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ANTI-GETULISMO, ANTI-BRIZOLISMO E ANTI-LULISMO, COMO FENÔMENOS CONSERVADORES

Um olhar alargado sobre a história sempre nos ajuda a entender o presente. Vivemos desde 2016 sob um governo ilegítimo, resultado de um golpe, em que os mesmos segmentos sociais que se confrontaram com Getúlio em 1954 foram protagonistas.

Getúlio Vargas era um homem da elite. Liderou a revolução de 30 que lhe deu um governo de 15 anos exercido com mão de ferro. Criou o estado nacional brasileiro. Centralizou o poder na União. Destronou oligarquias regionais. Acabou com os exércitos paralelos que eram as Forças Públicas da República Velha. Acelerou a urbanização e a industrialização do Brasil. Namorou o fascismo. Prendeu a esquerda, entregando Olga Benário ao nazismo, mas se alinhou aos EUA na fase final da Guerra. Personagem essencial e complexo da história brasileira, Vargas é também responsável pela Consolidação das Leis do Trabalho, pela organização sindical dos trabalhadores urbanos, pela incorporação crescente das massas à política. Vargas duplica o salário mínimo em 1954 e dá inicio à crise que leva ao seu suicídio.

Boas razões tinha a esquerda para não gostar de Getúlio Vargas e para tentar organizar alternativas. Mas a crise que leva Vargas ao suicídio foi insuflada pelas classes médias conservadoras que se sentiam ameaçadas na sua posição relativa na escala social por qualquer perspectiva de ascensão das classes trabalhadoras. O “mar de lama sob o Catete” denunciado por Carlos Lacerda nos seus comícios tijucanos, davam a cobertura de defesa da ética e da moral com os dinheiros públicos, atrás da qual se escondia o medo de classe da pequena burguesia em relação à ascensão social do “povão”. O anti-getulismo visceral da classe média lacerdista nada tinha de defesa da honestidade ou da moral, mas apenas dos seus privilégios de classe. A “Republica do Galeão”, nome adquirido pelo inquérito policial militar instaurado na base aérea para apurar o assassinato do major Rubem Vaz, era o epicentro do golpe, finalmente abortado por Getúlio com seu suicídio.

Em 1982, Brizola vence as eleições no Rio de Janeiro com votação espalhada por toda a cidade, inclusive nos bairros de classe média. Inicia um governo que inverteu prioridades de gastos. Cria um projeto educacional , os CIEPS, que pretendia dar à juventude das periferias acesso a um padrão de educação integral que lhes possibilitasse interromper o ciclo de reprodução de mão de obra de baixa qualificação, essencial para manter estática a ordem social. No governo Brizola, polícia não subia morro atirando e deixou de vigorar a política do pé na porta de casa de trabalhador sem mandato judicial. Várias vezes vi batidas policiais em ônibus onde, ao subir, o PM pedia desculpas pelo incômodo, explicava que estava ali para zelar pela segurança de todos e, educadamente, fazia a checagem de documentos. Brizola era uma liderança de esquerda, apesar de trazer para seu partido setores das oligarquias estaduais e conformar claramente um partido pluriclassista.

Com a Rede Globo no lugar de Lacerda e as classes médias resvalando de novo para o conservadorismo, o anti-Brizolismo ganha força. Afinal, dar uma educação na rede pública de padrão elevado não propiciará a reprodução do exército de mão de obra de baixa qualificação essencial à manutenção dos privilégios de classe dos de cima. A polícia agir na favela como se estivesse num condomínio da zona sul também não era bem visto, porque, afinal, era na favela que residiam as “classes perigosas”.

Lula se elege presidente da república em 2002 vencendo as eleições em quase todos os estados da federação, com exceção de Alagoas. Apesar das inúmeras concessões feitas à elite, apesar de ter Henrique Meirelles no banco central e Palocci na fazenda, apesar de não ter feito nenhum enfrentamento significativo ao andar de cima, seu governo é identificado com programas sociais como o Bolsa Família, que tira um enorme contingente de trabalhadores do desespero de se sujeitarem a quaisquer condições de trabalho e salário, com a ampliação da política de cotas, com a ampliação do acesso à universidade, ainda que em parte com um programa muito polêmico de subsídio a universidades privadas de péssima qualidade, pelo aumento real do salario mínimo, pela ampliação do crédito, pelo “Minha Casa, Minha Vida”. O congestionamento dos aeroportos, espaço até então exclusivo das “pessoas certas”, ajuda a espalhar nas classes médias a sensação de perda relativa de status.

Junho de 2013, com sua heterogeneidade de pautas e atores sociais e políticos, é um primeiro espasmo desse descontentamento. Ali se juntava um desconforto conservador visível em parte dos manifestantes, com o protesto pelas insuficiências dos ganhos sociais por outra parcela. Agendas de esquerda e de direita disputam as ruas.

Em 2015 e 2016, com o avanço seletivo da Lava Jato, as classes médias, enroladas na bandeira conveniente da sua “ética de resultados”, liderados significativamente pelo pato da Fiesp e mobilizadas pela Rede Globo, tomam a Paulista pelo impeachment. O anti-Lulismo ganha força e se desdobra agora na tentativa de inviabilizar a sua candidatura, com um canhestra condenação em um processo mambembe envolvendo um apartamento que não é e nem nunca foi dele.
Construir uma alternativa à esquerda ao Lulismo é uma tarefa imperiosa, como nos anos 80 construir o PT era necessário mesmo em confrontação com Brizola. Nos anos 80, por vezes o PT tentou pegar carona no anti-Brizolismo buscando atalhos na sua auto construção. A mesma tentação ocorre em setores da esquerda hoje, imaginando que seja possível pegar carona no anti-Lulismo para alavancarem seus projetos. Do seu viés anti-Brizolista dos anos 80, o PT só colheu maus frutos, como a exacerbação do discurso da ética (Brizola chamava o PT de UDN de macacão), que, no fundamental, opera na lógica da desvalorização do papel do estado, ao localizar nele as mazelas da sociedade (leiam Jessé Souza em “A elite do atraso”). A centralidade do discurso da ética é a manobra clássica das classes médias conservadoras com sua “ética de resultados” para se livrarem de governos “indesejáveis”. Apelar a ela como atalho de auto construção é um equívoco estratégico.

Em que pese que a esquerda tinha boas razões para se opor a Getúlio, boas razões para construir outro projeto fora do Brizolismo e para se contrapor ao Lulismo, pelo seu reformismo fraco, como diz André Singer, nada havia e nada há a ganhar dialogando com os fenômenos sociais conservadores de contraposição a estes governos. O anti-Getulismo, o anti-Brizolismo e agora o anti-Lulismo ou anti-Petismo, são fenômenos sociais conservadores que mobilizam segmentos sociais que sentem perda relativa de status pela ascensão dos debaixo.

Nada de bom virá daí.

O BRASIL AINDA VAI SE TORNAR UMA GRANDE VENEZUELA

Durante as manifestações de 2016 a favor do impeachment de Dilma, era comum encontrarmos manifestantes da classe media conservadora que do alto da sua arrogância, misturada com a sua ignorância, manifestavam o temor que o Brasil se transformasse numa Venezuela. Atiravam no que achavam que viam mas acertaram no que jamais imaginaram que estivesse acontecendo.

Desde os anos 30 do século passado que a Venezuela tem sua economia fortemente ancorada na produção de petróleo. Mais de 95% das exportações venezuelanas são de petróleo, mais de 80% das receitas fiscais do estado vêm do petróleo, e toda a disputa politica em curso na Venezuela entre o Chavismo e a oposição diz respeito á utilização destes recursos. Pela primeira vez a partir de 1998 a Venezuela teve um governo que resolveu utilizar as receitas do petróleo para alavancar programas sociais, distribuir renda e portanto democratizar as benesses deste recurso. No entanto nem o Chavismo, nem os governos conservadores que o antecederam tiveram sucesso na diversificação da economia, livrando-se da petrodependência.

Como resultado disto , com a queda do preço do petróleo de cerca de 100 dollares o barril para US43 , cotação de agora, depois de ter chegado a US30, a Venezuela quebrou. A crise venezuelana não é única, basta ver Angola, Camarões, e outros países do terceiro mundo exportadores de petróleo. A própria Arábia Saudita viu seu déficit fiscal de 2015 chegar a 15% do PIB, situação apenas admnistrável graças ás enormes reservas monetárias acumuladas durante décadas. Países do terceiro mundo, com enormes déficits sociais não tiveram a mesma chance.

O Brasil, a partir da Revolução de 30, com a perda de poder econômico e politico das suas elites agrarias em função da crise de 1929, passou por um acelerado processo de industrialização que levou a ser no inicio dos anos 80 a 7ª economia industrial do mundo. A produção industrial chegou a perto de 30% do PIB na década de 80.Epoca em que as noticias econômicas eram repercutidas com presidentes da FIESP como Luis Eulalio de Bueno Vidigal, capitães de Industria como Ermirio de Morais e Wolfgang Sauer e com sindicalistas do movimento operário como Lula e Jair Menegheli. Hoje o são com os economistas chefes do banco Itaú, Bradesco e economistas genéricos do “mercado” financeiro .

Da década de 90 para cá, principalmente a partir de 1994 com o plano real, o Brasil entra numa perigosa rota de desindustrialização. Se até os anos 80 o Brasil era superavitário no seu comercio exterior de produtos industrializados, hoje o Brasil tem enorme déficit que só não é maior ainda quando se levam em conta os produtos semi-industrializados. Em 2015 a produção industrial brasileira correspondeu a 11,9% do PIB. Politicas desastrosas de usar o cambio como ancora para a inflação, juros elevados retirando competitividade á produção nacional, e agora o abandono da politica de privilegio a fornecedores nacionais nas compras governamentais aprofundam o problema. Somos governados por uma coalizão do agronegócio com o setor financeiro. A crise que no Brasil começa em 2014 já é consequência deste processo. O aumento da dependência de produtos primários, soja, café, minério de ferro, carne, na nossa pauta de exportações nos torna mais vulneráveis ás crises internacionais e á queda do preço destes produtos.

Para além disto estima-se que a indústria gera empregos com salários cerca de duas vezes maiores que o setor de serviços e que o setor agrário, com maior índice de formalização e consequentemente gerando um mercado consumidor interno mais consistente.

O retrocesso do Brasil a um modelo primário exportador nos leva para perto da situação da Venezuela, com o agravante que temos uma população 7 vezes maior. Até a logica imposta á produção de petróleo prioriza o modelo exportador de curto prazo, abandonando a perspectiva de usarmos o pre-sal como indutor de um processo virtuoso de reindustrialização.

A vulnerabilidade do Brasil a crises internacionais que deprimam preços de produtos primários , a exemplo do que ocorria na republica velha, volta com toda a força. O desastre que se abateu sobre os países do terceiro mundo exportadores de petróleo , será a nossa realidade no futuro. Não é sequer preciso olhar para a Venezuela, basta olhar para o estado do Rio de Janeiro, que nos últimos 15 anos alicerçou sua receita fiscal no petróleo e quebrou com a queda das cotações deste produto. Salários atrasados há 4 meses do funcionalismo publico são um exemplo do preço que se paga por escolhas erradas.

Detesto reconhecer isto, mas os coxinhas que denunciavam a venezuelização do Brasil tinham razão, mesmo sem saberem porquê.

A CRISE ECONÔMICA É FUNCIONAL

“A crise foi funcional. Com a crise eles ganharam um discurso: “O dinheiro acabou!”, “Temos uma crise!”, “Não há dinheiro!”, “Se não reformar a previdência não vai ter como pagar a previdência!”. O PMDB faz uma campanha terrorista nas redes sociais: “Se não reformar a previdência não vai ter dinheiro para o Bolsa Família”, “Se não reformar a previdência não vai ter dinheiro para pagar os salários”.

Ou como fizeram em relação ao Rio: “Se não privatizarmos a CEDAE não vai ter como pagar os salários”, “Se não aumentar a contribuição previdenciária dos funcionário públicos de 11% para 14%, com adicional de mais 8% durante três anos, a gente não vai conseguir por os salários em dia”.

Por que que a crise é funcional? Porque o funcionário público do estado, que agora mal acabou de receber dezembro, não recebeu janeiro, não recebeu fevereiro, vê a segunda conta de luz chegando em casa que não está paga, a capacidade de resistir a essas medidas é menor. É naturalmente menor.

Então a crise é funcional porque ela dá o discurso e dá o poder de chantagem sobre os governos estaduais e sobre os funcionalismos dos estados de forma que eles ofereçam menos resistência a essas reformas.”

 

Trecho da apresentação feita no Encontro de Formação Política realizado em Três Rios (RJ), em 25 de março.

https://youtu.be/54fa-jeEnYs