SOBRE A DISPUTA DO CENTRO E A GOVERNABILIDADE

As notícias sobre a eventual candidatura de Alckmin a vice presidente na chapa de Lula defendido por setores do Petismo que tal como os Bourbons não aprenderam nada nem esqueceram nada, levantou o debate sobre como disputar o “centro”.
A maior parte do eleitorado brasileiro não se move linearmente num gradiente entre extrema esquerda e extrema direita. Em 2018 vimos parcelas expressivas das classes trabalhadoras migrarem do Petismo para Bolsonaro e se prepararem agora para fazer o caminho inverso, sem escalas em qualquer opção da direita liberal ou do “centro”.
Na base da sociedade , em particular nas periferias das grandes cidades, Bolsonaro arrastou parcelas expressivas das classes trabalhadoras em 2018 com um discurso radical de extrema direita com direito a ameaças de mandar a esquerda para a Ponta da Praia ou para o exilio. Todos os partidos da direita liberal e do centrão, e até o PDT no 2 turno, viu a maioria dos seus candidatos migrarem para o apoio a Bolsonaro. Bolsonaro tinha um general como vice. Não fez qualquer concessão programática ou simbólica e venceu.
Por outro lado, quem polarizou a eleição e teve 45% dos votos foi Fernando Haddad. Tinha uma vice jovem, mulher e Comunista. Não teve alianças formais ao “centro” e teve 45% dos votos na pior conjuntura para a esquerda das ultimas décadas. Os candidatos da direita liberal foram reduzidos a pó naquela eleição.
Lula vai aumentar suas chances de vitória quanto mais nítido for seu programa no sentido de garantir as mudanças necessárias a melhorar as condições materiais do povo. Atrairá apoio de parcelas das estruturas partidárias do “Centrão” e da direita liberal quanto mais força social acumular pela esquerda.
Lula não venceu em 2002 por ter um vice empresário ou pela Carta aos Brasileiros que lá no Jardim Angela ninguém sequer ficou sabendo. Lula venceu porque a crise derrotou os tucanos. Foi patético ver José Serra dizer na campanha que “a mudança é azul” quando até as pedras da calçada sabiam que a mudança era vermelha e tinha as barbas de Lula.
Mas diferentemente de 2003 quando Lula acenou com a bandeira branca ao mercado financeiro e, beneficiando-se de uma conjuntura internacional muito favorável, pode distribuir renda para o andar de baixo sem afetar o topo da pirâmide, isso agora não será possível. Nos anos Lula a melhora relativa na distribuição de renda se deu entre os mais pobres e as classes medias, enquanto o topo da pirâmide seguiu ampliando sua distancia em relação aos demais.
Agora a governabilidade de Lula dependerá da sua força em fazer mudanças estruturais. Sem revogar o teto de gastos e demais restrições fiscais arbitrárias o país ficará ingovernável. Para fazer isso, que passa inclusive por emendas á Constituição, Lula precisa mobilizar na campanha eleitoral força social em torno dessas bandeiras. Uma campanha referendatória sobre medidas essenciais e absolutamente contrarias ás contrareformas neoliberais dos últimos anos. Não se faz isso com sinais trocados para a base que se pretende mobilizar.
Mudaram os tempos e quem acha que 2023 será uma alegre volta ao passado, talvez acorde ano e meio depois em 2016.