Inglaterra e ao Trump nos EUA é o mesmo. Isto não significa que os atores possam ser comparados, nada nos autoriza a comparar quem quer que seja a Rodrigo Duterte,que entre outros despropósitos vem incitando “viciados” a matarem traficantes e a população a matar “viciados”. O traço em comum está no fato que todos estes resultados eleitorais são fruto do mesmo processo econômico e político.

A reestruturação produtiva e a globalização

A Segunda revolução industrial está morta. No seu lugar, uma enorme reestruturação produtiva está em curso, com o avanço da robotização eliminando postos do trabalho e o deslocamento das plantas industriais intensivas em consumo de materiais, energia e mão de obra para os países da periferia, principalmente para a Ásia. Este processo produz vitoriosos e derrotados. Produziu ganhos significativos de renda em países periféricos, em particular na Ásia, mas também na África e na América Latina, mas aumentou a concentração de renda dentro de cada país. O rebaixamento dos custos de produção industrial decorrentes da robotização e dos menores custos salariais na Ásia produziu um enorme barateamento dos custos de bens duráveis, viabilizando o acesso destes produtos a milhões de trabalhadores pelo mundo afora. Mas deixaram atrás de si um rastro de destruição de empregos industriais na Europa, nos EUA e nas regiões industrializadas do Brasil.

O deslocamento do emprego para o setor de serviços significou um aumento de empregos bem remunerados no setor financeiro e tecnológico para uma parte menor da população e um aumento de empregos de baixa qualificação no setor de comércio e serviços de baixa intensidade tecnológica para a maior parte da população. Os primeiros viram sua renda subir acima da média, sua cesta de consumo de industrializados baixar de custo e votaram contra o Brexit e em Hilary Clinton. Os segundos, a maioria, via sua renda cair em relação à média, mas também em relação ao patamar anterior, e votaram pelo Brexit e em Donald Trump. Em comum com o filipino Duterte, os vitoriosos destes processos eleitorais construíram um “inimigo” de fácil identificação: para Duterte, os “viciados”; para os defensores do Brexit, a imigração e a União Europeia; para Trump, a imigração e a China. É sempre bom lembrar, que nos anos 30, para Hitler os culpados da crise eram os judeus.

Robert Paxton, em “A Anatomia do Fascismo”, cita frase de George Sorel de 1908 criticando Marx por não ter percebido que a historia não avança inexoravelmente para o socialismo “uma revolução alcançada em tempos de decadência pode tomar como ideal uma volta ao passado, ou até mesmo a conservação social”. As bases sociais tradicionais da esquerda nos cinturões industrializados da Europa, EUA e Brasil não mais existem. Porque estes cinturões industriais não mais existem no mínimo com a configuração que tinham há 30 anos atrás. Fora do centro financeiro de Londres, prevaleceu o Brexit, com vitorias expressivas nas antigas áreas industriais. Hilary perdeu a eleição na Pensylvania, Ohio, Michigan e Winscosin, estados industriais decadentes e o PT perdeu as eleições no ABC. Não foi uma derrota conjuntural, embora a conjuntura tenha tido seu peso. É uma nova configuração política que chegou para ficar.

O dilema da esquerda

A esquerda, tal como aprendemos a conhecê-la, construiu seus aparatos políticos, partidários e sindicais a partir da segunda revolução industrial, em que expressivas concentrações operárias formaram a sua base social por excelência. Para o marxismo, classe social se define por uma mesma forma de inserção no processo produtivo, uma relativa igualdade de acesso à renda e ao poder e, portanto, à formação de consciência de si mesma. Estas condições estavam dadas nas velhas plantas industriais, com milhares de operários organizados em atividades semelhantes, com salários semelhantes entre si e enorme concentração espacial.

A globalização e a reestruturação produtiva acabaram com estas condições. Nas plantas fabris, sobreviventes dos velhos cinturões industriais, trabalham muito menos operários, com um sem número de degraus e hierarquias entre eles e funções muito mais diversificadas, assim como patamares salariais distintos. A enorme maioria da força de trabalho foi deslocada para o setor de serviços, com formas distintas de inserção no processo produtivo, em que subsiste trabalho assalariado, mas cresce o trabalho terceirizado, a “pejotização” e o empreendedorismo precarizado. Formar consciência de classe nestas condições é muito mais difícil. A perda progressiva das identidades de classe foi substituída pela ascensão de outras identidades fragmentadas em busca de representação política. Pela esquerda, a luta antirracista, a pauta LGBT, a luta feminista, a defesa de valores libertários. Pela direita, as identidades étnicas, religiosas, culturais, a defesa de valores punitivistas.

Se no século 20 a luta política se organizou, no fundamental, em torno de interesses de classe, neste início do século 21 são as identidades que prevalecem na disputa. Recolocar a centralidade da disputa política em termos de conflito de interesses de classe é condição fundamental para a esquerda recuperar a relevância com capacidade de disputar poder. Isto não significa abandonar ou relativizar as lutas por direitos civis expressas nas pautas identitárias afetas à esquerda, mas reconhecer a sua insuficiência para lastrear a construção de uma nova hegemonia política.

Por tudo o que expus nesse texto, não é tarefa fácil nem tenho a pretensão de mostrar o caminho da salvação. Entre a esquerda que segue com a certeza na frente e a historia na mão, eu fico com a sabedoria de Sócrates expressa na frase “tudo o que sei é que nada sei”.

FREIXO, JANDIRA E O SEGUNDO TURNO

Reta final de primeiro turno, pesquisas apontando que a vaga para enfrentar Crivella provavelmente está entre Pedro Paulo e Freixo e se acirra o debate sobre “unidade da esquerda”, sobre voto útil , etc. Sou dirigente do PSOL e como tal faço questão de reafirmar a legitimidade das 2 candidaturas de partidos da esquerda, Freixo e Jandira, bem como a do Molon que, embora não esteja em um partido de esquerda, ele certamente o é.

Unidade em primeiro turno só se pode fazer em torno de um balanço e de um programa comum. Programa , certamente que com algum esforço, teria sido possível fazer. Mas balanço comum, só com uma boa dose de cinismo poderia ter sido feito. Afinal, PSOL de um lado, e PT/PCdoB de outro, cumpriram e ocuparam espaços diferentes, tanto na política nacional com na politica municipal do Rio de Janeiro nos últimos anos. Varrer isso para debaixo do tapete em nome sabê-se lá do quê seria uma fraude com o eleitor.

Setores do PT e do PCdoB alegam a luta contra o golpe como fator de unidade eleitoral. Poderia ser se isso tivesse resultado em uma política nacional coerente de repúdio aos partidos envolvidos no golpe de 2016 e de frente única pela democracia. Só que em centenas de municípios, PT e PCdoB estão aliados ao PMDB e até ao PSDB e DEM. Vamos convir que isso ou seria política nacional ou não tem consistência.

Compreendo as razões, embora delas discorde, que levaram PT e PCdoB a integraram os governos do PMDB no estado do Rio e na prefeitura da capital. Mas o PSOL discorda dessas razões desde sempre e combateu essa lógica e esses governos durante 8 anos. Obviamente que essas trajetórias distintas resultam em narrativas diferentes que cabem ser disputadas no 1 turno. Vale para o Rio, onde o candidato do PSOL está na frente da candidata do PCdoB/PT, e vale para São Paulo, onde o oposto ocorre. A democracia é incompatível com jogar balanços e diferenças para debaixo do tapete.

Durante 13 anos, nós do PSOL clamamos por unidade das esquerdas em torno de políticas de esquerda. Durante 13 anos o PT/PcdoB, Lula e Dilma, privilegiaram como aliados o PMDB e o centrão em torno de políticas que oscilaram entre o reformismo fraco e a capitulação ao conservadorismo.

Deixemos que o eleitor faça suas escolhas no 1º turno. E se chegarmos ao 2º turno, saibamos conversar sobre programa e alianças. Tenho respeito por Jandira Feghali, embora tenha com ela muitas divergências , principalmente de balanço (e isso é importante para que não se cometam os mesmos erros no futuro). Tenho respeito por Haddad, embora seja muito critico à sua administração. Tenho respeito por inúmeros dirigentes e militantes destes dois partidos (infelizmente não posso dizer todos), com quem espero estar nas mesmas trincheiras no futuro.

Mas nesta conjuntura é Freixo no Rio e Erundina em São Paulo.

Publicado originalmente em 25 de setembro de 2016.